O São Vitor, visto a partir do Novo Osasco. Foto recente.

Na primeira lembrança que eu tenho da minha vida toda, naquela zona cinzenta das memórias quando a moleira ainda era aberta, eu estou no banco de trás de um Voyage preto. É um fim de tarde de 1997, eu tenho algo entre 3 ou 4 anos, minhas pernas não chegam nem ao final do banco, e eu estou em algum lugar depois do São Vitor. Em 97 Osasco era tão menor mas tão menor que o São Vitor era o fim da cidade, o Pinheirinho era só uma favela sem condomínios por perto, o Metalúrgicos nem tinha a companhia do Rodoanel e Santa Maria, Conceição e Recanto das Rosas eram uma fábula futurista. O Silas Bortolosso era o prefeito ainda.

Eu estou ali, nessa cena de poucos segundos, o Voyage está ali, meu tio, 16 ou 17 anos de idade pelas minhas contas, atrás do volante, aprendendo a arte, sob os auspícios do meu pai, 27 ou 28. Meu tio se divertia muito; eu estava distraído com uma caixa cheia de chaves de porca que meu pai tinha até um dia desses; e meu pai, entre uma lição e outra, uma cerveja e outra, se ocupava com uma fita cassete de nome “Sobrevivendo no Inferno”, um lançamento dos Racionais MC’s. Entre uma fala e outra, entre uma manobra e outra do meu tio, a fita ia e voltava, ia e voltava, ia e voltava naquele piano de Capítulo 4, Versículo 3.

Corte de cena: estamos em outubro de 2015 e os Racionais MC’s lançam sua discografia (exceto o disco mais recente) no Spotify. A banda que colocou o Rap paulista na TV (saudades do VMB de 1998), que vendeu um milhão e meio de álbuns de maneira independente (falo apenas de Sobrevivendo…), a voz da periferia (ainda se ouve Racionais no meio de pancadões grande São Paulo afora), agora enfim se abria para o streaming.

Pois os Demônios da Garoa, a primeira representação musical da metrópole, já estava lá. A banda de Adoniran Barbosa, que hoje mais é uma revisitação do seu próprio passado, foi aquela quem primeiro sintetizou o paulistano — a saber: o galanteador irrequieto, pouco letrado mas muito, muito humorado. O paulistano de Adoniran, o janota, viva numa cidade que ia, com todo o esforço, até o Jaçanã (e olha a dificuldade que ele tinha para voltar para casa em Trem das onze); que estacionava os Simcas Chambord na diagonal, a janela aberta e ia pra vida; da Paulista residencial e com poucas empresas.

Durante muito tempo foi Adoniran a carta magna da Maior Cidade do País. Ignoremos aqui Caetano, que fez da sua descrição mero impressionismo — São Paulo não pode ser descrita a partir de uma esquina escolhida ao acaso, e isso já deveria ser claro e notório. Mesmo sendo exaltada na voz do cantor baiano, a metrópole cada vez maior e multifacetada ainda não tinha uma expressão que condissesse, que unisse a maioria de uma vez. Talvez Construção de Chico Buarque faça serviço melhor.

Não foi o pagode do fim dos anos 80 que uniu a todos, nem a escassez melódica de gente como o Ira! que conseguiriam retratar o que era, agora, a Cidade mais Inchada do País. Morros cresciam, vilas industriais brotavam com suas casas minúsculas, sempre decoradas com aquele azulejo vermelho todo quebradinho, os carros de placas amarelas na porta, os barracos cada vez mais e mais longe dos bairros ricos, as cidades vizinhas cada vez mais e mais humildes — casas demolidas no Brás ou a mesma esquina de sempre já não pareciam eficazes para retratar a urbe.

Aí temos o massacre do Carandiru, dia 2 de outubro de 1992. Temos uma pista do que viria.

Rebobinemos a fita: 1993 é o ano em que os Racionais lançam Raio X do Brasil — um disco tão, mas tão influente que até hoje, em temporada de pipa, alguns peixões pretos são vistos no subúrbio ostentando a estampa da capa, a sombra de um homem segurando as grades (suspeitei durante muito tempo que fosse Jesus). A mancha urbana, que já expandia a ponto de não ter mais fim, a violência causada por desigualdade social galopante (outras das memórias de infância: as equipes de jornalismo policial perseguindo os carros da polícia) e a estagnação da imigração nordestina para a capital paulista, tudo isso tornou a cidade deficitária de referências — sobre envelhecer na cidade todo rock fala, mas e sobre as pessoas de verdade, os bairros de verdade, a vida dura de verdade?

Equilibrado num barranco um cômodo mal acabado e sujo,
porém, seu único lar, seu bem e seu refúgio
Um cheiro horrível de esgoto no quintal,
por cima ou por baixo, se chover será fatal
Um pedaço do inferno, aqui é onde eu estou
Até o IBGE passou aqui e nunca mais voltou

A ideia dos quase nove minutos de Homem na Estrada, narrada incessantemente pelo sotaque quase caipira de Mano Brown, finalmente abria os olhos da massa invisível de pessoas que tornaram essas terras a maior cidade do hemisfério sul: o porteiro, o manobrista, a caixa, a secretária, o motorista, o enfermeiro, o segurança, o estagiário, a atendente, a caixa, o cozinheiro, a estoquista, o copeiro e a garçonete, todo mundo que, depois de um dia tivesse de encarar o transporte público e voltar para um local onde alguma coisa falta (segurança, saúde, saneamento, creches para os filhos), todos tinham em quem se representar: a diversão escassa era uma ferida tocada em Fim de semana no parque; a complacência dos ricos para com os pobres aparece numa visceral Racistas Otários, onde a voz de um jovem Brown de 22 anos metralha verbos e adjetivos e palavrões de maneira tão naturais como se ouviria em qualquer rua do Grajaú.

A cidade de 9.6 milhões de pessoas em 1991–10.8 em 2010 — começaria decorar os versos dos seus primeiros hinos. Não à toa, Homem na Estrada tem vídeos não-oficiais no YouTube com 15.5 milhões de visualizações.

O mundo de bairros paulistanos agora é mais variado — e apenas o quarteto do Capão Redondo parece se importar com isso: Joaniza, Pedreira, Paraisópolis, a São Paulo depois dos prédios começava a ganhar alguma visibilidade. As localidades na zona leste ganhavam o apoio de outros rappers da antiga, como Xis — e o Racionais rachava a zona sul com a lenda-de-um-disco-só Sabotage.

Em 1997, com o lançamento de Sobrevivendo…, o choque foi mais intenso. O que se era esperado dos Racionais veio com juros, correção e uma dose de realismo sem precedentes. O segredo da empatia atraída pelo quarteto foi a de, em um disco longo e cheio até a boca de letras, nunca desfocar-se do que parece ser uma missão: retratar o que ocorre da ponte pra lá. A letra não se fia apenas em contar a vida na periferia (Periferia é periferia), até o lado criminoso de quem escolheu ser malandro (Capítulo 4, Versículo 3). De todas as críticas sociais, a direcionada ao sistema carcerário é a mais influente e seminal até o dia de hoje. Nem Xis, nem Sabotage, nem RZO, ninguém teve tanta habilidade para retratar a roda da vida de um presidiário desiludido como em Diário de um detento— cantada quase que na sua íntegra cidade afora.

Quando uma parte sensível da população já foi presa por crimes pequenos, ou já tomou um enquadro desonesto de uma unidade policial, os Racionais são lembrados quase que de imediato. O álbum seguinte, Nada como um dia após o outro dia, de 2002, consolidou o quarteto da Estrada de Itapecerica como a verdadeira voz paulistanas: as favelas falam, se sentem representadas na voz de Brown e KL Jay; Nego Drama virou um hino. A entidade favela não é santa (Eu sou 157), mas a entidade também é feita de sonhos e suor (o discurso de Sou + você é exemplar), Não apenas pobres, mas jovens de todas as classes começavam a saber onde era o Capão, como se vivia lá.

E começaram a achar inclusive muito bonito cultuar a vida dura da música dos Racionais. E o quarteto caiu no truque — era a brecha que o sistema queria.

***

O Racionais curtiu 12 anos de sucesso inegável — mas, como maus marinheiros, não notaram o desgaste dos próprios cascos. Com a fama, o caché mais alto. Com o caché mais alto, lugares mais caros — e uma escalada que durou anos e anos, culminando naquela resenha medonha da Folha de S. Paulo sobre como eles tocaram para os filhos daqueles “racistas otários” de 20 anos antes. O grupo tropeçou em sua significação — dado o zelo dos Racionais ao seu próprio legado, um tropeço fatal, que quase o levou à obsolescência total.

O rap, que para Sabotage era “compromisso”, para ícones desta década viraram Passarinhos, ou então a depressão inominável de Não existe amor em SP. Sério — imaginem o porteiro, o frentista, o feirante, o motorista, dane-se, imaginem meu tio, meu pai e eu, naquele Voyage preto no terrão do São Vitor, numa realidade tão esparsa dos grandes centros que só uma voz como Mano Brown. Não ia me enfiar de exemplo, mas não dá — mas nós três, na identidade que tínhamos naquela época, nos sentiríamos representados cantando Os bares estão cheios de almas tão vazias/a ganância vibra, a vaidade excita/devolva minha vida e morra afogada em seu próprio mar de fel/aqui ninguém vai pro céu? Nos veríamos discutindo a qualidade dos lambe-lambes embaixo do Minhocão? Cairíamos de amores, domésticas e faxineiras e atendentes, pelos poetas de rua? Afinal de contas, somos paulistanos ou somos Carlos Gardel? Somos verdadeiros paulistanos favelados — ou jovens ricos semidepressivos de Vila Madalena&Região?

Somos, no fundo no fundo, cúmplices. Vivemos uma década movidos a Racionais MCs e não soubemos largar mão, de tão empático que era, de tão representativo. Hoje, quando vejo o flyer chamando o rapper “Rael da Rima” se apresentando numa balada com entrada a $150 (a mesma dos Racionais ali em cima), meu corpo fica tonto como naqueles dias onde o Voyage servia de test-drive para o meu tio. Infelizmente, ainda é uma tontura.

Talvez precisemos de um novo hino para São Paulo, a Cidade Mais Melodramática do País.