The Fountain — Darren Aronofsky (2006)

“E se você pudesse viver pra sempre?”

Tatuadas nos braços, as linhas recontam todos os anos da jornada do Astronauta.

Lançado em 2006, o primeiro filme ‘grande’ do diretor Novaiorquino é um poema sobre o amor, o sofrimento e a finitude. Alguns anos depois de ter alcançado relativo sucesso com seus filmes anteriores, Pi (1998) e Réquiem para um Sonho (2000), o diretor e roteirista estava, pela primeira vez, embrenhando em uma produção maior em escala e técnica. Porém a produção não seria fácil e o filme, entre desistências de atores (Brad Pitt e Cate Blanchett seriam o casal original), cancelamentos e mudanças de orçamentos, duraria de 2001 até 2005. Estas questões técnicas tem efeito sobre a narrativa que pode ser aprofundada e melhor preparada pelo diretor que também é o escritor da premissa e do roteiro final.

Como é recorrente nas tramas — tanto as anteriores como as posteriores — do diretor, o filme fala sobre obsessão, vícios e como somos capazes de ir ao nosso extremo em busca de nossos objetivos. Sejam nos números de Pi, nas drogas de Réquiem para um Sonho, na volta à glória de O Lutador (2008), a perfeição técnica em Cisne Negro (2010) ou a salvação da humanidade em Noé (2014). Porém em sua obra mais delicada e contemplativa, The Fountain, o diretor embrenha-se em uma batalha muito mais profunda: a superação da morte.

O elenco encabeçado por Hugh Jackman e Rachel Weisz se divide entre papeis e tempos distintos. Não, não é um filme de fácil compreensão. A trama dividida em 3 partes que se intercalam para contar uma só história desafia o espectador a prestar atenção aos detalhes e, aos poucos, ir construindo os links entre as tramas correntes.

Passado: Rachel Weisz é a rainha da Espanha, Isabel, que está vendo suas terras serem invadidas e tomadas pelas forças da Igreja Católica que, com sua violenta e sanguinária inquisição, derrama o sangue de dezenas de cidadãos e é apenas questão de tempo para que seja ela a perder a cabeça em nome da cruz. Em um ato de desespero ela chama o conquistador Tomas (Hugh Jackman) e o envia, juntamente com um grupo de exploradores, para o novo mundo (América do Sul) onde espera que ele encontre a Árvore da Vida e assim terem forças para lutar contra a inquisição que se espalha sobre o país.

A salvação das terras sob ameaça e a busca pelo amor de sua rainha.

Presente: Hugh Jackman é Tom Creo, um pesquisador que busca novas formas de tratamento para o câncer. A batalha de Tom não é totalmente altruísta, sua esposa, Izzi Creo (Rachel Weizs) sofre da doença e está enfrentando aqueles que podem ser seus últimos dias. A obsessão de Tom é tamanha que dias e noites são passados dentro do laboratório onde ele conduz arriscados testes em animais.

A busca da cura de sua amada.

Futuro: Tommy (Hugh Jackman) é um solitário astronauta, voando em uma nave espacial em forma de bolha de sabão, ele busca Xibalba, uma estrela que está morrendo, onde os Maias acreditavam que os espíritos dos mortos renasciam. Acompanhado somente de uma árvore, ele busca a constelação para poder fazer com que a árvore mais uma vez floresça. “Não é incrível que eles tenham escolhido uma estrela morrendo, entre tantos pontos saudáveis do céu, como seu lugar de renascimento?”

A busca de imortalidade e a negação da morte.

As três jornadas são contadas de forma simultânea, não existem passagens claras de uma história para outra. O que poderia causar grande estranhamento, mas mãos habilidosas de Darren Aronofsky se torna fluído e suave. A mescla entre as tramas é bem feita e o fio narrativo que se interpõem entre elas é claro e bem elaborado. Tanto Jackman quanto Weisz entregam-se aos papéis de uma forma que é incomum para ambos, alcançando níveis de qualidade acima da média para ambos os atores. O elenco de apoio também merece destaque, Ellen Burstyn (a mãe da pequena Regam em O Exorcista) e Mark Margolis (Tio Salamanca de Braking Bad) conduzem personagens secundários mas essenciais para o desenvolvimento da trama, bem como o crescimento dos personagens centrais. Mais do que apoios, eles são partículas que se mesclam à caminhada dos personagens.

Os efeitos especiais são um destaque, evitando ao máximo o uso de computação gráfica, Aronofsky optou por contratar Peter Parks, um fotógrafo especializado em captura de reações químicas, para a criação dos cenários espaciais do filme. O resultado não poderia ser mais lindo e diferente de tudo que estamos acostumados a ver na retratação de espaço no cinema. A trilha sonora, de Clint Mansell (compositor que já havia trabalhado com Darren em outras ocasiões) consegue captar com perfeição as sensações e a dimensão da trajetória dos personagens e é, certamente, um dos pontos altos do filme.

Como dito antes, não é um filme fácil, nem narrativamente e nem em sua temática. O medo da morte, da perda, e a ânsia de prosperar são naturais em todo humano e encarar tais problemas são uns dos dilemas eternos. Ao desafiar a morte se desafia a vida, se desafia o significado da existência que, sem um fim, pode perder seu objetivo. A trajetória dos personagens até essa conclusão é dolorosa e, como eles, tentamos buscar motivos, subterfúgios e justificativas para negar o óbvio: a morte vem. O fim é eminente e toda e qualquer tentativa de burlar esse destino final nada mais é que o desespero. “A maioria de nós sai desse mundo como veio, esperneando e chorando.”

Aceitar o fim, por mais doloroso que seja, é libertador e essa libertação do medo e a aceitação do fim como um possível renascimento — e um merecido descanso depois de nossas jornadas — é o que faz desse filme tão belo. O sorriso nos lábios do astronauta, enquanto escorrem lágrimas de emoção e ele conclui que só existe uma alternativa, é reconfortante. “Eu vou morrer” ele diz olhando diretamente para a câmera. Para o espectador.

A elevação por meio da aceitação e a coragem de encarar o fim.

A cena final é grandiosa, saindo de sua nave e entrando no coração da estrela que morre, o Astronauta se vê reduzido a um pequeno grão flutuando no espaço. Sem chorar ou espernear, levado somente pela tranquilidade da certeza do fim, ele se torna parte do todo e a estrela, ao explodir em uma grandiosa supernova, destroça o corpo dele que serve de adubo para o renascimento da árvore.

Questões espiritualistas podem ser levantadas, há certamente pano pra manga para este debate, mas prefiro encarar o filme, muito mais do que uma questão em aberto e sim uma resposta. Uma clara e simples resposta. O fim chega e chegar tranquilo nele é uma questão única e exclusivamente de escolha. É, tanto quanto se deve saber como viver, saber como se morrer.

É um filme que merece mais de uma assistida, merece calma e coração aberto para uma história tão universal, dolorosa e inevitável. A jornada é longa e dolorida, mas o descanso é a única certeza que nós temos.

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Presentinho especial: Trailer e trilha.

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