Há relatos de que São Jorge foi pacifista

Escrito entre abril e maio, quando o céu começou a desabar e nós havíamos saído sem capacetes.

Eu finalmente entendo porque a correria da nossa cidade encantava tanto você, o sorriso aparecendo sem pedir licença em seu rosto cada vez que o metrô parava em uma estação e as pessoas corriam pra dentro e pra fora dos trens, ansiosas em continuar se movendo no impulso que guia as vidas de todos ao mesmo tempo. Eu via a felicidade nos seus olhos, acompanhando cada sugestão de uma vida que nós só podíamos admitir desconhecer nos passos daquelas pessoas. Eu às vezes pensava se sua felicidade não vinha também de um reconhecimento, como se encontrasse nessa correria metropolitana vidas semelhantes à que você levava, sempre se movendo como se para não ser tocada duas vezes no mesmo lugar. Acho que o que te cativava naquelas vidas todas não era exatamente a existência delas, mas a pós-imagem que elas deixavam a cada segundo quando se moviam um passo para a frente. Não a vida, mas a sugestão dela. Um vulto fugidio que registrava sem deixar marcas que ali havia existido uma pessoa, como a sombra de um objeto nunca é o bastante para mexer a balança.

É estranho quando a gente percebe as coisas assim, despercebidamente, quase que sem querer. Como quando eu percebi o quanto o vagão do metrô afunda no lugar conforme os pés de gentes sobem e descem de dentro dele para seguir com sua vida diária, ou quando eu percebi que seus olhos pararam de me dizer “te amo” quando a sua boca ainda insistia em repetir. Eu já te contei que todos os textos da minha cabeça são narrados com a voz da Matilde Campilho? Acho que não. Também não te contei que o meu texto preferido de Matilde falava de amor de um jeito que me fazia pensar em você. Então, se juntar as coisas, eu nunca te contei que todo texto da minha cabeça acabava me fazendo pensar em você. Acho que metade de todas as relações é feita de ‘nunca-conteis’. A metade escura da lua, com São Jorge e seu Dragão. Porque quando nós revelamos algo de nós para o outro, sem querer escondemos alguma outra coisa. Eu penso nisso, lembrando que os seus segredos, do corpo e da vida, sempre foram algo que me encantaram, e saber que eu nunca conseguiria descobrir todos era reconfortante, porque sempre restaria em ti algo que me poderia surpreender.

Você acredita que São Jorge venceu o Dragão, como dizem os bons seguidores de Cristo? Ou será que foi o Dragão quem saiu vitorioso, os defeitos superando as virtudes, como a nossa história humana tanto parece contar? Eu gosto de acreditar que nem São Jorge matou o Dragão, nem ele assassinou o cavaleiro. Prefiro pensar que os dois chegaram a um entendimento, convivem em relativa harmonia, com momentos de maior calmaria e outros em que só se resolvem pelas vias de fato. Acho que é assim que a história seria contada, fosse ela menos ansiosa em nos dar uma lição de moral tão severa. Mas o que sei sobre São Jorge e o Dragão, eu que nunca fui a sequer uma aula de catecismo? Você sempre achou engraçado como eu me envolvia em falar de religião, o pior ateu que você conhecia, né? Gostava de dizer que a semelhança com Jesus na minha época de cabelos compridos havia subido à cabeça. Mas é verdade que eu sempre invejei Jesus. Sempre senti uma inveja (e uma tristeza) dele por ter carregado toda a culpa do mundo sozinho. Lembra como você me olhava bronqueada, os olhos nunca escondendo a leve tristeza e o carinho quando você me acusava de querer fazer o mesmo? Acho que eu sempre quis carregar tudo nos ombros por que aí não teria que reconhecer a culpa que você também levou quando as nossas fraquezas humanas foram além do perdão mútuo-Divino.

Eu também sempre me pergunto se na pequena lua que nós dois tanto passamos as noites antes que eu percebesse como o peso das pessoas — ou das culpas — fazia o metrô abaixar um pouquinho, a estrutura de metal admitindo que existem coisas que podem pesar mais do que a simples matéria… mas enfim, eu sempre me perguntei, enquanto o seu olhar traía a partida do amor que o seu dom do verbo ainda pregava — talvez tentando converter você, tanto quanto eu -, se na nossa pequena lua, eu fui São Jorge ou fui Dragão. Será que isso resolveria quem no fim venceu a fábula bíblica? E se eu pensar nisso todas as noites antes de dormir, será que os santos entenderiam como oração?

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Guilherme Vasconcellos

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Todos os erros foram intencionais. Meu maior talento é a habilidade de desapontar. Falo mal de umas bandas no http://www.youmedancing.com.br/author/guilherme/

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