Pensamentos aleatórios sobre ontem-hoje

Cansativo, é o que tem sido. Não só o dia a dia material, que agora se ocupa de obrigações mundanas autoimpostas, mas também mentalmente. Me pego, quase sempre, pensando. Fazendo as coisas em piloto automático enquanto minha mente vaga por um cosmos de coisas, ponderando, desejando, fantasiando. E acho que isso cansa.

Em parte, porque tive mais uma vez que colocar de lado meus próprios problemas para colocar os dos outros na frente. Nunca foi novidade, é fato. Já dizia meu antigo terapeuta que eu devia aprender a dizer não e ser um pouquinho mais egoísta (Um dia tenho que lembrar de me desculpar à meu pai e ao próprio terapeuta, por ter desperdiçado, respectivamente, dinheiro e tempo em sessões nas quais ocorria uma espécie de baleado emocional: virei um mestre em esquivar de assuntos que não queria abordar). Mas mesmo que eu fosse a pessoa mais egoísta do mundo, este não é um caso que eu deixaria de priorizar. Não me aprofundarei nesse assunto: as coisas já estão melhor encaminhadas do que eu esperava.

A ferida na palma da minha mão está quase inteiramente cicatrizada. Pensei se o mesmo não estava acontecendo por dentro. Depois achei graça da minha analogia (Mateus, o grande amante das analogias). Achei graça, mas não ri. Não ri porque a mascara de carne restringe alguns movimentos, e porque rir tem me dado uma pontada aguda de dor em algum lugar que não sei precisar bem. Falando em máscaras, outras duas analogias cruzaram meus pensamentos hoje.

Meu quarto foi completamente esvaziado, uns dias atrás. Eu, que mudei de cidade mais de 6 vezes durante a infância e não firmei nenhuma amizade até os sete anos de idade, adoro mudanças. Vez ou outra, mudava a disposição das coisas do meu quarto, íntimamente desejando mudar de apartamento, sei lá porque. Penso que talvez seja um instinto de autopreservação. Uma vontade louca de fugir para algum outro lugar em que ninguém me conheça. Bem, o quarto foi esvaziado para uma reforma. Quando me mudei para onde moro agora, cerca de onze anos atrás, o cômodo foi reformado e assim permaneceu até recentemente, quando tudo que é meu foi classificado entre útil e inútil e removido de lá. Os armários foram tirados na base da porrada e do martelo, reduzidos a um monte de tábuas e descartados numa caçamba de entulho próxima daqui. Vê-lo branco e vazio me encheu com uma melancolia muito clichê. Um sentimento doce e esfumaçado de infância e adolescência que foram embora sem que eu tenha feito tudo que queria. Aí fiquei comparando o quarto à mim mesmo, que tenho feito tantas reorganizações psicológicas recentemente. Me achei meio ridículo.

Visto que todas as minhas posses vieram parar na sala até que a montagem das coisas termine, acabei por reencontrar um monte de coisas que tinha guardado, claro. Vários amuletinhos com pó de memórias. A máscara de plástico que encontrei não foi um desses amuletos, mas por alguma razão decidi colocá-la. Foi confortável. Acho que gosto da ideia de não ser reconhecido. Daí meu cacoete de esconder o rosto na camisa, imagino.

Os amuletos que julguei saudáveis ficaram. Uma castanhola de madeira, uma flauta de plástico, um pequeno caderno de bolso com uma caligrafia estranha, um pingente, um colar, alguns isqueiros, uma pasta de desenhos, umas medalhinhas, moedas e bandeirinhas estrangeiras. Lembro-me claramente de encarar toda essa tranqueira e lembrar individualmente de cada uma das histórias que continham. Chorei um pouco sem saber porque, mas tenho certeza que não foi tristeza. Outros amuletos foram embora. Não os listarei aqui, pois quero que a imagem deles desapareça, e com elas, as memórias e sentimentos que acredito serem ruins para minha saúde emocional. Olhando para estes, não chorei. Senti raiva, mas não sei de quê.

Roubei uma almofada do sofá da sala para poder abraçar durante o sono. Gostei dela e dei-lhe um nome, como faço com tantas outras coisas que estimo (Lembrete pessoal: Anotar isso na lista de possíveis sintomas de esquizofrenia, logo abaixo da mentalização de extensas representações visuais de estados emocionais).

Caralho, escrevi pra cacete. Já são 00:44 e eu tenho prova hoje. Tive duas ontem e tenho mais três semana que vem. Estou fodido. Merda, porra, porra, caralho. O sono não vem. Me pergunto se escrever tanto sobre mim não é egóico e narcisista. Não cheguei a uma conclusão ainda, mas visto que não sou dotado de tanto amor-próprio, quero crer que não é o caso. Espero não me preocupar demais com isso no futuro. 00:47.

Engraçado como eu sou cheio de planinhos e esquemas para minha vida não é? Acabei de notar mais uma vez que eles nunca dão certo. E eu continuo insistindo. “Primeiro isso, depois aquilo”, hahaha. Um caso nada grave de megalomania com relação ao meu destino, creio eu. Foda-se, algum objetivo eu tenho que ter em mente, senão acho que enlouqueço. Essa porra dessa prova do concurso pro Itamaraty, meu irmão, vai chorar quando me vir com sangue no olho daqui a alguns anos. Meu nome é Zé Pequeno, porra. E boa noite.

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