A polícia “bem preparada”
A Polícia Militar do Estado de São Paulo há muitos anos ganha destaque pelos abusos cometidos nos mais diversos momentos críticos em que sua intervenção é exigida. Episódios como o Massacre do Carandiru, Chacina da Favela Naval, as decapitações dos “Highlanders”, desocupação do Pinheirinho, violência generalizada contra estudantes, são severamente criticados. Dizem que a polícia é despreparada. Discordo, a polícia é muito bem preparada.
A formação da PMSP é baseada na violência. Logicamente consta no curriculum alguma disciplina de direitos humanos, mera perfumaria. O policial é preparado para o confronto, para troca de tiros, para servir ao Batalhão de Choque, a ROTA, ao BAEP. Não se espera dele outra coisa que resolver na força, legitimada pela sua condição de policial, o braço armado do Estado. O desejo é que cumpra seu papel da garantidora da ordem social, de manter sob a haste de seu porrete os descontentes e sob a mira de seu revolver os exaltados.
Soma-se então a formação política de quem os comanda. Não de dentro, mas de fora dos quartéis. Gente como o Secretário de Segurança Alexandre de Moraes, que ultimamente faz questão de comandar as ações pessoalmente. Preocupado com sua autopromoção enquanto a PMSP suja sua farda com sangue. Acredita que a ordem social deve ser mantida a qualquer custo pelo Estado, para garantia dos direitos dos “cidadãos de bem”. De certo que em sua lógica perversa a “ordem” é a garantia de uma sociedade desigual como a brasileira, em que os direitos são as migalhas que sobram dos ricos e de um Estado cada vez mais ausente.
Nessa dança macabra sempre toma parte o Judiciário. Sempre existe um togado que homologa a barbárie com sua Mont Blanc custeada pelo suor do povo. Uma pena de aluguel, respaldada pela letra fria da lei e pela interpretação tendenciosa do Direito, ávida por uma promoção futura, por “merecimento”, pelos serviços prestados. Os tribunais, que deveriam ser os revisores desses descalabros, assistem passivamente e corroboram a violência institucionalizada, pelas janelas de seus salões acarpetados. Pequeno aparte para o Ministério Público, que de fiscal da lei, transformou-se numa corporação de meganhas interessados em operações de grande repercussão midiática.
A plateia desse baile repugnante é composta pelos zumbis do ódio, por aqueles que acreditam nos “humanos direitos”, no “cidadão de bem”, na gentrificação do espaço público. A mídia tradicional, com seus porta-vozes do medo, da insegurança espetacularizada, fornece o alimento para essa cambada de malucos. As redes sociais unem sua estupidez e formação rasa, propagando em segundos uma cultura da desconstrução da civilidade.
A violência institucionalizada, da polícia bem preparada, dos políticos conservadores, do Judiciário condescendente e silente, do Ministério Público do Espetáculo, sempre será ilegítima. A morte, sua figura mais funesta, aparece nas periferias e nos rincões há muito tempo. O abuso, sua face mais sedutora, já não precisa mais das madrugadas para se esconder. Ao contrário, ganha o dia, os aplausos dos governantes e dos zumbis do ódio, a legalidade do Judiciário, a desonra da História.
Gustavo Macedo