Alguns carregam sacolas. Algumas sacolas merecem destaque. Uma marca em especial, uma grife diferenciada.

Aquele casal desfeito que nem sabe ainda que está desfeito. Cada um olha para um lado. Aquele pai que, sem saber o que fazer, leva os filhos aonde eles possam se divertir e comer. Aquela família que nem escolher aonde comer consegue.
Adolescentes. Muitos deles.
Aquela fase cretina entre a infância e a vida adulta. Muito velho para brincar de pega-pega e muito novo para, de fato, dar uns pega. Restam os risos exagerados entre refrigerantes sem gás e pedaços de batatas nos aparelhos ortodônticos. A dança do acasalamento é discreta, tímida. Meninos em uma mesa, todos de boné, meninas na outra. Cada capa de celular é uma expressão de personalidade. Minions, falsos brilhantes e um bocado de mau gosto. É perdoável.
Existem também os trabalhadores. Ainda trajando seus uniformes de alguma loja é fácil identificá-los. E não falo da roupa. É o olhar. O olhar é cansado, perdido num prato de massa, dita, italiana. É o semblante contemplativo para o nada. É aquele pensamento na cota mensal ainda não alcançada. É aquela rotina que nunca acaba.
E os restaurantes, ah…os restaurantes. Um hambúrguer de minhoca ou um sanduíche de plástico? Um milkshake de gordura hidrogenada ou um bife salgado com o suor de um cansado cozinheiro? O gosto é tão artificial como a maturidade dos adolescentes e sua tentativa de flerte. Mas é o que a casa oferece. E por apenas mais R$ 1,50 você leva um cookie.
E claro, as mesas dos solitários. Alguns comem concentrados. Outros procuram foco nas mesas outras. A maioria, na verdade, se conforta com likes e comentários. Não se é mais solitário na era do smartphone. Ou se é. Vai saber. Grupos imensos em mesas sequer falam. Dedilham a tela com fervor.
No meio de tanta artificialidade um raio de mundo real. Um bebê chateado rasga o barulho ambiente com seu choro. É estridente. Nas mesas ao redor as pessoas olham com olhar de julgamento. Uma barbárie. Um bebê a importuná-los nesse local tão sagrado. A mãe, coitada, balança o carrinho freneticamente enquanto tenta desviar do olhar lancinante dos outros. Mas chega ele. Mirradinho, pequeno. Rapaz moreno de touca e avental. Traz um prato de falso talharim. Talheres embalados em plástico e uma coca lata. A mãe, em seu último esforço, dá um pequeno pedaço de massa para a criança. A criança para de chorar. A mãe, finalmente, relaxa. Esse aprendeu a admirar as iguarias cedo.
Aquela garota já recarregou seis vezes o seu copo de refrigerante.
Aquela senhora ali está a mais de 20 minutos olhando para o menu nas telas de LCD.
Aquele garoto segue admirando o tênis que comprou.
Aquele outro, possivelmente por obrigação, trouxe o irmão mais novo junto. Que ele não atrapalhe a azaração.
E claro, impossível não notar o careca de barba, sentado no meio de tudo isso, grudado no celular. Com seu olhar prepotente e seu julgamento velado, ele escreve. Descreve e comenta.
Afinal, passar o tempo nessa praça de alimentação não é fácil.
(Na mesa ao lado o menino de boné beija a menina do celular de brilhantes.)