Ensaio sobre a Cegueira (2008)
Baseado no livro homônimo de José Saramago (16 Nov. 1922–18 Jun. 2010), o filme retrata a decadência da sociedade ante a um inexplicado, e aparentemente sem cura, surto de cegueira.
“Você está com medo de fechar os olhos?
Eu tenho medo de abri-los”
O cenário poderia ser em qualquer grande cidade do mundo. Em um cruzamento movimentado carros passam, pessoas aguardam para atravessar a e a vida segue. A cidade pulsa e a humanidade, mesmo sem perceber, regojiza de todo seu avanço e agilidade. Somos máquinas. Máquinas levadas ao seu extremo. E então uma das máquinas falha. Ao sinal abrir um dos carros não anda. Não é o motor, não é uma falha mecânica. O motorista está cego. Sem um motivo aparente ele perde sua visão. As engrenagens começam a travar uma a uma e, em efeito cascata, tudo começa ruir.
O branco estourado da fotografia empregada, bem como o uso constante de reflexos, objetos interpostos entre atores e câmera não é acidental. Eles se somam ao roteiro para narrar uma história que, bem como o título sugere, trata sobre a cegueira. O trabalho em fotografia do uruguaio César Charlone (O Banheiro do Papa, Cidade de Deus) é estonteante e ajuda a contar uma história que, ao privar seus personagens da visão, nos bota o desafio de não só ver o que está na tela mas também sentir.


Mark Ruffalo, como quase sempre, entrega um trabalho competente. No papel de um médico, o primeiro a diagnosticar um estranho caso de cegueira (o rapaz do cruzamento que abre o filme), ele se vê posto em uma unidade de isolamento para os infectados — o governa crê que seja contagioso — ao também perder sua visão. Porém ele está acompanhado de sua esposa (uma atuação acima da média para a já muito talentosa Jualianne Moore) que jamais perde a visão e somente mente estar cega para não separar-se do marido. Lá dentro ele acaba por reencontrar pacientes e conhecidos, porém a realidade daquele micro-universo não poderia ser mais diferente do que o mundo que eles conheciam.
O relacionamento entre o Doutor e sua esposa já estava em decadência. Eles viviam em mundos distintos, enquanto ele tinha uma vida que, por mais que fosse banal, o empolgava. Ela vivia dentro do lar, ao chegar do trabalho ele buscava falar dos casos que atendeu a ela restava ouvir ou tentar falar sobre os ingredientes da sua receita do dia. Ela havia se reduzido a uma esposa padrão e, mesmo que ela não percebesse isso claramente, isso a chateava. O vinho era o descanso para qual os pensamentos dela corriam. Mas então tudo mudou, com o marido privado de visão ela assume para si um novo papel. Agora ela era a responsável por ele. O tempo vai passando e a cada nova remessa de pacientes afligidos pela cegueira branca que chegam, a instalação de cuidados vai se transformando cada vez mais em um campo de concentração onde eles, agora privados de liberdade, estavam abandonados e teriam de lutar pela sobrevivência.


Com o tempo se formam grupos dentro da instalação de saúde, lutando entre eles mesmos pelo controle da comida e o comando do espaço, a falta da visão foi o estopim que faltava para que os traços de humanidade começassem a se perder no caminho e a degradação do espaço físico (cada vez mais mal cuidado e imundo) é um mero reflexo da ruína da civilização neles.
É questão de tempo para que a situação saia de controle e sendo a única ainda capaz de ver cabe a Esposa do Doutor ser a única espectadora do fim. Estupros em troca de comida, o sexo como moeda de troca e a exacerbação de tudo aquilo que é mais animalesco em nós. Ninguém vê, ninguém liga. Cabe a ela e só a ela observar o ruir daquela micro sociedade. Presos ali dentro, sem contato com o mundo exterior, nada leva eles a crer que do lado de fora algo possa ser melhor. Nesse mundo em acelerado estado de putrefação ela se vê, pela primeira vez, tendo um papel importante. Pela primeira vez ela não é somente aquela que faz a comida e cuida da casa. Ela é, literalmente, os olhos de um pequeno grupo de pessoas que ela agora tenta desesperadamente salvar. Por pior que o mundo externo seja, qualquer coisa seria melhor do que morrer ali dentro. Por ver ela se torna a única chance de salvação daqueles que ela aprendeu a amar ali dentro.
Do lado de fora nada é melhor. A pequena instalação onde eles estavam presos era uma amostra de tudo aquilo que acontecia no mundo. A cidade é habitada por pessoas que mais parecem zumbis, zanzando à esmo, cegos, buscando no som algum ponto de referência naquela realidade branca da cegueira.
- A cena da igreja com os santos de olhos cobertos, bem como a cena da lavagem dos pecados, estão entre as mais impactantes do filme. -
Após vagarem, lutarem por comida e perderem alguns dos seus integrantes no caminho, eles terminam buscando abrigo no único lugar que ela conhecia, ironicamente, de olhos fechados: a sua própria casa. — As frutas podres sobre a mesa não são acidentais. — Depois de uma noite no novo abrigo, onde pela primeira vez vemos eles felizes e sorrindo, a surpresa: o paciente zero, o que iniciou todo o surto de cegueira, voltara a ver. E em poucos segundos todas aquelas vidas destroçadas pela falta de visão e a brutalidade animalesca que em todos brotou, se vêem cheias de alegria, esperança. Eles poderiam ser os próximos a ver. Não era algo definitivo, era algo passageiro. A esperança, por menor que ela fosse, era a primeira que eles tinham em muito tempo e talvez fosse a única coisa na qual eles pudessem se segurar e suportar o ‘mar branco’ que inundou os olhos.


E é nessa hora que a Esposa do Doutor se sente perdida. A mulher que aprendeu a ser a única a ver estava perdendo sua função. Era um fardo, uma responsabilidade imensa que agora começava a sair dos ombros dela. Ela temeu fazer o caminho inverso, enquanto todos voltavam a ver ela perderia sua visão. Não aconteceu. O fardo dela era maior, era seguir vendo. Em um mundo onde as pessoas começaram a comemorar a volta da visão, depois de um longo período em branco, era ela e somente ela que carregaria as memórias do desespero, do caos e do lado animalesco que brotou em todos — inclusive nela mesma -. Os pecados de todos agora eram dela. Um Messias que sacrificou-se e seguiu vivendo.
O mundo melhoraria, se curaria, e ela se tornaria a única memória, a única real visão, sobre o pior lado de todos nós.
Dirigido por Fernando Meireles e com um elenco extremamente variado (atores asiáticos, latino-americanos e norte americanos), o filme consegue criar, por meio de cenas filmadas em São Paulo, Montevidéu e Guelph, a sensação de cidade não identificada, podendo ser qualquer lugar do mundo. A trilha sonora do grupo instrumental brasileiro Uakti é soberba e ajuda a criação de uma ambientação tensa e contemplativa. Após grandes filmes como Domésticas (2001) e Cidade de Deus (2002), Meireles enveredou-se no cinema americano com o bom, porém pouco autoral, O Jardineiro Fiel (2005). Foi com a adaptação do livro de Saramago que o diretor conseguiu criar uma grande obra dentro do universo hollywoodiano.
Uma obra essencial para fãs do cinema em sua plenitude técnica e significativa e que certamente irá satisfazer os mais exigentes admiradores do livro do eterno José Saramago.