Enquanto nada chega

Acho que hoje em dia (Por que hoje em dia? Não sei.) há algo de bucólico e, até mesmo, vintage em andar de ônibus ou metrô. Somos assim, cíclicos, quando almejamos ao máximo ter algo novo logo voltamos às antiguidades. Mas andar de ônibus nos faz esperar, e a espera nos constrange. Quando eu era criança detestava andar de ônibus, na realidade não era o ônibus que entediava, e sim a espera no ponto. Esperar nos tira do trono da existência, nos faz passivos, dependentes. Não gostamos disso, queremos produzir, conduzir, gritamos por independência.

Mas será que não nos tornamos ativistas para ensurdecer o nosso pensamento? Não fazemos uma porção de coisas na tentativa de nos mantermos ocupados e assim distraídos de nossos problemas interiores. Quando paramos para esperar, na maioria das vezes, estamos a sós. Assim somos obrigados a sentir o que vem de dentro e não queremos isso. Tudo contra o que lutamos é a demanda do auto conhecimento. É como se abríssemos um baú cheio de coisas velhas e empoeiradas que nos trazem más lembranças. Como disse o poeta: “Eu vou pagar a conta do analista pra nunca mais ter que saber quem eu sou”.

Mas a questão é que somos! À revelia das moralidades temporãs e culturais, contra todas as vontades do “querer ser”, somos. Negar o que se é nada mais é do que carregar consigo uma granada sem o detonador, ela vai explodir você só não sabe quando. Se acomodar ao que se é pode ser nocivo…para os outros. Duro deve ser perceber que se viveu como quis mas machucou e afastou a todos em volta. Bom, é aceitar-se como se é para poder mudar o que quiser. Quem não se aceita, não se vê sem o espelhos da vitimização, da super-valorização e nunca vai poder experimentar a evolução.

Quando se “acha” quem se é a espera não se abrevia mas se torna mais suportável. Bom é tirar a ansiedade do objetivo e amar enquanto se espera.

“Que quimera é, então, o homem?

Que novidade, que monstro, que caos,

que motivo de contradição, que prodígio?

Juiz de todas as coisas, glória e escória do universo.”

Blaise Pascal