Ilustração responsável pela ideia desse texto. Tem outras aqui que também ganharão palavras.

Quer coco?

Acordara sem saber muito bem o que esperar do dia. Talvez fosse só mais um como qualquer outro, mas, havia algo de diferente nele. Já começara não escolhendo nada de especial para levar consigo. Depois durante o café, seus pais lhe olhavam de um modo estranho. Pareciam esperar que dissesse algo.

“Que tal o clima hoje? ” “Como vai o campeonato? “ “Será que vai rolar segundo turno? “.

Não, eles não esperavam que fosse dizer nada disso. Preferiu pegar umas frutas, não tinha muita fome, mas tinha certeza que a danada apareceria no engarrafamento. Tomou dois goles de café. Achara amargo de mais no primeiro, mas se forçara a dar o segundo. Seria bom para acordar.

Trinta minutos no ponto de ônibus e nada.

Como esperava, a fome começava a dar os primeiros sinais de vida. Começou a abrir a bolsa para pegar uma das maçãs, quando lá estava o digníssimo se aproximando a toda velocidade.

Se o motorista estivesse em um dia ruim, poderia ter passado direto, levando junto, seu braço. Ao ver a gigante caixa de metal branca com faixas vermelhas parar, agradeceu por ele estar tendo um dia melhor que o seu.

Ainda na escada, esticara o pescoço para analisar o ambiente. Não parecia haver bancos vazios, mas pelo menos havia espaço o suficiente para que limites individuais pudessem ser respeitados. Assim esperava.

Dirigiu-se para o fundo, o mais próximo da porta possível. Detestaria ser arrastada pelos que desceriam antes. Abraçou com cuidado a barra vertical à sua frente e voltou sua atenção para o zíper da bolsa. Enquanto perguntava a si mesma quando à havia limpado pela última vez, encontrou a maçã perdida.

Acreditava já ter passado uma hora e meia de viagem quando o primeiro ser levantou-se à uma distância considerável para alcançar o almejado local de descanso antes que outro o tomasse. Ao sentar, voltou sua atenção novamente para bolsa. Dessa vez em busca de seu companheiro do mês. O velho Gaiman.

Levantara a cabeça enquanto virava a segunda página do capítulo, mas não chegou a completar a passagem. Fechara o livro de súbito e saltara para a cigarra antes que perdesse o ponto novamente.

O campos estava vazio como esperava. Todos haviam combinado de chegar mais tarde para almoçarem juntos no bar do fim da rua, e lá permanecer até que fechasse. Preferiu passar essa. Queria ficar sozinha por um tempo, talvez conseguisse processar tudo que estava acontecendo.

Subir aquelas escadas parecia mais cansativo que de costume e, o mural no fim do caminho, não era nada reconfortante. Servia apenas para confirmar o que já esperava e temia.

Acabou!

Quatro anos de noites viradas, fins de semana perdidos, moedas se esvaindo aos montes em xerox que sumiriam em alguns dias em meio a pilhas e mais pilhas de livros. Respostas de e-mails com nãos, e mais nãos. Momentos de alegrias e alívios no fim de cada aula. Tudo aquilo finalmente e infelizmente chegara ao fim.

E apenas um pensamento lhe acompanhava.

E agora?

Dera o último “Bom dia. Bom final! “, para o porteiro do portão principal.

Continuou seguindo a passos curtos até alcançar a praia, onde caminhou por mais um tempo, deixando seus pés guiarem-na até um quiosque, cuja água de coco costumava lhe refrescar nos dias mais quentes. Talvez ele clareasse suas ideias dessa vez.

Escolhera sociologia pensando em mudar o mundo, mas não conseguiu nem mudar a própria rua nesse meio tempo. Não conseguiu nenhum estágio e muito menos emprego. Não fazia a menor ideia do que seria dessas férias. Na verdade, nem sabia se poderia chamar os próximos meses de férias, já que acabara de encerrar seu último ano de faculdade.

Julia despertou de seus devaneios ao ouvir uma voz conhecida e, adoraria ver sua cara ao virar e se deparar com uma velha “amiga” de ensino médio.

- Menina! Quanto tempo? — disse a jovem recém chegada. — O que você me conta?

- É…

- Não, deixa eu contar primeiro! Nossa tenho muita novidade.

- Ok…

- Nem acredito que mal acabei de me formar e já fui efetivada na revista onde tava estagiando. E você não vai acreditar! Fiquei sabendo que um dos fotógrafos e o modelo principal andaram batendo boca por minha causa. Lindo né?!

- É…

- Que nada! Mal sabem eles que tó saindo com o produtor novinho que conheci no último evento da fashion week. Minha vida ta um tudo!

- …

- Mas e você? O tem rolado? Vai fazer o que agora?

- É… quer coco?