Possessão — Andrzj Zulawsky

Lançado em 1981, a obra prima de Andrzj Zulawsky é um soco no estômago. Um soco no estômago que você merece receber.

O filme é focado em Anna e Mark, interpretados com maestria por
Isabelle Adjani
e Samm Neil (naquela que é, possivelmente, a melhor atuação do ator), um casal que vem enfrentando problemas em seu relacionamento.

Toda a atmosfera criada, esse mundo dos dois, é pontuado por claras metáforas sobre a separação e a falta de diálogo. Um diretor polonês dirige um casal interpretado por uma francesa e um inglês que vivem em Berlim. Não é mera coincidência a janela do apartamento dar de frente para o muro que separava a cidade em dois polos políticos. Um muro que separou famílias, uma nação e rasgou uma cidade ao meio.

Após um tempo afastado, o marido volta para casa onde tenta reconquistar a esposa e se reconectar com o filho, Bob. A ideia é salvar o casamento e tentar dissolver aquele muro que parece se interpor entre os dois. Porém Anna, em sua forma de de alcançar a superação, estava envolvida com Heinrich (Heinz Bennent em uma atuação soberba) homem que oferecia tudo que ela não tinha dentro do relacionamento.

Muito mais do que apresentar o fim de um relacionamento, Zulawsky brinca com padrões sociais e como o escape deles (seja intencional ou não) pode ser danoso ante a visão de nós mesmos e dos outros sobre nós. Não é um drama, não é um terror, não é muito menos um romance. É um filme que joga na cara do espectador todo o peso que carregamos nas costas enquanto vamos assumindo os incessantes papéis na sociedade que nos empurram goela abaixo.

O filme extrapola todas as formas de corrosão de um relacionamento onde, em certo ponto, a personagem de Isabelle Adjani — em uma cena visualmente brutal — se vê abortando no meio dos túneis do metrô. O aborto, mais do que um feto, é de todo o relacionamento, ideais e construtos, levantados a dois parente a sociedade. Era o seu extremo, o ponto onde tudo ruiu.

Mark, após envolver-se brevemente com uma professora de seu filho — Uma mulher calma, pudica, virginal e centrada, clara antítese de tudo que Anna é — ainda busca reconciliação com sua esposa que, a esta altura da “loucura” onde buscou abrigo, recriava por conta própria o relacionamento. Heinrich, homem mais velho, letrado e com noções de espiritualidade que eram totalmente novas para Anna, já tinha desempenhado seu papel, mostrado que a vida poderia ser mais do que um relacionamento. Ela agora almejava mais.

O muro que divide aos dois não é palpável como o muro que divide a cidade e, por assim ser, não pode ser derrubado na base de marretadas e é neste ponto que a mente começa a buscar formas de burlar. Encontrar um caminho entre o que se espera e o que é esperado de nós para assim encontrar a salvação. Mesmo que a “salvação” não seja nada além do que mais uma obrigação.

O grande mérito Andrzj é exatamente este, mostrar como duas pessoas podem se perder no meio do longo caminho que existe entre o que se espera de si mesmo, do amor e do que é esperado de nós. Não existe uma solução fácil nesse dilema, muito menos existe uma resposta clara no filme. O terceiro ato, apoteótico, apresenta Anna embrenhada em sua loucura. Recriando por meio do sexo e de sangue o homem ideal. Permitindo que este ser se alimente dela e, à sua imagem e semelhança, seja tudo aquilo que ela espera e o que esperam de um casal. A hipocrisia máxima.

Não existe traço algum de maniqueísmo no filme. Não existe a clássica luta de bem contra o mal. Por mais que estejamos treinados para esse embate em praticamente toda obra, neste filme ela não se faz presente. O mal é tudo que eles tem. Inclusive, como forma de redenção. Jesus, pregado na cruz, não responde aos grunhidos de dor de Anna. Nesse mundo dividido, com tanto sofrimento e desespero, nem Ele mais pode nos ouvir. 
Não é um filme de fácil entendimento, não é um filme de fácil digestão. Porém as imagens fortes, as atuações viscerais e os efeitos especiais de Carlo Rambaldi (responsável por Alien, Duna, E.T, dentre outros) não saem da cabeça facilmente e a cena final certamente se tornará tema de debate nas rodas de conversa por muito tempo.

Hoje, 17/02/2016, Andrzj Zulawsky faleceu em decorrência de um câncer. Ele deixa três filhos, sendo um da atriz francesa Sophie Marceau, com quem foi casado. Ele vai viver pra sempre na minha cabeça com algumas das questões e imagens mais impactantes que eu já encarei em uma sala de cinema. Obrigado, cara. Obrigado mesmo.

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