Por que eu me apaixonei por Persona 4 Golden

No fim do ano passado, fui para Las Vegas cobrir o The Game Awards e PlayStation Experience para o Omelete, onde escrevo como contribuidor. Como qualquer amante de videogames que vai aos Estados Unidos, aproveitei pra visitar a GameStop e fazer uma pequena feira, pois mesmo com o dólar alto, tudo sairia mais em conta do que comprar no Brasil.

Comprei um headset Gold da Sony, Super Smash Bros. for Wii U, Bayonetta 2, $20 para a PSN, e finalmente me rendi ao que todos dizem ser o jogo must-play do PlayStation Vita, Persona 4 Golden. Sendo um dos maiores defensores do portátil, era surpresa eu não ter jogado este título ainda. Mas agora tudo se alinhou. Eu teria muitas horas pra matar, já que estava prestes a embarcar em três aviões seguidos, poderia comprar a versão física, que não tomaria espaço do meu pequeno cartão de memória (ainda uso um de 4GB), e mais importante, eu ainda não tinha jogado um JRPG em 2014.

Gosto muito de JRPGs, mas nos últimos anos o único que realmente me chamou atenção foi o excelente Ni No Kuni: Wrath of The Witch. É um gênero, que assim como survival horror, está passando por dificuldades (de olho em você, Final Fantasy XIII). E Persona nunca havia me atraído, especialmente pela temática high school, que foge do cenário tradicional dos jogos do tipo. Eu achava que não teria a mesma profundidade, e que a pegada diferente ia me desligar dos personagens.

Eu não fazia ideia do quão errado estava.

O que é Persona 4 Golden?

Eu poderia sentar aqui e escrever duas mil palavras sobre Persona 4 Golden, como se estivesse o analisando, e entrar em detalhes típicos de um texto sobre games. Mas o que torna o jogo especial vai muito além de suas ótimas mecânicas, sistemas inteligentes, histórias bem escritas ou trilha sonora de arrasar (algumas músicas da trilha estão espalhadas no post pra que você escute enquanto lê).

Para explicar bem, vamos dar um passo para trás.

Persona 4 foi lançado em 2008 para o PlayStation 2 no Japão, e chegou no ocidente em 2009, também no PS2. Em 2012 a versão Golden, com gráficos melhores e uma personagem extra, foi lançada para o Vita, e de lá pra cá, o jogo original foi disponibilizado na PSN, então se você tem um PS3, pode jogá-lo também.

No jogo, o seu personagem chega na pacata cidadezinha da Inaba, onde viverá por um ano. Ele se depara com grandes mistérios e a habilidade de invocar Personas, criaturas que representam lados de nossa personalidade e podem ser usadas em batalhas, no melhor estilo Pokémon. Você balanceia os quests em dungeons com a vida escolar e as amizades, aqui apelidadas de Social Links. Cada novo amigo, amiga ou grupo de amigos gera um novo Social Link, e sair com eles aumenta os seus respectivos níveis. Os Links são diretamente relacionados aos Personas, e evoluí-los te garante bônus pra usar nas batalhas.

Agora que você sabe o que é Persona 4, deixe-me explicar porque ele é um dos melhores jogos que eu já joguei.

Os primeiros cinco minutos

Foram em cinco minutos que o meu espírito de dúvida quanto à Persona 4 Golden, desenvolvido pelo talentoso estúdio japonês Atlus, se transformou em curiosidade. Entrei no avião e imediatamente liguei o Vita — nos EUA, não é necessário desligar os aparelhos eletrônicos na decolagem ou pouso — inseri o cartão do jogo e coloquei o headset. E foi aí que “Shadow World”, uma música cuja letra eu decorei, começou.

“O que é isso”, perguntou meu cérebro, me forçando a começar o jogo assim que possível. “Shadow World” é apenas uma das ótimas músicas que compõem a trilha sonora de Persona 4 Golden. Mas seu uso na abertura, junto com visuais que lembram muito mais uma série de TV do que com o jogo (algo que faz total sentido levando em conta a importância da TV na história), me pegou de surpresa. Eu nunca havia visto algo do tipo em um JRPG, ou em qualquer RPG pra ser honesto.

“Shadow World” é um dos elementos que criam o senso de estilo aplicado à Persona pela Atlus. A trilha sonora, as dungeons, os personagens, a estética visual. Tudo segue a mesma visão artística, e cria um jogo cuja apresentação é totalmente única e diferenciada. Tão diferente, que eu sei pra muitos será um “nope” instantâneo, mas pra mim funcionou. É um jogo que sangra com animação, com diversão, com o espetáculo, e que deixa isso claro desde a abertura. Como resultado, dediquei as seguintes semanas da minha vida a sanar a curiosidade que apareceu em mim. O que diabos é Persona 4 Golden? E por que eu estava gostando tanto dele?

Amizades Finitas

Como eu disse, tem vários aspectos presentes em qualquer JRPG que brilham em Persona 4. Eu amo o quão bem desenvolvidos os personagens do jogo são, como eles fogem das expectativas de histórias no ensino médio que nós temos, e o quão engraçados eles são, tanto nos diálogos, como através da comédia física. Adoro como o jogo te dá um milhão de coisas pra fazer, mas não te dá tempo pra fazer todas, permitindo que você escolha e dê atenção apenas para o que realmente gosta. Não curtiu o clube de basquete? Ignore-os e vá pro clube de teatro nas tardes de quinta-feira.

O combate é inteligentíssimo, levando em conta buffs, debuffs, elementos que causam mais, ou menos dano, e recompensa uma boa estratégia. A trilha sonora mistura faixas divertidas, animadas, tristes e impactantes, nunca ficando repetitiva — o que por si só é um feito, já que o jogo é muito longo — e muito menos irritante. As dublagens são de primeiríssimo nível, trazendo vida ao mundo colorido e diverso de Inaba.

Eu amo a forma com a qual ele junta as histórias e o gameplay. Fazer amizades, desenvolvê-las, começar um namoro, ganhar a confiança dos outros, tudo isso está debaixo do guarda-chuva que o jogo chama de Social Links, e eles são a fundação do jogo. Com eles, seus Personas ficam mais fortes, os membros da sua party evoluem, e você pode criar novos Personas ainda mais poderosos.

Entretanto, o maior impacto dos Social Links, e aquilo que tira Persona 4 Golden do patamar de bons JRPGs e o leva à excelência, está no fato de que eles acabam. Esse é um jogo com um final. Uma vez que você complete a história (não se preocupe, não vou comentar spoilers), todas aquelas pessoas que você descobriu e amizades que forjou acabam junto. Isso não é novidade, a maioria dos JRPGs não tem conteúdo depois do endgame. Aqui, entretanto, isso faz toda a diferença.

Todos nós passamos por diversas fases em nossas vidas. Escolas diferentes, amigos diferentes, personalidades diferentes. Experimentamos isso tudo e depois deixamos pra trás. Há pessoas que eu considerava “meus melhores amigos” que hoje não fazem parte da minha vida. Nós não brigamos, ninguém morreu, mas o tempo passou e eles foram embora. Eu também. Nós somos pessoas diferentes ao longo da nossa vida, e essas fases, não importam o quão curtas ou longas, são marcadas por amizades diferentes e finitas. Nós não percebemos que acabaram por causa da natureza da vida, enquanto alguns relacionamentos terminam, outros começam. É natural, e acontece o tempo todo.

Muitas vezes, é através dos amigos que nós descobrimos quem nós somos, e é ao aceitar quem nós somos de verdade, que encontramos os verdadeiros amigos. É um ciclo, faz parte da vida, especialmente quando você está em momentos decisivos, como no ensino médio da escola. Isto é um dos temas principais do jogo, já que é através da aceitar a si mesmo que os membros de sua party ganham seus Personas.

Mas Persona 4 Golden pega toda essa experiência, de criar novas amizades, conhecer novos lados de nós mesmos através destas amizades, e engloba tudo em um ano para o personagem, e mais ou menos 60 horas para nós, os jogadores. Como consequência, ao zerar o jogo, os relacionamentos acabam de uma vez. Do nada, todas as pessoas pelas quais eu me apaixonei, pessoas que eu não consigo chamar apenas de “personagens”, e que geraram em mim sentimentos tão genuínos como os de qualquer amizade que tenho no mundo real, foram embora. E eu fiquei sozinho, olhando pra tela do meu portátil, chorando como se alguém tivesse morrido. Eu havia dito adeus aos meus amigos, pra valer.

Grant Morrison, um dos meus escritores favoritos, responsável por algumas das melhores histórias do Batman e Superman, disse uma vez que, ao causar emoções verdadeiras em nós, super heróis, mesmo que ficcionais, se tornavam reais. Eu concordo com ele, e jogar Persona 4 aumentou ainda mais esta convicção. Não consigo dizer que tudo o que eu fiz enquanto em Inaba, todas as risadas que dei e lágrimas que derramei são “apenas um jogo”. Os Social Links, em português laços sociais, realmente foram laços pra mim. Quando a Yukiko, minha querida waifu, se declarou pra mim, eu fiquei estupidamente feliz. Quando Rise finalmente decidiu encarar lado de si que escondia, fiquei orgulhoso. Quando Yosuke, meu “bro”, brigou comigo, eu não me senti bem até reparar a amizade. E por aí vai.

A Atlus já mereceria ser aplaudida por essa conexão, mas ela vai além. O seu laço não existe apenas num nível narrativo, ele existe num nível mecânico. Desenvolver essas relações requerem ação da parte do jogador, se você não for lá e começar um Social Link novo, aquela pessoa vai continuar desconhecida. Uma vez que você começa o relacionamento, a coisa fica muito mais natural. Você é convidado pra sair depois da aula, os encontra aleatoriamente pela cidade, e recebe ligações perguntando se está afim de se encontrar no fim de semana. As vezes mais de uma pessoa faz isso, e como na vida real, é preciso escolher com quem passar seu precioso tempo. Lembre-se, o jogo tem um final, e quando ele chegar, sua chance acabou.

Pra mim, os melhores jogos de todos combinam o seu texto com o seu gameplay. Em Megaman X, você precisa ficar mais forte para derrotar Sigma, e faz isso jogando. Derrotando os chefões, obtendo novas armaduras e poderes. Em Journey, sua jornada, uma mistura de alegria e tristeza, é literalmente a base do jogo. Você mesmo sai andando por aí, encontra outros viajantes, e se sente sozinho no deserto.

Persona 4 Golden é brilhante pois através de sua principal mecânica cria um laço emocional entre o jogador e as pessoas daquele mundo. Enquanto a indústria dos games se preocupa mais e mais em criar experiências online, te conectando com outros jogadores e resultando em troca de xingamentos porque xXxSnip0rzxXx acha que você é um noob, a Atlus criou histórias pessoais, com emoção, risadas e lágrimas, e pediu que você as desenvolvesse através do simples, e ao mesmo tempo poderoso, ato de jogar o jogo.

Um novo fã

Como qualquer seguidor meu no Twitter pode confirmar, virei um fã enorme de Persona. Não é todo dia que você encontra o seu jogo favorito de todos os tempos. Obviamente meu primeiro instinto ao terminá-lo foi procurar por mais, e eu também me apaixonei por Persona 3.

Ele segue o mesmo esqueleto, mas com um estilo diferente. Persona 3 é bem mais obscuro e sério. Sua trilha sonora mistura hip-hop com rock de uma forma inteligente. E se um dos temas mais importantes de P4 é a verdade, aceitar quem nós somos, em P3 a morte e como ela afeta diferentes pessoas de formas diferentes, está no centro da narrativa.

Eu gostei tanto de Persona 3, que também escrevi um textão pra ele.

De qualquer forma, estou me divertindo muito. Algumas mecânicas não estão tão refinadas quanto no quarto jogo, mas isso era de se esperar. O enredo é recheado de reviravoltas, e os Social Links continuam divertidos de se fazer. Mas admito que não estou tão preso nele quanto estava em Persona 4. Talvez seja síndrome do primeiro amor, mas nada supera as experiências que tive com Yosuke, Chie, Rise, Yukiko (principalmente a Yukiko), Teddie, Naoto, Kanji, Dojima, Nanako, Marie, e todos os outros bons cidadãos de Inaba.

Eu mal posso esperar por Persona 5.

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