Alexandria Ocasio-Cortez, o DSA e os socialistas nos Estados Unidos

Alexandria Ocasio-Cortez em Boston

Ontem tivemos as “Midterms” nos Estados Unidos. Diferente do Brasil, as eleições para Senado, Governo e Congresso ocorrem em uma época diferente da eleição presidencial; nas Midterms, portanto, não temos uma renovação presidencial, mas sim uma renovação e disputa das outras categorias representativas. Sabemos que nos últimos anos tem ficado ainda mais evidente para a maior parte da esquerda (finalmente) que o Partido Democrata e o Partido Republicano têm, em suas fileiras, candidatos de perfis muito parecidos. Embora saibamos que a tendência é que os Democratas representem algo próximo do que chamamos “esquerda”, nenhum analista mais ponderado ousaria colocar o partido nessa denominação.

Contudo, esse bipartidarismo estadunidense nos coloca um cenário um pouco mais peculiar; afinal, existem pessoas menos moderadas e com discurso mais ideológico nos Estados Unidos e, por conta do interesse eleitoral, precisam se lançar dentro dos partidos da ordem. Assim, surgem múltiplas alas ou movimentos que se encaixam nos partidos para o período de eleições. Ainda que no partido Democrata as alas moderadas e mais “liberais” tenham óbvio privilégio e notoriedade maior, há um movimento interessante que precisamos destacar: o crescimento do Democratic Socialists of America — o DSA, que é uma organização independente do partido Democrata, mas que lança seus candidatos por ele.

Vamos primeiramente falar dos dados incríveis de filiação do DSA nos últimos anos: de 2015 para 2018 a ala dos socialistas cresceu de 5000 membros para incríveis 52.000. Número que continua crescendo. Há uma clara relação entre a eleição de Trump, o fenômeno iniciado por Bernie Sanders e o crescimento do DSA. Destaca-se uma figura entre as muitas caras deste movimento que é a de Alexandria Ocaso-Cortez, um verdadeiro fenômeno político, eleita ontem para o Congresso numa vitória esmagadora. Tendo Bernie Sanders como mentor, a “millenial” de apenas 28 anos (e mulher mais jovem já eleita ao congresso) mostra um discurso muito mais radicalizado que seu mentor, tocando em questões da luta de classes, opressões e o fim do capitalismo, não apenas sua reestruturação. Além de Alexandria, destacam-se as eleições de Rashida Tlaib, primeira muçulmana a ocupar o Congresso Americano e Julia Salazar, eleita em Nova York para o senado estadual. Três mulheres jovens, assumidamente socialistas. Esse movimento é diferente dos movimentos socialdemocratas que, mesmo tendo suas conquistas, falharam em atacar a estrutura? É cedo para dizer, mas a escritora da revista socialista Jacobin, Meagan Day, também socialista democrática, deixa claro: esse não é um novo movimento liberal ou de reformas do capitalismo. O objetivo em longo prazo é o socialismo. Ainda que as lutas por direitos básicos da classe trabalhadora ainda sejam o foco em um país com pouquíssimo avanço em questões como saúde e educação pública.

Ser socialista no coração do capitalismo e do imperialismo não é fácil. Sem ilusões, o crescimento do DSA, com suas limitações e contradições, representa algumas conquistas para o movimento socialista do país. Pelo menos ganha o discurso que desafia o establishment. Já era hora de uma nova onda progressista, sem medo de ser radical. Não estamos falando de um movimento revolucionário e certamente vai haver bastante discussão sobre seu caráter reformista ou rebaixado entre os marxistas (aonde estou, também, incluso), mas fato é que enfim temos uma esquerda estadunidense que não é anti-socialista e politiza os espaços. Dada a conjuntura, esse ganho não pode passar despercebido. Se o momento é esperançoso, vai da análise de quem lê. Só não podemos ignorá-lo.