O Breu

Numa floresta distante, uma família passa mais uma de suas férias conhecendo locais exóticos. Todos estavam felizes, principalmente Ieda, que participava de sua primeira viagem em família. Com olhar curioso e ouvidos eriçados a pequena de apenas 5 anos de idade estava atenta a cada detalhe da imensa floresta Amazônica.

Pobre criança, ainda tão inocente.

***

Pedro estava montando o acampamento quando ouviu o som de passos arrastados e um suspiro de lamento profundo. Olhou ao redor, mas não conseguiu ver nada e nem identificar a direção do suspiro. Logo voltou sua atenção às barracas, quando ouviu um som mais uma vez, agora, um grunhido agudo como o de alguém se espreguiçando pela manhã mas, sem muita vontade de seguir as atividades diárias, imaginou que pudesse ser Iolanda, sua filha de 15 anos que parecia nunca ter paciência para nada, e continuou a montar a última barraca.

Não muito longe, Caio o filho mais velho, recolhia lenha para a fogueira. Caminhava à passos curtos com seus fones de ouvido, analisando cada graveto com um olhar distante — não era para menos, seu sogro não havia deixado Laila viajar com eles. Parecia já ter recolhido o bastante para aquela noite e a seguinte quando, voltando para acampamento sentiu uma brisa quente passando por entre sua orelha esquerda em contraste com o vento gélido que percorria aquela noite, tirou os fones, olhou para trás na direção em que a brisa parecia ter vindo e só pode ver as folhas de um galho balançando e uma bela, porém assustadora coruja encarando-o. Inclinou a cabeça e disse:

— Por acaso foi você que soprou no meu ouvido?

— Crowr - disse a coruja também inclinando a cabeça.

Caio ignorou-a e prosseguiu a caminhada até o acampamento. Quando sumiu na escuridão a coruja alçou voo, mas um único olho que se encontrava logo acima de onde ela estava, entre duas folhas grandes, permaneceu estático e penetrante…

***

Todos já estavam sentados envolta de onde deveria estar a fogueira quando Caio chegou.

— Onde você tava idiota? Eu to morrendo de frio. - disse Iolanda.

— Acho que não existe fogo que esquente esse seu coraçãozinho irmãzinha… É estranho ser tão difícil achar galhos secos em um lugar que é tão quente durante o dia, o sol se pôs não tem nem meia hora.

— Também achei estranha essa queda de temperatura tão rápida - disse Carla, que estava abraçada com a pequena Ieda tentando esquentá-la - querido, isso é normal por aqui?

— A temperatura costuma cair durante a noite sim, mas não tão rápido. Deve ser por que estamos muito próximos do lago. - Pedro levantou-se e esticou as costas, que já não eram mais as mesmas daquele jovem antropólogo de 20 anos atrás, para preparar a fogueira. — Pronto, agora já temos calor de novo!

Todos estavam juntos próximos ao fogo, como uma família feliz. Pedro contando suas histórias com a ajuda de Caio que tentava interpretar com mímicas cada uma das cenas; a pequena Ieda ouvindo sem piscar, dando apenas pequenos saltos de susto no colo da mãe que ria com carinho de suas reações; Iolanda, mais afasta como já era costume nos últimos tempos, com seus fones, alheia a tudo e a todos.

***

— Bom parece que nossa garotinha está cansada. - disse Pedro vendo Ieda bocejar aninhando-se no colo da mãe — Já ta meio tarde mesmo, é melhor todo mundo ir dormir, amanhã vamos ter um dia cheio.

Carla foi levar a pequena para a barraca de Iolanda que já parecia estar no seu décimo sono e logo depois foi para a sua, junto com Pedro.

Já deitado em sua barraca, Caio ainda pensava em Laila, eles haviam planejado esta viagem juntos desde que seus pais disseram que iram fazê-la, não falavam mais de outra coisa, mas seu sogro disse que ela deveria ir com ele para o churrasco na casa do tio.

— Velho idiota! - disse Caio como um último suspiro antes de dormir.

***

O silencio dominava a floresta, todos os animais pareciam dormir, nem mesmo o vento emitia som. No interior da mata nada se mexia, exceto por uma única mancha negra, mais negra que a própria escuridão, “que parecia fazer pequenos movimentos suaves, como se fosse levemente impulsionada pela brisa”, e era desta mesma mancha, logo abaixo de um pequeno e penetrante círculo acinzentado, que surgia o único som emitido em toda a floresta naquela noite, um suspiro baixo e melancólico como a respiração de um idoso em seus últimos segundos de vida.

***

Pedro abriu os olhos de pressa, ele não entendia bem o que o fizera despertar tão de repente. Tinha uma sensação estranha no peito e sua cabeça latejava, como se algo a houvesse atingido com força. Olhou para o lado e viu Carla respirando tranquila. Sorriu e levantou-se com o máximo de silêncio possível.

Tudo estava calmo do lado de fora como se a floresta inteira dormisse em um silêncio contagiante. Pedro ficou de pé na frente de sua barraca que, fechava o triângulo formado pelas três barracas, olhou para das meninas por um tempo e logo depois se virou para a de Caio. Ficou mais tempo olhando para ela. Havia algo diferente, estava mais escura que o normal. Àquela distancia ele poderia olhar dentro dela sem dificuldades, mas, agora, ele muito mal conseguia ver sua entrada. Chegou mais perto e nada mudou… Agachou-se pra ver melhor e nada… Foi até ela, mas, era como se tivesse uma escuridão particular. Resolveu entrar, mas ao chegar seu rosto a poucos milímetros do interior, algo o puxou…

***

Carla virou-se e abriu os olhos logo que sentiu o vazio, imaginou que Pedro tivesse ido ao “banheiro” e ia voltar a dormir, mas um sopro frio a fez levantar para fechar a barraca um pouco mais e, uma estranha sombra apontando da barraca de Caio para a das meninas chamou sua atenção, saiu para ver melhor e pensou que ela pudesse estar movendo-se, esfregou os olhos ainda embaçados.

— Pedro? - disse.

A sombra entrava na barraca das meninas e logo ela começou a escurecer.

— IOLANDA, IEDA! - gritou Carla correndo em desespero.

Quando abriu a barraca, Iolanda a olhava com um olhar vazio — sua alma já não existia. Pegou a pequena Ieda no colo e correu para perto da fogueira, onde ainda existia luz.

A barraca havia sido encoberta por um completo breu, assim como tudo atrás da mesma, e agora a sombra se movia em sua direção. Conforme se aproximava ela parecia levantar-se, até que tomou a forma de uma silhueta humana, encarou-a profundamente e só então Ieda acordou — sua mãe estava gelada.

— Mamãe?

A sombra pareceu ouvir aquela voz doce e sonolenta, ela se afastou — era possível ver uma expressão de arrependimento no que parecia ser o rosto da forma assumida — a fogueira voltou a crepitar, aquecendo as duas e aos poucos tudo clareou. Carla recuou até encostar numa árvore e deixar-se cair, abraçando Ieda com força.

***

Onde antes havia uma fogueira, agora eram apenas pedaços de brasa espalhados soltando uma fina camada de fumaça, o sol já começava a ganhar os céus por trás do imenso mar de árvores, e enquanto abria os olhos ainda embaçados, Carla olhava com cautela para cada sombra, até que bem ali à sua frente, viu um homem caminhar com dificuldades por entre duas árvores. Sua primeira reação foi abraçar Ieda com força e rezar para não ser vista — algo impossível, já que os raios de sol pareciam estar direcionados para ela.

— Carla, você está bem? - ouviu Pedro dizer.

Ela deitou Ieda ao pé da árvore com cuidado e correu para os braços de Pedro, que resmungou de dor por um momento, mas ignorou e retribuiu com carinho o abraço que recebera.

— Onde você tava? - disse Carla em tom de raiva, logo depois de dar-lhe um tapa. — Porque você deixou a gente aqui sem dizer nada? O que você tava pensando que podia sair por ai e explorar no meio da noite largando a sua família sozinha aqui nessa floresta? Olha só pra você, parece até que tava brincando de Tarzan por aí! - ela apontava para a sua roupa em trapos, sua cara imunda e seus cabelos desgrenhados quando notou a ferida em seu braço esquerdo — Ah meu Deus… O que houve com o seu braço? — perguntou horrorizada, esquecendo todo o ódio que sentia.

— Eu não lembro muito bem o que aconteceu.- dizia Pedro — Eu só lembro de acordar com uma puta dor de cabeça, levantar pra respirar um pouco e ir até a barraca do Caio… MEU DEUS, O CAIO! - Pedro segurou os braços de Carla — Onde ele tá?

— Eu… eu…- ela o abraçou — Foi horrível! Não faço ideia de como explicar o que aconteceu aqui… - suas palavras saiam abafadas — A Iolanda… Ah meu Deus… Seu olhar era tão… Eu não podia fazer nada. - seus olhos expressavam dor.

Pedro foi até a barraca de Caio, e o encontrou coberto de sangue, não saberia dizer o que sentiu ao olhar seu rosto desfigurado. Correu para a de Iolanda e viu uma poça formada pelo sangue que escorria de suas pernas, seu rosto pálido, dedos roxos e respiração inexistente. Quando saiu e encarou Carla, seu olhar era firme. Caminhou até ela e, abraçando - a com carinho disse: “Precisamos ir embora o mais rápido possível, não há nada que possamos fazer!”.

O que deveria ter sido um viagem em família, cheia de histórias para contar aos amigos, fotos invejáveis e um assunto que renderia muitos jantares, agora não passava de um momento, cuja lembrança aterrorizante, sempre estará ali para assombra-los.