Davi

Alegrai-vos com os que se alegram; e chorai com os que choram.
 (Romanos 12,15)
 
 Saul ocupou o lugar de costume, junto à parede, em frente de Jônatas, e Abner sentou-se ao lado do rei, mas o lugar de Davi ficou vazio. 
 (Samuel 20,25)

Culpa

Cravava o olhar sobre o quarto vazio,
 pintado em azul bem claro,
 com detalhes de super-heróis nas paredes.
 
 Ajoelhado em frente à porta,
 traz as mãos na cabeça,
 e os pensamentos no passado.
 
 A culpa recai sob seus ombros, 
 mesmo sabendo
 que o acidente não havia sido causado por ele. 
 
 Não tem mais sono,
 não tem mais vontade, 
 não tem mais sentido. 
 
 Era uma noite chuvosa, 
 a estrada estava molhada, 
 o semáforo estava aberto. 
 Mas a culpa…
 
 O móbile se move com a leve brisa que entra pela janela. 
 
 Os pequenos sapatos, 
 nunca utilizados, 
 descansam em cima do armário. 
 
 “Davi” seria seu nome, 
 o grande homem que enfrentou,
 e venceu o temível Golias. 
 
 Tudo estava preparado para a sua chegada: 
 os presentes, 
 o berço, 
 as incontáveis fraldas, 
 e um pequeno leão de pelúcia.
 
 Mas o destino,
 se é que posso chamá-lo assim,
 decidiu pelo contrário.
 
 
 Acidente (segundo ele)

“Lembro-me com uma quantidade de detalhes que gostaria de esquecer. Era 20 de dezembro, o natal e o ano novo se aproximando. Estávamos sozinhos em casa, quando ela sentiu uma pontada na barriga. Não parecia ser nada, provavelmente apenas mais um chute — sorrimos com a ideia de sermos pais. Então vieram a segunda, a terceira, a quinta pontadas em um pequeno intervalo de tempo. A pressão dela abaixou, seu corpo inteiro formigava. Foi então que peguei o carro e decidi levá-la ao meu hospital de confiança. Ela insistiu em irmos para o hospital de sua ginecologista, mas eu a convenci do contrário (a distância era muito grande). Já era de madrugada quando saímos de casa, e a chuva que caía se tornou mais um obstáculo a ser superado. As dores ficavam cada vez mais insuportáveis, e ela abraçava a barriga num gesto puro de proteção. Paramos em um semáforo próximo ao pronto-socorro. Assim que o farol ficou verde, avancei (mas deveria ter olhado para os lados…). Um carro vinha da outra direção, acertando a porta em que ela estava. O amassado, o sangue, foi tudo tão rápido…”
 
 
 
 Isolamento

Ele gritava com as mãos na cabeça, 
 e as lágrimas escorriam pelo seu rosto,
 em um choro desesperado. 
 
 Os sonhos, 
 os sorrisos, 
 ser pai! 
 
 Nada disso é mais realidade. 
 
 Agora ele se perde entre os tempos, 
 sempre no passado, 
 nunca no presente. 
 
 Ele já não consegue mais ser, 
 e se isola dentro de seu próprio mundo azul.
 
 Ele já não consegue mais viver,
 e caminha solitário.
 
 Morreu junto da família, 
 mas seu corpo não foi enterrado.

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