Ilustração responsável pela ideia desse texto. Tem outras aqui que também ganharão palavras.

Último Dia!

Marcela não viu o buraco para o qual caminhava, talvez por ele ter surgido há poucos segundos. Não teve tempo de se agarrar na raiz da árvore à sua esquerda. Fora inútil tentar segurar a grama. Gritar… impossível! Fechar os olhos e aguardar o impacto, seria a única opção viável.

Torceu para aquilo fazer parte do sonho quando abriu os olhos e viu a parede branca salpicada por grandes placas cinzentas que cobriam os buracos deixados pelo pedreiro. “Idiota! Como pôde desaparecer mesmo tendo recebido apenas 30% do valor combinado?” Pegou o celular para conferir a hora. 4:45! Queria voltar para o campo e continuar lendo sob a sombra daquela macieira. Talvez amanhã consiga terminar aquele livro. Quem sabe amanhã não comece a escreve-lo.

Levantou sem reclamar mais. Não havia motivos. Não hoje!

Pela primeira vez em dois anos conseguia tomar café sentada. Ler as notícias (pareciam combinar com seu humor nessa manhã). Até confirmou presença em alguns eventos que fora convidada. Um na quarta, um na quinta e dois na sexta. Nem mesmo a mensagem daquele porco, cuja notificação fundira-se ao toque do despertador. Estragaria sua paz. Talvez à abrisse no caminho. Pelo menos economizaria tempo lendo todas as outras dez enviadas por ele em seguida de uma vez. Assim atenderia ao pedido que iniciava a recém-chegada “Não atrase!”

No caminho para o ponto de ônibus, uma única palavra dominava sua cabeça. “Último dia!”

Esperaria aquele ônibus, faria aquele trajeto, iria àquele emprego e veria aquelas pessoas pela última vez. Só os deuses sabem a quanto tempo desejava isso. Alívio, leveza e uma alegria que há tempos não sentia, eram as sensações que preenchiam seu corpo nessa manhã.

Estava cansada de ouvir seu chefe dizer como ela tinha sorte por ele ter bom coração. Não aguentava mais ver seus olhos quando dizia “Você lembra muito minha antiga babá…”. Estava farta de conversas interrompidas ao primeiro sinal de sua presença. Da “boa vontade” do segurança, que sempre pedia para “segurar” sua bolsa enquanto ela fechava a loja. Das clientes que sempre a confundiam com a faxineira, nada contra a dona Jô. Adorava as feijoadas de domingo e, já se tornara a melhor amiga de sua filha, mas corrigir as mesmas senhoras toda semana não podia ser normal, principalmente quando a olhavam de cima à baixo quando dizia ser a gerente.

Mas o que a fizera pedir demissão de uma vez, foi o comentário de uma das vendedoras no último dia antes do recesso de fim de ano, quando Bruno chegou para busca-la. “Sério mesmo que ele só poderia estar se aproveitando do carro do patrão?” Cerrou os olhos por um instante “Quem ela pensa que é?”