Os suicídios do dia e o jornalismo

As duas maiores capitais do país foram assombradas nesta segunda-feira, 29 de agosto. Dois pais assassinaram seus filhos após jogarem as crianças do alto de prédios, para, em seguida, se suicidarem. Um caso no Rio, outro em São Paulo. Ambos amplamente divulgados pela mídia. A primeira por volta de 6h30 da manhã, e a segunda um pouco depois, às 11h.

Difícil passar batido por notícias assim, tão tristes e revoltantes. Choques de uma realidade mais comum do que se imagina.

O caso do Rio de Janeiro foi no coração da sempre emergente Barra da Tijuca. Pelo que foi noticiado na grande mídia, alegando problemas financeiros, um homem de 43 anos matou a facadas sua esposa, e, em seguida, matou com marretadas seus dois filhos — um menino de 10 e outro de 6 anos. O assassino então jogou os corpos das crianças pela janela do 18º andar, antes de também se atirar do apartamento.

Horas depois, em São Paulo, um motoboy de 41 anos pulou do 17º andar do prédio do Tribunal Regional do Trabalho, na Barra Funda — local com histórico considerável de suicídios. O homem pulou abraçado com seu filho, de apenas 4 anos. Ambos morreram no local.

É absolutamente leviano relacionar o caso ocorrido em São Paulo com a notícia da tragédia no Rio de Janeiro. No entanto, a coincidência da tragédia remete a um tema pouco debatido: a cobertura midiática de suicídios.

Há um acordo tácito no jornalismo brasileiro quando o assunto é suicídio. Ou, pelo menos, essa ideia é repassada de geração em geração nas faculdades de Comunicação Social. Comigo não foi diferente. Quando cursei Jornalismo na Uerj havia uma disciplina chamada “Legislação e Ética em Jornalismo e Relações Públicas’’, em que o professor chamava a atenção para a responsabilidade do comunicador de não suscitar pautas sobre suicidas.

Aliás, aulas justamente no Campus Maracanã da Uerj, local historicamente assombrado por recorrentes suicídios — de alunos e de pessoas que escolhem o prédio de 12 andares para se atirarem. Nos meus tempos de aluno soube de, pelo menos, um por ano.

Uma pauta sobre suicídio volta e meia surge quando é para comentar a morte de alguma celebridade. O meu professor de ética citava bastante o caso da morte de Kurt Cobain, em 1994. Após o líder do Nirvana se suicidar (em um caso controverso até hoje), dezenas de jovens ao redor do mundo seguiram o “exemplo” e também se mataram.

Nem sempre é possível escapar das (muitas) tragédias do dia a dia. Mas, o princípio ético do jornalismo diz que, se for possível, o melhor é subir uma cortina de fumaça. Vide os tantos casos ocorridos (e não reportados) em linhas férreas.

Especialmente quando o Brasil figura entre os oito países com maiores índices de suicídio. Em relatório da Organização Mundial da Saúde (OMS), divulgado no ano passado, nosso país está atrás apenas de Índia, China, Estados Unidos, Rússia, Japão, Coreia do Sul e Paquistão.

Ainda segundo a OMS são 40 suicídios por segundo no planeta. A maioria dos casos registrado é de homens.

Lógico que nem sempre a cobertura da mídia é pautada na ética. A espetacularização das tragédias desde sempre rendem cliques, pontos de audiência e venda de impressos.

Independente das motivações que levaram esses pais a cometerem crimes bárbaros, matando seus parentes, vale a reflexão de profissionais e estudantes de Comunicação Social sobre a noticialização de suicídios. Afinal, se trata da segunda maior causa de mortes de jovens entre 15 e 29 anos — atrás apenas dos acidentes de trânsito.