Recomeço

A origem dos Treze (4ª parte)

(ler a 3ª parte)

“A origem do Presidente Santos se confunde com a Origem dos Treze, por isso é preciso voltar um pouco apenas para que não se perca o fio condutor dos acontecimentos.
O edifício “Do Imperador”, no centro da cidade de Petrópolis, Rio de Janeiro, foi o local onde pela primeira vez os Treze se encontraram. Chovia muito naquele dia e o porteiro, de nome Antônio, procurava encaminhar rapidamente todos que chegavam ao terceiro andar, apartamento trezentos e dois.
Lúcio, já citado, nosso líder em São Paulo, foi o primeiro a chegar. Mas era o anfitrião que todos queriam ver, atraídos por sua sabedoria e humanidade. Para maior segurança apenas seu codinome, Alberto, pode ser falado e escrito.”

Antunes estancou novamente e desligou a lanterna. Elias parecia voltar a mente de novo para o salão, para a penumbra e para os odores do momento.

— Você se lembra de quando ele foi preso, Antunes?

— Quem? — perguntou o soldado sem entender.

— Santos! Quando prenderam o presidente Santos.

— Não senhor. Eu estava terminando o treinamento…

— Eu vou contar, soldado, detalhes que jamais saberia, pequenas cortesias de quem era da guarda oficial do presidente. Meu irmão, Carlos… o jovem Carlos!

Antunes abaixou e se sentou próximo ao sargento. O fogo era raro e as vozes se tornavam cada vez mais imponentes, refúgio de uma solidão que seria motivo de insônia se não fosse o cansaço.

— As batidas na porta não o deixaram preocupado, eram seis horas da manhã, ou algo assim; Santos acordava cedo, tinha um ritual. Acho que todos esses grandes têm um ritual. Meu irmão podia ouvi-lo da porta enquanto ele se movia de um lado para o outro do quarto. Devia ser algum tipo de exercício. Quando ele parava, começava a rezar, e não era uma oração qualquer, não era não. Alguns diziam que rezava em Latim… no final das contas ninguém sabe. Ninguém sabe como um homem desses reza, a gente acha que nem precisa, ou que precisa muito… mas naquele dia não teve reza. Bateram na porta às seis, Carlos disse que tinha acabado de perceber que o presidente se levantara…

— Seu irmão ficava sempre na porta do quarto? Ele era o segurança mais próximo do presidente?

— Sim. Desde que o Presidente foi eleito aquela porta era guardada por ele. Às vezes tentavam mudar a guarda, o que é normal, mas Santos pedia para que ele voltasse. Como se diz, Carlos era o cara de confiança do presidente.

— E então?

— O presidente havia se levantado uns vinte minutos antes. Antes de baterem na porta e antes do seu horário habitual. O velho sabia o que ia acontecer… quando o Federal chegou, olhou para meu irmão e fez que ia abrir a porta mas foi impedido. “Deixa eu falar com ele primeiro…”, disse. Não foram os caras que bateram na porta, foi meu irmão! Santos conhecia o ritmo das pancadas. A porta se abriu e ele já estava vestido, alinhado, o homem estava de terno, Antunes! Banho tomado, cabelo penteado… Carlos então falou: “meu presidente, é hora de ir”.

— Seu irmão também sabia? — interrompeu.

— Todo mundo sabia… havia uma pressão enorme para que o presidente fosse preso. Descobriram tudo por causa do mecânico do avião. Você vive em que mundo, soldado?

Elias se levantou e, afastando-se, sumiu na escuridão. O soldado Antunes ainda ouviu seus últimos passos, mas percebendo a perturbação do sargento, não quis questioná-lo.

Debruçado num parapeito, Elias observava a rua deserta e as figuras sombrias dos soldados nos postos avançados. Até aquele momento, não havia parado para pensar na sequência dos acontecimentos que implicavam seu irmão. Perguntava-se o que poderia ter levado Carlos a agir… talvez a figura carismática do presidente. Fechou os olhos e tentou imaginar-se no irmão, penetrando em seu coração como um capitão comandando pela primeira vez um navio através de um rio desconhecido.