Recomeço

A origem dos Treze (2ª parte)

O Redator

(para ler a 1ª parte)

O soldado que segurava os papéis de repente recolheu o braço e fixou o olhar num canto em que havia pilhas de livros erguidas à altura de uma pessoa adulta. Entre os livros era possível perceber o reflexo do fogo no ferrolho de um baú. Os homens se entreolharam.

— Sargento Elias — falou o soldado que havia achado os papéis — , eu não me surpreenderia se encontrássemos mais pistas ali, naquele canto — apontou o dedo.

Elias, que já ia reclamar que estava lendo os papéis, respondeu:

— Como vou saber? Vasculhem tudo! — gritou para que o restante dos soldados ouvissem. Tomou os papéis que o soldado Antunes havia encontrado, tirou o capacete, sentou-se num sofá desgastado que estava entre ele e as prateleiras, e pôs-se a ler:

“Meu codinome é Odon. Para efeitos históricos, deixo aqui registrado que sou o redator encarregado do Grupo dos Treze. Faço as revisões dos documentos e transcrevo o que me é repassado, por meio escrito e oral, pelos treze líderes e por alguns outros membros importantes do grupo. Estes últimos, em geral, são testemunhos de acontecimentos que não podem deixar de ser registrados.
Dois meses antes das eleições de dois mil e vinte e dois, ocorreu a queda de um avião em que estava o então candidato de oposição Josias Aquino e sua família. A Força Aérea Brasileira descobriu uma sabotagem durante as investigações, abafada pelo governo com a ajuda de grupos da imprensa. Porém, o mecânico subornado para adulterar uma peça da aeronave, foi encontrado morto no dia seguinte à queda na Catedral de São Paulo. O pároco e alguns fiéis que estavam no local, momentos antes do início da Missa, disseram ter ouvido um disparo. O primeiro a chegar ao corpo do suposto suicida foi um seminarista, assassinado duas semanas depois, num assalto sem maiores explicações. Uma carta escrita pelo mecânico que estava de posse do seminarista foi digitalizada e enviada a Lúcio, codinome de nosso líder, em São Paulo. Tudo indica que o seminarista, momentos antes de morrer, enviou o arquivo por email.”

Antunes havia desbastado as pilhas de livros, abrindo um clarão e revelando um baú de cor avermelhada que se confundia muito bem com a estante atrás dele. Estava debruçado e tentando abri-lo quando o sargento gritou novamente:

— Tudo o que encontrarem deve ser recolhido. Tudo! Eles passaram tempo demais aqui, debaixo dos nossos narizes, e tudo aqui reflete os objetivos e o modo de agir deste grupo nefasto.

Outro soldado chegou com um pé-de-cabra e finalmente o baú foi aberto. Centenas de pequenos cadernos de capa preta estavam etiquetados. Alguns com datas, outros com nomes de acontecimentos como “A renúncia”. Antunes passou a lê-los aleatoriamente, depois foi impedido pelo sargento que se levantara e batia com as anotações encontradas em seu ombro.

— O senhor gosta de ler, não é soldado? Pois então pratique.

O sargento olhou em volta e chamou outro soldado. Ordenou que fosse estabelecido um perímetro em torno da Biblioteca Nacional. Carros de combate foram acionados, homens posicionados e, ao final de quinze minutos, um controle total foi estabelecido dentro e fora do lugar.

Elias arrastou o sofá para o centro do salão, fez certa cerimônia, sentou-se e gesticulou para que Antunes começasse a ler em voz alta.

“Ainda não existia propriamente um Grupo dos Treze, mas é certo que os líderes se conheciam…”

(continue lendo)

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