Ilustração responsável pela ideia desse texto. Tem outras aqui que também ganharão palavras.

Baterias Renovadas

O sol castigava os mais sensíveis nesta manhã de sábado. O ponto de ônibus cheio, muitos reclamando pela demora, alguns matando o tempo rolando o polegar pela tela de seus smartphones, um ou dois casais trocando juras de amor e três meninas próximas à porta de uma loja, cujo responsável pela chave parecia estar atrasado.

Duas delas se abraçavam como se uma servisse de apoio para outra. Apenas uma parecia ter dormido bem, Rita.

Dançava ao som de algo que só ela podia ouvir.

Algumas senhoras olhavam torto para o movimento suave de seus braços. Uma chegou a fazer o sinal da cruz quando, com os olhos fechados, girou a cabeça lentamente, como um alongamento matinal. A menina de dreads coloridos sentia-se revigorada.

Depois de uma semana inteira resolvendo problemas alheios e os próprios no trabalho, além da maratona de provas finais na faculdade, Rita mal pôs o pé em casa e sentiu o telefone vibrar no bolso, pensou ser um dos imbecis do escritório querendo pedir um favor de última hora. Tirou o aparelho do bolso sem nem mesmo olhar para ele, e o jogou no sofá mais próximo. Nem se quer notou ter acertado a virilha do irmão.

Abria a porta do quarto quando ouviu o jovem gritar seu nome e, ia entrando com um meio sorriso no lábio quando ele disse que era Ana ao telefone. Talvez a semana não estivesse totalmente perdida.

Agora, lá está ela. Com o ânimo de uma criança que acabara de acordar e ainda com as músicas da noite passada na cabeça, junto à um único pensamento.

“ Foda-se, também sou filha de Jáh! ”