Aos trinta.

Quando criança queria ser astronauta, passava horas a olhar para o céu imaginando o que poderia estar acontecendo além das estrelas, criava histórias sobre extraterrestres super desenvolvidos que travavam guerras sangrentas contra monstros em planetas inóspitos, as estrelas eram usadas como bombas. Agressivo demais para uma criança, admito, mas era assim que imaginava o universo naquela época, hoje nem na existência de extraterreste acredito mais.

Sou brasileiro e, é claro, já quis ser jogador de futebol, mas jogadores em geral não são interessantes, somasse isso com a preguiça de correr atrás de uma bola e, pronto, fim do sonho.

Já quis ser psicólogo, fotografo, poeta, baterista, veterinário, apresentador de telejornal, historiador, vencedor da Mega-Sena e muitas outras coisas, nunca sonhei em ser publicitário, mas hoje escrevo este texto dentro de uma agência de publicidade. Ao contrário de todos os meus colegas de profissão, não acho que seja o pior trabalho do mundo, é divertido na maior parte do tempo e paga meus cafés, o que no fim acaba sendo o mais importante.

Não sei quanto a vocês, mas meus sonhos ou planos de infância nunca se concretizaram, alguns eram de fato bem difíceis como ter um dinossauro ou dar a volta ao mundo dentro de um barco, mas outros eram relativamente simples como ter um bulldog chamado Bartolomeu e ser pai aos trinta.

Quando criança, temos uma relação diferente com o tempo, os dias demoram semanas, os anos demoram décadas e fazer trinta anos parece tão distante quanto perder a virgindade.

Quando criança, a ideia de ser adulto está ligada a ter um emprego, esposa, filho, casa e um carro para ir à praia aos fins de semana, hoje percebo que ser adulto é apenas ter sabedoria.

E, adivinhem só, ter sabedoria é a coisa mais difícil do mundo.

Não pensem em sabedoria como inteligência, sabedoria não se aprende na escola, ser sábio é conseguir lidar com toda a mediocridade do nosso dia a dia da melhor forma possível, acordar cedo para trabalhar e não ter vontade de passar o dia inteiro na cama, dar bom-dia sorrindo para o porteiro que demora cinco minutos para abrir o portão, coincidência ou não, são exatamente esses cinco minutos o tempo necessário para você perder o ônibus, ser sábio é aceitar as diferenças mesmo que pareça impossível, ser sábio é escutar mais do que falar, é reconhecer erros, é pedir desculpas, ser sábio é ligar para sua mãe e dizer que tem saudades do abraço e não da comida, ser sábio é dizer eu te amo, é dizer obrigado, é rir da chuva, é não ter vergonha de chorar quando sobem os créditos, ser sábio é perguntar como foi seu dia?, ser sábio é ir dormir sabendo que fez alguém sorrir nesse dia tão ordinário, em outras palavras ser sábio é apenas ser feliz.

Eu, é claro, passei longe de ser sábio, costumava culpar a depressão, as crises de ansiedade, o comportamento antissocial, hoje em dia não tenho mais coragem de culpar nada disso, aliás culpar não é ser sábio.

Ao contrário do que pensava quando era criança, aos trinta a vida está só começando, podemos estar casados ou solteiros, podemos continuar ou simplesmente mudar, podemos participar ou apenas olhar, experimentar ou recusar, aos trinta podemos ter vinte ou podemos ter quarenta.

Aos trinta talvez esteja um pouco tarde para ser astronauta, mas sei que ainda posso ser…

sábio.

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