até ao fim
( da série *histórias que podiam ter acontecido* )
ela mal pregou olho toda a noite, ou o pouco que restava dessa noite, dessa noite onde tudo podia ter acontecido (oh, se podia) mas de onde ela fugira, assustada com a emoção explosiva que julgara adormecida. aquela febre insana que tantas vezes achara que se tinha perdido entre os amores e desamores que tinha (sobre)vivido, afinal, continuava lá. viva.
há muito tempo que não se permitia abandonar assim. tinha que parar. parar. é muito. é tanto. é demasiado. pára.
(mas que tinha sabido bem, tinha. muito bem. demasiado bem.)
procurou dormir. respirar fundo. pensar em algo calmo e bonito e adormecer, sossegar a mente que não parava de querer pensar sobre o que se tinha passado. desligar. desligar..
os primeiros raios de sol começavam já a iluminar o quarto quando voltou a abrir os olhos. tudo lhe pareceu mais claro. ela sabia o que tinha de fazer e tinha de ser já. levantou-se, vestiu-se, comeu qualquer coisa e saiu. a meio do caminho mandou-lhe uma mensagem: o que vais fazer hoje? — amor contigo, respondeu ele, passado uns segundos. on my way.
despiu-se completamente. entrou nua na cama quente, o seu corpo ainda frio a querer aquecer-se. encostou-se a ele e sentiu a pele dele a arrepiar-se. deixou que os seus corpos se sentissem e encontrassem. deixou que as suas mãos a tocassem, abraçassem e apertassem. deixou que a sua língua a percorresse e beijasse e tocasse e entrasse sem resistências. não digas nada, não digas nada.. abraça-me. beija-me. toca-me. e ele abraçou-a. beijou-a de todas as formas que sabia. tocou-a em cada curva das suas formas e sentiu-a estremecer quando estava dentro dela e os dois corpos vibraram numa sintonia que até então eles desconheciam, uma harmonia fluída, uma batida sentida, uma frase melódica completa, até ao fim..sim, sim..
adormeceram exaustos nos braços um do outro. dormiram um sono breve, fundo e sereno. despertaram suavemente e os seus corpos encontraram-se de novo. como se não acreditassem que já não estavam a dormir e aquilo estava mesmo a acontecer.. e autómatos orgânicos fisiológicos iniciaram a sua dança inevitável, insaciável, até ao fim, sim, até ficarem esgotados e saciados e quase se deixarem adormecer outra vez.
levantaram-se, tomaram banho juntos, amaram-se molhados, secaram-se na cama, levantaram-se outra vez, vestiram-se, cozinharam, beberam, comeram, beberam, fumaram, cantaram, namoraram no sofá como dois adolescentes, riram-se e beijaram-se, beberam mais um copo, cantaram, fumaram e dançaram e os seus corpos encontraram-se, sentiram-se e deixaram-se ir no embalo outra vez e outra vez até ao fim, sim, e o sol já começava a nascer quando deram o último beijo.
tinham sido quase 24h de amor intenso e absoluto, para compensar os demasiados anos que tinham esperado para isto acontecer.
nunca mais iria voltar a acontecer. eram impossíveis, sabiam disso. por isso tinha sido tão forte, especial, único e irrepetível. seria algo que ambos recordariam para o resto da vida como a melhor one-night-stand de sempre.
e quando mais tarde, os seus olhares se voltassem a cruzar, olhos nos olhos durante mais que uns bons segundos seguidos, eles iriam sorrir um para o outro e só eles saberiam porquê.