Estar

Com algum tempo sobrando no trabalho, vagando pela internet e rezando para o ponteiro do relógio ultrapassar a marca das 19 horas, leio o seguinte texto em algum site inútil como a maioria:

“Pai assiste ao nascimento de sua filha via smartphone em reunião”.

A foto era muito interessante: apesar dos ternos parecidos, consegui contar doze japoneses engravatados em uma sala de reunião gigante, tudo aparentemente muito luxuoso, enormes vidraças que me davam vertigem, mas que tinham uma vista linda, um horizonte incrível de fim de tarde se misturando a outros prédios igualmente luxuosos.

Senhor Hirato Ishikito assistia com seus olhos puxados ao nascimento de sua primeira filha em tempo real numa tela super amoled de 5 polegadas com brilho e som perfeitos, seus colegas de trabalho se amontoavam sobre seus ombros a fim de pescar qualquer imagem desse momento único, incrível não?

Não.

A tecnologia em si é impressionante e não podemos negar, nunca entendi o funcionamento da maioria dos aparelhos que me cercam todos os dias, celulares, televisores, computadores. Imagine então avançados aparelhos de ressonância magnética, aceleradores de partículas, telescópios capazes de ver estrelas a milhares de quilômetros, são coisas que vão muito além do que minha baixa inteligência pode compreender.

A história já nos ensinou que é impossível lutar contra a tecnologia e de fato isso não seria muito inteligente, pois precisamos de todas elas para evoluir e viver mais e melhor. O grande problema está em como fazemos uso dessa tecnologia ou em como a tecnologia está fazendo uso de nós. Somos reféns das mais diversas ferramentas, gastamos nosso tempo com barras de rolagem, com curtidas, com compartilhamentos, com postagens, e tudo aquilo que foi feito para nos aproximar está nos afastando.

Há poucos anos, por exemplo, o senhor Hirato teria que cancelar sua importante reunião para estar presente no nascimento de sua filha, teria que segurar a mão de sua esposa enquanto ela se desdobrava de dor, teria que sentir o primeiro calor de sua filha, o cheiro de placenta misturado a sangue e emoção, poderia até desmaiar, o que seria totalmente compreensivo e renderia muitas histórias engraçadas para o futuro.

Há pouco tempo atrás, teríamos que bater na porta em vez de mandar whats, teríamos que sorrir em vez de dar match.

Em outras palavras, teríamos que estar em vez de fingir que estamos.