Hoje isso, amanhã aquilo, depois de amanhã só Deus.

Eu quis te dizer de quando andava longe de ser.

Sendo aquilo que nós não eramos, num mar de certezas daninhas.

A gente ficou junto um tempo e de repente abrir a mesma porta não significa a mesma rota. Não me perco mais de ti, apesar de não saber pra onde vamos.

As mesmas notas já estão mortas. Sem espaço pra letras tortas, alfabeto viciado, crenças sem relevância, ímpeto reforçado.

Minha pele quente do sol muda feito cobra, torce que nem pano, absorve que esponja, rumina feito bicho, reconstrói como pirâmide.

Eu te quis feito animal, sem calma ou pudor, com afeto, carinho e sem dor.

Quis te agarrar como se não houvesse amanhã, prender, controlar, adestrar, tudo em vôo rasante.

Mas aí a testa no chão desabou, desatou os nós da espinha, minhas dobras eu senti, me encontrei no fundo da tua retina.

A visão me pulveriza de jeito, quebra meus dedos, assume meu pescoço, pendura meus medos no assoalho, captura meus sonhos na asa de uma libélula.

Voamos sim, mais que duas vezes, foi o mais frio e também o mais quente. Foram edifícios erigidos, fundações destroçadas.

Sobrou eu. Sobrou você. Sobrou nós.

Sobrou.

E agora só me sobra, meu tempo é nosso, meu amor é teu, nossa casa é a inconstância de viver sem amordaçar o que doer.

A leveza de deixar ser, demolir torres de papel, adentrar mar a dentro da tumba de quem não pôde mais ir, mas que continua em quem continua.

Bom dia, meu amor. Boa tarde e boa noite também. Você costumava carregar tantas armas e hoje conta no dedo as que têm. O gatilho hoje só serve pra proteger seus vinténs.

Vinténs não, tesouros. Mapas inteiros, todos os “x” que puder imaginar, todas as coordenadas desordenadas, mal direcionadas e definitivamente desorientadas.

Mas tudo bem, tá tudo bem mesmo. A rosa não me leva ao vento, o vento me leva à rosa.

O vento empurra, o cheiro fissura, a luz cega, o zumbido desequilibra, a energia me toca, a vibração me encanta.

São sementes, dizia meu avô. 
São serpentes, dizia a senhora na Praça Batista Campos. 
São dementes, dizia eu no melhor lado do campo de concentração. 
São crentes, dizia o repórter na televisão.

É sangue, é fibra, é preto, é tequila.

É Lucy in the Sky with Diamonds. É cristal de êxtase. 
Fumaça de planta, chá de natureza.

Minha mãe no recamier, meu pai no sofá laranja da sala. 
Meu convívio invisível.

As tristezas de azul, o tesão do vermelho. O impulso dos meus escuros, a solidão do claro.

A esperança em tudo aquilo que tenha cor. Que tenha nós. Que tenha eu e você. Apenas um caminho.

Apenas receptor, aprendiz, empregado doméstico, limpador de parabrisas, vendedor de bugigangas, criança brincando na lama, amor de vó abraçando quem te ama.

Hoje isso, amanhã aquilo, depois de amanhã só Deus.