Por que o ateísmo é uma crença?

1. Introdução

A pergunta “ateísmo é crença?” confunde muita gente, mas é importante tentar respondê-la porque não há como discutir o ateísmo sem saber o que ele é. Começarei pelos argumentos que defendem que o ateísmo não é crença. Após mostrar as falhas desses argumentos me aprofundarei na noção de crença (através da Teoria dos Sistemas Intencionais de Dennett). Nas partes finais defenderei que o ateísmo é uma crença e comentarei algumas consequências disso.

2. Argumentos e refutações

Há pelo menos dois argumentos que tentam estabelecer que o ateísmo não é uma crença. Chamarei um de “argumento da fé” e o outro de “argumento da prova”. Possivelmente existem mais argumentos, mas discutirei apenas estes por brevidade e porque, ainda que não funcionem, são intuitivos e populares (mesmo que raramente sejam explicitamente formulados).

3. A natureza das crenças

O que são crenças? Filósofos, neurocientistas e psicólogos ofereceriam respostas que não seriam necessariamente excludentes. Sendo assim, por onde começar? Uma teoria que não se afaste muito de nossas intuições, ainda que não tenha por isso algum mérito científico, seria bem-vinda para os presentes propósitos. Não pretendo me aprofundar muito na discussão acerca da natureza das crenças. Não que haja algum problema em investigar cientificamente o assunto, ocorre apenas que “ateísmo” não é um termo científico, e na presente discussão colocá-lo no interior de uma teoria científica sobre crenças acabaria por obscurecê-lo.

4. Racionalidade e ateísmo

Fui vago sobre o que pode ser considerado racional: as crenças, os comportamentos ou os indivíduos? Crenças e comportamentos podem ser considerados racionais ou irracionais, indivíduos só podem ser considerados racionais ou irracionais indiretamente, em função de como se comportam e daquilo que desejam ou em que acreditam. No caso dos comportamentos, julgamos que são irracionais quando contrariam aquilo que supomos que se deveria crer ou desejar, por exemplo: se acreditamos que um indivíduo deseja beber a água que está em uma garrafa (porque aparenta ter sede) e ele quebra a garrafa, então ou julgaremos que ele se comportou de maneira irracional ou mudaremos de opinião sobre ele desejar a água (ou acreditar que era água). Em contrapartida, os comportamentos são considerados racionais quando não contrariam as suposições feitas com a postura intencional. Assim, as crenças e desejos que atribuímos aos sistemas intencionais determinam os comportamentos que consideraremos racionais ou irracionais.

5. Por um ateísmo que vale a pena

O esforço para mostrar que ateísmo é crença não seria vão? Afinal, quem nega que o ateísmo seja crença normalmente só quer dizer que o ateísmo não depende da fé. Ninguém negaria que o ateísmo seja crença no sentido de ser uma posição que pode ser defendida. Pelo menos não depois de pensar um pouco no assunto, certo? Infelizmente não é bem assim. Se os ateus apenas insistissem que o ateísmo é ausência de fé não estariam cometendo um grande erro, só estariam sendo imprecisos (dado que um ateu pode ter fé na sua posição, ou algo bem parecido com fé: uma certeza que não é articulada em argumentos) e que um teísta pode amparar sua crença em um argumento razoável (ao menos aparentemente). Seria impreciso dizer que “o ateísmo é ausência de fé na existência de divindades”, mas não catastrófico. Contudo, muitos ateus insistem que o ateísmo é ausência de crença de modo obstinado, sustentando até que pedras e bebês possam, por isso, contar como ateus.

Referências

DENNETT, Daniel. The Intentional Stance. Cambridge: MIT Press, 1987.

Indicações de leitura

· Uma introdução ao ateísmo breve e lúcida é a de Baggini (“Atheism: A Very Short Introduction”). Discordo de algumas ideias dele, mas há grande concordância entre suas ideias e o que foi defendido aqui.