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Frio, Vermelho e Dolorido

Gustavo Boiúna
Sep 9, 2018 · 3 min read

— Não esperava ter que de novo parar para falar com você o quão babaca você é.
Meu corpo estava se aproximando do chão
A pancada foi dura e seca
Fazia tempo que eu não levava um soco assim tão bem dado
Um flash toma conta de minha cabeça

— Você é muito escroto, espero do fundo do meu coração que mude essa sua postura de gente babaca.
Eu estava em frente ao portão da escola
E havia acabado de levar uma surra dos valentões
Já havia se tornado parte integrante da minha rotina
Meu corpo dói por inteiro, dos pés à cabeça
Eu subo as escadas, com dificuldade
Encontro-a sentada em um dos degraus, chorando
Eu pergunto o que aconteceu
Ela diz algo, soluçando em meio aos prantos
Eu não lembro o quê. E, na realidade, não ligo
Parte do meu corpo ordena que eu sente ao seu lado, para consolá-la
Mas uma força maior me causa paralisia. E não sei como agir
Permaneço estático e imóvel
Com uma mão que se estende mas nunca alcança
— Por que é tudo tão fácil pra você?
Eu rio, parte escárnio parte vergonha. Ao mesmo tempo em que sinto os hematomas se formando por todo meu torso
Nunca foi fácil
Continuo subindo as escadas e, depois de dois lances, cambaleio e caio inerte
Meu corpo é fraco
Minha alma também
Outro flash

— Eu queria que você tomasse vergonha mas você só se assumiu babaca. Então nada.
Ela me dá um tapa
Não muito forte, mas foi o que mais me doeu
— Você é muito novinho pra achar alguém que tome seu coração, por que não simplesmente procura alguém que te faça feliz?
O quão novo alguém precisa ser pra continuar maltratando as pessoas?
O quão jovem para que as desculpas sejam aceitas? Para que os pecados sejam perdoados?
Não é aceitável, não existem justificativas
Ela chora
Eu me pergunto quantas vezes já não passei por situações semelhantes
“Situações insolucionáveis”, eu costumava chamar
Pois fazia tudo mais fácil
Eis a beleza do engano e do ego
Eu a abraço, e finjo chorar também
“Isso vai criar empatia”, eu penso
Meu coração começa a palpitar
Cada vez mais rápido, cada vez mais forte
Minhas mãos suam frio, o olhar passa a ficar turvo
O mundo a minha volta gira
Me falta ar
Eu caio
E apago
Um terceiro flash

— O que deu em você ontem?
Eu já sei do que ela está falando, mas finjo inocência
“Como assim?”, eu questiono
— Sério, por que você me tratou tão mal?
Ela me olha com olhos muito sérios
Eu sei que errei
Mas algo dentro de mim não responde a verdade
Há algo de gélido e pouco funcional lá
Datado e esgotado
“Eu devia pedir desculpas”, penso
“Isso não vai se repetir, foi mal”, digo em um tom de riso
Eu minto
Sei que vai se repetir
Como já se repetiu antes
— Como você consegue ser assim tão cínico?
Ela cospe na minha cara
Com o semblante emburrado, me dá as costas e se afasta apressada
Com a voz trêmula, esboço uma fala, mas não consigo completá-la
Meu corpo treme, ansioso
As pernas bambeiam
E por um segundo penso em desabar
Mas as lágrimas não vem
E com um sorriso meio bobo, meio condescendente, permaneço em pé
Olho para o céu
“Hoje é solstício de inverno”, penso
“Será uma longa estação… E eu não posso me perdoar”, murmuro baixinho
“Eu nunca vou me perdoar”, digo e repito para mim mesmo, incontáveis vezes. Até que

Desabo
E nunca mais levanto
Um último flash

Minha cabeça bate com força no chão
Eu penso na futura enxaqueca e nos problemas que essa queda vai me gerar
Mas não agora
Não enquanto a adrenalina toma conta de mim
Sinto meu nariz sangrar
E sorrio
Eu estive fugindo durante minha vida toda
Era hora de parar
É hora de revidar
Eu precisava daquele soco!

— Parando pra pensar assim você nem é tão escroto. Só um pouco.

Gustavo Boiúna

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Mudando de vida, uma escolha por vez

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