Vida bandida

Toda sexta-feira era a mesma coisa: a rua fechada pelo vai e vem da molecada tomando cerveja e fumando cigarros enquanto escutava o som do samba tocando alto. Ir para o boteco era sempre a melhor aula da escola.

Naldinho sempre estava lá. Usava roupas largas e boné enterrado na cabeça, uma versão abrasileirada de um rapper americano qualquer. Muitos dos caras que estavam por ali andavam do mesmo jeito, porém a fama de bandido do garoto já era notória.

Ele esparramava o corpo numa cadeira de ferro e fazia cara de ruim para quem passava. Sempre tinha meninas ao seu lado, muitas. Todas querendo ser a primeira dama. Elas iam se revezando sentadas no colo de Naldinho.

Um sultão de 17 anos de idade e que mal sabia escrever o nome. Tinha herdado a fama e o posto do irmão mais velho, Naldão, assaltante de bancos respeitado que havia sido morto em confronto com a Polícia.

Ao seu lado a “função”. Membros mais diletos do submundo da zona oeste de São Paulo. Um bando de meninos se fazendo de homens. Pareciam formigas se preparando para o inverno, pois andavam de um canto ao outro, sempre falando sorrateiramente em códigos de guerra.

Todos sabiam o que ocorria ali, mas a grande maioria das pessoas ia só pela diversão mesmo.

De repente, um tumulto começa na esquina e as pessoas saem correndo e gritando. Naldinho já não estava mais sentado e sua gangue tinha evaporado.

De um bolo de gente em fuga, surge de longe a figura miúda de Naldinho. Ele estava com seu revólver 38 cromado na mão, ameaçando um rapaz que tentava se esconder atrás dos carros estacionados.

Os pipocos do revolver fizeram o som do samba sumir como num buraco negro. Naldinho disparava a esmo enquanto seus comparsas espancavam quem viam pela frente. Quem não tinha nada com a briga foi para o “cada um por si”. Alguns pularam para dentro do boteco, outros correram para não mais voltar.

O bando de malandros sumiu quase ao mesmo tempo que o barulho das balas. Os músicos se entreolharam e ensaiaram começar a tocar outra vez. Logo a Polícia chegou e acabou com a festa.

Alguns dias depois, o rei Naldinho estava voltando sozinho da casa de uma namorada logo de manhã. Para cortar caminho, preferiu passar por um escadão.

Uns caras desconhecidos estavam sentado nos degraus, de modo que Naldinho teve que pedir licença para passar. Foi insultado com palavrões.

Quando esboçou reagir, Naldinho tomou três tiros no peito e tombou. Seu corpo quicou nos degraus até ficar imóvel, já sem vida.

Mesmo com a notícia da morte do ex-colega de classe, as aulas continuaram normalmente na escola.

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