Pesados penhores

-Que ano é?
-Noventa e cinco.
-Funciona direitinho?
-Tem poucos meses que usei pela última vez. Acho que ainda funciona, sim.
-Huumm. Mas é forte?
-Vixe, se é. Várias vezes aguentou mais do que eu achava que dava.
-E o uso, foi constante? Parece meio gasto.
-Ah, não foi por usar com frequência, na verdade. Foi a intensidade.
-Entendi. Mas aqui parece que tá faltando um pedaço, olha só. E tem essa rachadurazinha do lado…
-Caiu e quebrou umas vezes. Na hora de montar sobrava peça, sumia peça. Sabe como é, né?
-Certo. Já passou em muitas mãos?
-Eu conto três donas. Quatro, se quiser considerar a primeira, mas ela mal usou.
-Tá bom então. Olha, pra ser sincero ele não está em bom estado não. É pequeno, é frio, tá escuro, rachado, todo remendado… Quer quanto?
-Vim disposto a aceitar seu preço.
-Um punhado de anos de paz é minha melhor oferta, pegar ou largar.
-Considere pego. Só queria me ver livre disso, sendo sincero. Senti-lo batendo dentro do meu peito mais doía do que me confortava. Passar bem.
-Passar bem.