A futilidade da utilidade

Ou, a Sublime beleza do Inútil.

Catedral da Sé — São Paulo — Catedral de Estilo Neogótico. Resiste à padronização dos prédios. Créditos pela imagem: PreservaSP

Já discuti anteriormente o rompimento brusco com a Cultura Orgânica, — ou seja, aquele tipo de manifestação voluntária baseada na tradição, tais como as festas populares, ou os edifícios com aquela arquitetura típica dos séculos anteriores — , que a vida moderna impõe. Também discuti a respeito da noção de tempo e como esta justifica uma constante busca pelo prazer (Hedonismo). Não obstante, a busca pelo prazer, assim como o rompimento com a cultura orgânica, está intimamente atrelada a uma outra realidade moderna que sinto que deixei passar: O Utilitarismo. Em verdade, este texto é um complemento e um elo entre os dois textos anteriores.

Ora, quando nos dizem “Não perca seu tempo com isso!” esta mesma expressão pode ser dita de outra forma, sem que isso comprometa seu significado: “deixe de lado essa besteira e procure algo útil para fazer!”. O fenômeno que fez o tempo se tornar dinheiro e os relógios passarem a ser usados como um norte para a vida, tornando-se um objeto cada vez mais cotidiano, acabou por transformar a nossa concepção valores.

Passamos, então, a valorizar somente a utilidade das coisas. E aquilo que não nos garante nenhuma perspectiva de realização pessoal, profissional, sexual, etc, passou a ser caracterizado “inútil”. O inútil nos dá repúdio, pois, representa perda de tempo, perda de vida. Um exemplo: Quem, nos tempos de colégio, nunca perguntou a um professor “para quê servem, (a utilidade), a História, a Filosofia, as Artes, ou essas malditas equações e fórmula de Bhaskara?”.

O utilitário também está impregnado nas nossas relações humanas. Afinal, o que é o “ficar”, que hoje tanto se fala, senão um modelo de relacionamento efêmero e utilitário? Que consiste em usar uma pessoa para satisfazer determinados prazeres carnais, — lascivos, geralmente -, por certo tempo, até que o ímpeto de luxúria passe e, por consequência, a relação se torne insustentável (inútil… perda de tempo, perda de vida).

Ou então, quando, não raras vezes, nos perguntamos: O que é mais útil, trabalhar mais algumas horas e ganhar mais dinheiro ou passar um tempo com a minha família? Mostra que o cálculo matemático, de tempo e dinheiro, é fundamental para justificar a nossa perpétua busca não só pelo prazer, mas também pela utilidade das coisas, em suma, nossa sanha de unir útil e agradável. E mostra, ao mesmo tempo, que G.K. Chesterton em “The Three Foes of the Family” tinha razão em afirmar que: “Foi o capitalismo que forçou o pleito moral e a competição comercial entre os sexos; (…) que destruiu a influência dos pais em favor da influência do patrão; que expulsou os homens de suas casas para em busca de empregos; que os forçou a viver perto de suas fábricas ou de suas empresas ao invés de perto de suas famílias; e, acima de tudo, que encorajou, por razões comerciais, um desfile de propagandas e de novidades entediantes, que, naturalmente, levou à morte tudo que recebia o nome de dignidade e modéstia por nossas mães e pais”.

Mas afinal, por que tudo tem que se basear na utilidade? Existem coisas “inúteis” que podem ser consideradas fundamentais para nossa vida?

Tomemos como exemplo a beleza. Uma paisagem, um conjunto de notas musicais, um jardim bem ordenado, uma construção, um trabalho artístico, um rosto humano, tudo isso pode incluir-se na categoria do Belo ou, muitas vezes, a categoria do sublime. Contemplar a beleza não é algo que possa se considerar útil em tempos como os nossos, está mais para perda de tempo. Entretanto, a contemplação nos dá prazer, mas não aquele prazer que tem fim em si mesmo, mas um prazer que serve como um reconforto para nossa alma. Que tira-nos da nossa cinzenta rotina, “alegra-nos na tristeza e reforça a nossa alegria”. Ela é algo que nos aproxima mais de Deus, como diria Platão e nos é tão caro e irresistível quanto a verdade e a bondade.

O filósofo inglês Roger Scruton nos diz que, ao fim e ao cabo, a beleza, - assim como a religiosidade -, é uma necessidade do homem e que, se a abandonarmos, caímos em um “vazio espiritual”. O fato é: a utilidade nos restringe à um senso materialista que acaba por sublimar, - e colocar em segundo plano -, nossas necessidades metafísicas, tais como as necessidades morais e as necessidades do espírito.

Scruton aponta que alguns filósofos tendiam a separar “Belas artes”, (Pintura, Escultura, Música) das chamadas “Artes úteis” na qual a arquitetura se insere. E dessa forma utilitarismo adentrou a arquitetura moderna. Fato observável a partir da máxima do Arquiteto Modernista Louis Sullivan: “a forma segue a função”, ou seja, a utilidade de um edifício deve vir antes da demanda estética.

Com esse pensamento influenciando muitos arquitetos até os dias de hoje, não nos faltam exemplos de monstruosidades arquitetônicas, com formas e cores bastante parecidas. Primeiro usando o concreto armado e, posteriormente, o concreto foi trocado pelo vidro e as vigas de aço, que também não nos traz nenhuma noção de pertencimento e de adequação ao ambiente. Esses “rascunhos de autoCAD”, nas palavras de um grande amigo meu, geram um bizarro contraste entre o modernismo e a antiga arquitetura, aquela que tem origem na tradição e não no modismo, cujos ornamentos nos tiram o fôlego e nos suscitam a noção de harmonia. A falta de modéstia nas construções também colaboram para a degradação estética de qualquer cidade, visto que determinada modéstia, serve para valorizar aquilo que realmente é belo.

O senso comum, ao tratar da arquitetura também é, de certa forma, influenciado pelos ideais de Sullivan, pois, anseiam pelo “progresso”. Contudo, como professor de história, não canso de ouvir, - geralmente dos mais velhos -, sobre a “necessidade de resgatar determinadas histórias”, da cidade onde vivo. Às vezes a memória daquilo que já se foi parece ter mais valor (ser mais útil) do que aquilo que é palpável, algo a se pensar não só com relação à arquitetura, mas também em nossas relações com as pessoas e com aquilo que nos cerca. Memento Mori.

Não poderia terminar de outra forma, senão com algumas frases de Roger Scruton que, ao observar as mudanças ocorridas, através dos anos, no lugar onde crescera, salienta que: “Se você considera somente a utilidade nas coisas que construímos, não tardará muito para concluirmos que se tornaram INÚTEIS.” “Ponha a utilidade como um norte e logo você a perderá, ponha a beleza a frente e ela será útil para sempre… Ocorre que nada é mais útil que o inútil”.

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Rafael Schier Granado

Written by

Em suma: Um Caipira Católico, metido a Erudito.

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