Sobre Persona e ansiedade


Você não precisa ser especial pra sofrer de ansiedade ou medo aqui e ali. Faz parte dessa história bizarra de ser humano, e hoje em dia, com cada vez mais pressão e expectativas vindo de todo lado, é impossível não ter um dia ou outro em que você pare e simplesmente se sinta mal. Eventualmente passa, mas acontece com todos nós.

Vez por outra, me encontro enfrentando ansiedade social. Não pensando no que pensam de mim, felizmente não podia me importar menos com isso, mas pensando onde eu me encaixo. Eu vejo grupos de amigos que amo muito, pessoas com quem convivo todo dia, e ainda sim, há dias e dias em que não me sinto parte deles. Claro, nós saímos e nos divertimos, mas eles não são meu povo, e eu não sou o povo deles. Isso pode não passar de algo na minha cabeça, afinal amizade supera diferenças e adversidades, mas os pensamentos ainda me bombardeiam, e é um saco. Não é algo fácil de expressar, gastei quase meia hora só pra começar esse texto, mas é algo que existe e que eu sinto. A sua ansiedade provavelmente é diferente, o seu medo provavelmente não é que você está no lugar errado, mas você passa por algo, e chuto que teria a mesma dificuldade de expressar as particularidades dos seus sentimentos.

É por essas e outras que Persona 4 me impressiona tanto. Ele é um jogo que captura perfeitamente aquela ansiedade específica que nós sentimos e muitas vezes não conseguimos expressar, e que aparece no modo turbo em nossas vidas entre os 16 e os 22 anos, e ainda por cima mostra diferentes partes dela. Mas Persona vai além, ele te coloca face a face com a ansiedade, não pra que ela seja derrotada e você livre-se dela para sempre, mas para entenda uma simples verdade: não tem problema. Na história, cada personagem do elenco principal enfrenta, uma hora ou outra, uma coisa chamada Shadow, que é a manifestação física de partes de sua personalidade corrompidas por medo, ansiedade e depressão. As Shadows nascem de diferentes problemas, como a pressão que você sente diante das expectativas da sociedade, como a sua preocupação com o que alguém pensa de você, como um complexo de inferioridade, ou até mesmo como o debate de qual é sua identidade. Conforme os personagens negam as Shadows, dizem que elas não são parte do seu ser, mais fortes as manifestações ficam. O jogo representa isso as transformando em monstros, com visuais baseados na natureza do problema que a pessoa está enfrentando. Eventualmente você luta contra estas criaturas, e depois que a vencer em batalha, ela retorna à forma humana.

Mas este não é o fim delas. Isso só vem quando a pessoa de onde a Shadow surgiu aceitar aquele lado feio e vergonhoso de si mesmo, e é aí que elas se transformam em Personas. Lados de nossa personalidade não representam a ausência do medo, mas nossa capacidade de andar pra frente apesar do medo. Uma vez que aquele personagem tenha chegado neste estado, você pode criar uma relação — chamada pelo jogo de Social Link — com ele, e então acompanha o arco de desenvolvimento daquela pessoa até o ponto onde ela não vê mais aquela ansiedade como uma fraqueza que pode ser vencida. Não significa que a ansiedade deixa de existir, mas sim que ela não é mais um impecilho.

Mas Persona 4 faz mais do que isso. Ele não conta pra você como aquela pessoa chega lá, ele te faz parte da jornada. Os Social Links só são desenvolvidos se você, o protagonista do jogo, for até aquela pessoa e passar tempo com ela, conversar com ela, se dedicar a ela. Conforme os Social Links vão avançando, a Arcana dos seus Personas — para simplificar: a categoria daquele Persona — vai ficando mais forte, ou seja, aquele lado da sua personalidade também está crescendo e mudando. É uma mistura perfeita de gameplay e história, ao ponto de que eu não consigo dizer se o crescimento das pessoas que colorem Persona 4 é algo mecânico ou narrativo. São as duas coisas, ao mesmo tempo, em harmonia perfeita. É possível olhar esse processo pelos dois lados do espectro. O enredo da vida daquele personagem se desdobra ao ponto que você joga, e ao ponto de que você joga, o enredo se desdobra.

E estas pessoas com quem você cria relacionamentos muitas vezes vão estar do seu lado na hora de enfrentar outra Shadow, e mostrar pra outra pessoa que não tem problema ter aquela fraqueza, que você pode continuar crescendo e forjando laços independente daquilo. De acordo com crescimento da sua relação com os seus companheiros, eles ficam mais fortes, seus Personas evoluem, ganham novas habilidades. Eles crescem temáticamente, se tornando mais seguros de quem são e o que querem, e mecânicamente, abrindo novas possibilidades de combate, melhorando seu poder para continuar vencendo aquilo que um dia os assombrou. Percebe como é difícil distinguir se os Social Links são algo no lado gameplay ou no lado história? É porque eles são a fusão perfeita dos dois, juntando as suas ações com as vidas daquele mundo para gritar com uma só voz que aquilo que você considera a sua fragilidade pode ser na verdade a fonte da sua força. É a mesma coisa na vida real. Conforme seu relacionamento com alguém se aprofunda, você e aquela pessoa fazem mais coisas juntas, e conforme vocês passam mais tempo junto, o relacionamento vai além. É algo simbiótico, natural, embutido no nosso âmago, e algo que milagrosamente, o pessoal da Atlus conseguiu recriar em um jogo.

Pode ser meio cliché falar isso, mas pra mim Persona está mostrando que quando você bate de frente com a parede da sua ansiedade, você só precisa ir lá e continuar andando pra frente. Chie, Yukiko, Kanji, Naoto, Teddie, Rise, Yosuke. Eles são todos pessoas diferentes, cada um com ansiedades diferentes, mas todos eles andam pra frente, e você vai junto com eles, porque gera alegria vê-los crescer, e gera alegria crescer junto com eles. Persona 4 me diz pra não deixar minha ansiedade me impedir de apreciar o tempo que eu tenho com as pessoas que eu amo. E eu tenho certeza que se você já jogou, Persona 4 disse algo pra você também.

E se você quiser ler mais sobre porque esse jogo é tão especial, eu escrevi isso aqui também.