Sinais (2002)
E quando a fé morre? A cruz ausente na primeira cena não é coincidência.
Lançado em 2002, três anos após sua explosão rumo à fama com O Sexto Sentido, o terceiro filme de M. Night Shyamalan é uma fábula sobre fé, amor e o lugar de cada um no mundo.


Mel Gibson, em uma atuação muito acima do seu padrão, é o Reverendo Graham Hess. Um homem que tenta adaptar sua vida, cuidar dos filhos e lidar com o vazio na casa deixado por sua esposa que morrera em um trágico acidente de carro. Joaquin Phoenix é Merril Hess, irmão mais novo do reverendo que, com pena do de Graham, passou a morar junto com ele e ajudar a criar as crianças que cresciam em uma casa destroçada por uma tragédia. O filho mais velho, apático em sua maioria do tempo, é uma criança acima da média. Extremamente inteligente, ele assumiu para si o papel de cuidar da pequena irmã que, talvez como forma de chamar a atenção, se tornou obcecada com o gosto da água, nunca bebendo um copo até o fim.
A narrativa é lenta, contemplativa. Shyamalan nos apresenta a casa em detalhes, o pátio da fazenda e a sua plantação. Plantação na qual surgem os primeiros sinais. Após encontrar as marcas gigantescas feitas na plantação, os noticiários começam a mostrar: eles não são os únicos . Marcas como estas estão aparecendo pelo mundo todo e, pouco depois, as naves surgem. Uma invasão estava em curso.


Fugindo do esperado de qualquer filme que trate do tema, a obra não mostra cidades sendo destruídas, não mostra raios lasers muito menos militares e embates elaborados entre forças humanas e alienígenas. Seu foco é muito mais intimista. É uma família, uma família isolada no meio de uma grande fazenda. Uma família que sequer chega a ver uma nave…mas sabe que o perigo é real e eminente.
Após abdicar de seus serviços como homem de Deus, Graham segue lutando com todos aqueles que ainda o enxergam como um reverendo. Diversas vezes ele pede para que não o chamem assim mas as pessoas, nesses tempos tão difíceis, precisam de uma palavra de conforto. De uma, nem que seja ilusória, sensação de salvação e para aquela pequena comunidade esta pessoa é ele. Porém ele sequer fora capaz de salvar sua esposa que, após ser atropelada, agonizou por horas e pode conversar com ele enquanto a vida saía de seu corpo.
Diferentemente de O Sexto Sentido, onde o filme se desenrolava nos detalhes — para depois te revelar o que estava na cara, Bruce Willis estava morte desde o inicio — Sinais se desenvolve nos diálogos. E que diálogos incríveis, a cena em que o reverendo e seu irmão debatem sobre milhagres e acaso é maravilhosa. Bem como a cena na qual, com a eminencia do fim, o pai cozinha o prato favorito de cada um de seus filhos e seu irmão para que, quem sabe, ele morressem felizes. Porém nem a morte vem fácil. Durante a noite a casa é invadida por aliens e, enquanto buscam abrigo no porão, o filho mais velho tem uma violenta crise de asma. Sem remédio a mão cabe ao reverendo tentar acalmar o filho, ou guiá-lo rumo à uma morte tranquila, a única ferramenta que ele tinha: as palavras.


Pontuado por cenas densas e um clima bem construído, o filme consegue usar de uma invasão alienígena para tratar de diversos outros temas. Fé, culpa, responsabilidade e o peso de ter de reformular uma vida inteira. A negação do passado, bem como as responsabilidades dele, também se fazem presentes. O ápice não poderia ser diferente. Com a casa invadida e o pequeno Morgan nas mãos de um dos aliens finalmente tudo faz sentido. As últimas palavras de sua esposa fazem sentido, a obsessão da filha com a água e até a escolha de quem foi buscar o remédio para tentar salvar o menino. Tudo até aquele ponto aconteceu por um motivo só. Após derrotarem o alien que invadira a casa, o medo é outro. O veneno expelido pela criatura poderia ter matado a criança porém, como tudo até aquele ponto, havia um motivo pelo qual ele estava em crise de asma. Com os pulmões parcialmente fechados o veneno jamais chegou até o organismo do menino que, por pouco, sobreviveu.
A cena final não poderia ser mais clichê. Meses depois, enquanto a câmera anda pela casa escutamos as crianças, pela primeira vez, brincando e felizes. No banheiro vemos o personagem de Mel Gibson arrumando-se. Mais uma vez vestindo a roupa de reverendo. Ele salvou sua família. Agora ele seria capaz de poder salvar qualquer outra alma que o buscasse por conforto.


Os sinais que o título do filme anunciam são bem mais do que os sinais encontrados na plantação. Muito mais do que uma história de invasão alienígena, é um filme sobre fé. Os sinais que a vida nos dá e a forma que podemos encarar eles. No fim das contas o diálogo do reverendo e seu irmão continua sem resposta. Acaso e milagres podem ser coisas extremamente distintas ou exatamente iguais. Só depende dos olhos com os quais olhamos.