Sobre Eddie Murphy e comédia

Um Príncipe em Nova York (1988)

Como um fã imenso de comédia, seja de stand-up, sketches estilo Saturday Night Live e filmes, poucas pessoas me frustram tanto quanto Eddie Murphy (mais que ele só o Adam Sandler).

O cara é um gênio. Ele é um ator absurdamente talentoso, como qualquer pessoa que assistiu o ótimo “Um Príncipe em Nova York” pode confirmar. Ao ponto de que ele transforma filmes ruins, tipo “A Creche do Papai”, em coisas que dá pra assistir. Ele também é otimo stand-up (vejam Delirious no Netflix), e espetacular na hora de fazer sketches.

Mas de uns tempos pra cá, especialmente com a história de estar “aposentado”, ele deixou de alcançar o potencial dele. Fez umas coisas feito Norbit, ou aquela aparição sem graça no aniversario de 40 anos do SNL, na qual ele se recusou a interpretar o Bill Cosby para uma piada.

Ele ficou com medo de ofender, e esse é o cara que trouxe a conversa sobre negros na TV pra comédia quando estreou no SNL. A TV americana, e o SNL, era muito, muito branca nos anos 80, e o Murphy trouxe uma variedade cultural que ninguém esperava, e manteve ela lá, sozinho, semana após semanas. ESSE cara, se recusando a fazer o que faz de melhor, abandonando aquilo que ele claramente ama, e o que nos fez amar ele.

Comédia tem que tocar na ferida. Não pra ferir, como o Danilo Gentili tantas vezes faz, mas pra desafiar, como Louis CK fala. Se ofender com comédia é uma falta de entendimento do que é comédia. É pra rir, e se foi contra alguma convicção pessoal sua, pô, isso só torna a sua convicção mais forte.

E pouquíssimas pessoas faziam isso tão bem quanto Eddie Murphy. A minha enorme frustração vem desse “faziam.” O certo seria “fazem.”

Mas aí ele me vem e faz piadas numa cerimônia. E ainda por cima, piadas sobre o Bill Cosby, que depois do escândalo no qual mais de 50 mulheres acusaram ele de abuso sexual, virou um daqueles assuntos que nenhum comediante quer tocar.

Mas o Murphy pode, se tem alguém no mundo que pode, pelo seu histórico, legado, contexto e sensibilidade, é o Murphy. Ele sabe que pode, e ele foi lá e fez muito bem.

Você ainda tem comédia dentro do seu corpo, Murphy. Volta pra casa, rapaz.