A falácia do “eu consegui tudo sozinho”

Há quem diga que chegou onde chegou, financeira e socialmente, às duras penas. Não duvido. Cada um sabe as batalhas que teve que travar para alcançar o tão sonhado prestígio — ou uma posição ou um bem material, como um carro, uma casa — até mesmo objetivando adquirir recursos suficientes para fazer com que sua filha e seu filho não passasse pelo que a própria pessoa teve que passar.

O que é difícil ouvir é que a pessoa conseguiu tudo sozinha. Na base do individualismo mesmo. E, portanto, não precisa oferecer nada a ninguém. A dor de seu percurso pode servir de justificativa para essa pessoa tornar-se orgulhosa e, ao mesmo tempo, egoísta, protegendo, quem sabe, apenas a sua família ou os seus iguais.

Não apenas é impossível um ser humano sobreviver sozinho como, hoje em dia, nosso grau de interdependência é uma cadeia global em que poucos ficam de fora.

Vamos repensar a sua, a minha, a nossa trajetória?

Você nasceu porque alguém te pariu. Essa pessoa, ou outras, nos seus primeiros anos, te alimentou, te reconfortou, cuidou de você.

Para que isso fosse possível, agricultores plantaram e colheram seus alimentos,trabalhadoras de indústrias talvez o tenham processado, motoristas levaram eles até um ponto em que você ou seu cuidador conseguia obtê-los, por meio das mãos de uma outra pessoa.

Outras trabalhadoras fizeram sua roupa, que foram extraídas por fazendeiros, de plantas ou animais, as quais também foram transportadas — até, quem sabe, importadas em navios ou aviões, projetados e fabricados por mãos humanas, e através de um processo envolvendo pessoas com suas próprias histórias, elas chegaram até você.

A sua casa, se não foi construída por alguém de sua família, provavelmente precisou de mais de três pedreiros, um mestre de obras, algumas engenheiras e — antes disso — da extração pesada das pedras, de tijolos feitos por pessoas do barro, ou até mesmo da madeira ceifada da árvore. Infelizmente, pode ter passado por um corretor e ter sido vendida, dependendo de sua localização, por preços abusivos.

Alguém te ensinou uma determinada língua, uma determinada cultura, te deu conselhos, te ajudou a distinguir o que fazer ou por onde ir, te acompanhou ou esteve do seu lado em momentos difíceis, te ofereceu uma vaga na escola ou no seu primeiro emprego — amigos, família, professoras, chefes — pessoas como eu ou você, em outras condições de vida, que também tiveram seus mestres e relacionamentos mais próximos.

Médicas, enfermeiros, assistentes sociais, psicólogos cuidaram da sua saúde em momentos de fragilidade — você tomou remédios que também foram extraídos, produzidos, embalados, industrializados e comercializados por milhares e milhares de pessoas que dedicam horas da sua vida para essas atividades.

Tudo isso sem contar a infraestrutura básica de terra, luz, água, saneamento, rodovias, portos e aeroportos, crédito agrícola e insumos, entre outros serviços de regularização, distribuição e garantia de direitos que são, pois há quem não os tenha, privilégios. Se você os teve, provavelmente os adquiriu por meio de uma espécie de governo — mais não sei quantas pessoas, trabalhos e serviços que são financiados por meio de impostos que seus beneficiários pagam (ou deviam pagar) — embora esse assunto mereça um outro texto cujo título será algo próximo de “a falácia do eu pago imposto e não recebo nada em troca”.

Isso sem contar quem veio antes da gente e possibilitou a melhoria das condições de higiene e saúde, do acesso a transporte, educação, a expressão, o direito ao voto, a proibição da escravidão, do assassinato, do estupro e da mutilação — fora a invenção e o sonho da água potável, da luz elétrica, das vacinas e dos remédios, das máquinas que auxiliam o trabalho humano, da produção mais barata e menos arriscada. Quem inventou as histórias que ouvimos, os livros que lemos, os filmes que vimos, as músicas que ouvimos, os quadros, edifícios, esculturas e parques que apreciamos.

Portanto, por mais que tivemos um longo ou duro trabalho até aqui, a força coletiva, as histórias que existem não por trás, mas ao nosso lado, que não são meros coadjuvantes ou suporte para nossos sonhos, estão também batalhando e se ajudando, seja por opção ou pela falta dela, a construir conjuntamente essa realidade da qual compartilhamos.

Se você, que trabalhou o que trabalhou, merece o salário que ganha, porque o agricultor que plantou sua comida, o professor que te ensinou o que você sabe, o pedreiro que fez a sua e tantas outras casas, o operário que produz suas roupas — que trabalha tão duro ou mais que você, que dedica ao menos 1/3 do seu dia para essa atividade fim fundamental nessa realidade compartilhada — pode ganhar assim tão menos?

E não me venha falar em risco de capital — pois estamos falando de riscos à vida que passam pedreiros na construção de grandes empreendimentos, agricultores longe dos centros urbanos e lidando com agrotóxicos e com ferramentas cortantes, ou operários em condições insalubres, mexendo com materiais químicos e maquinário pesado. Mas isso, mais uma vez, seria assunto para um terceiro texto.

Nem tampouco acredito que o quanto você ou sua mãe ou outra cuidadora gastou com o dinheiro da sua formação justifique o salário mais alto, algo como um retorno sobre o investimento esperado — não faria mais sentido se todos, endinheirados ou não, pudessem pagar ou se sustentar para essa formação especializada, caso ela fosse um interesse privado — e, obviamente, coletivo?

Lembrando que não adianta apenas agradecer, negar uma ou outra pessoa que aqui falo na sua própria história, ou pagar pelo que tem — pois mais uma vez, as condições da desigualdade, quando essa se refere a mais desamparo, mais dor e menos possibilidades, opções, acessos e garantias à serviços, fazem parte, por enquanto, dessa realidade de agora. Talvez quem não tem o que você tem não escolheu outro caminho, mas lhe faltou essa rede de interdependência que tanto lhe ajudou e que você finge não ver.

Não esmiuço aqui a herança da família ou condições imateriais e sociais nas quais nascemos e não escolhemos — como cor de pele, gênero, sexualidade, sobrenome ou localização geográfica — sendo elas por si só vantagens ou desvantagens na sua história pra você chegar onde chegou, agora muito mais ciente do que está em jogo.

Falo sobre reconhecer, repensar e atuar a fim de mudar o cenário em que vivemos, pois basicamente trabalhar com o que você trabalha e dizer que foi por merecimento individual pode estar a serviço da reprodução das injustiças — e do discurso que ignora o porquê dela existir.