Raimundos acústico, uma bela celebração

Você sabia que o Raimundos ainda existe? Sim, a banda continua viva e chutando. Depois da saída do vocalista Rodolfo a banda deu uma sumida da mídia, mas com Digão assumindo os vocais os caras lançaram logo em seguida um ajuntado “Éramos 4” e o ótimo “Kavookavala”, que não teve o sucesso e repercussão merecidos. Vieram então anos de idas-e-vindas, onde era um tal de sai Canisso-sai Fred-volta Canisso até que a banda se firmasse com uma excelente formação que tinha Digão, Canisso, Marquim (coadjuvante eficaz de Digão nas guitarras e vocais) e Caio, o substituto de Fred.

Lançaram o “Embate do Século”, um disco divertido e interessante com o Ultraje a Rigor, onde uma banda interpretava os sucessos da outra; e o bom “Cantigas de Roda”, onde mesclaram elementos dos discos anteriores em um trabalho muito bem feito. E seguiram tocando a vida, sem destaque na mídia, convivendo com as viúvas do Rodolfo e fazendo muitos shows. Um destes foi aqui em São João del Rei, onde se viu uma banda muito entrosada, com tesão em tocar para seu público e ainda com bastante lenha para queimar.

E já queimaram um pouco desta lenha no surpreendente “Acústico” (8/10), lançado este mês. Surpreendente porque confesso que eu não esperava muito deste trabalho. Nem a boa versão de “Bonita”, lançada como single, desfez meu ceticismo. Tenho uma certa birra de acústicos, acho que raramente acrescentam algo para a carreira das bandas. E este “Acústico”, se não é um marco na carreira da banda, está longe de fazer feio. O que vemos é um disco que celebra a carreira da banda como um todo. São 27 músicas que fazem um belo apanhado dos grandes sucessos e com uns bons lados B, para arrancar o sorrisão do fã.

O começo com Gordelícia, Palhas do Coqueiro e O Pão da Minha Prima já é uma boa amostra do que está por vir: um disco festeiro, com metais afiados e muita diversão. Aliás, O Pão da Minha Prima foi transformado em um ska de respeito, outra característica observada no decorrer do disco: várias músicas foram desconstruídas, a maioria com sucesso. Triste exceção para I Saw You Saying, que ficou ainda mais lenta e muito sonolenta.

Momentos mais “pesados”? Sim, aconteceram. A ótima El Mariachi, Mas, vó…, Deixa eu falar e uma impressionante e firme versão de Bê a Bá fizeram as vezes daquela fase mais seca e arrastada dos Raimundos que faz muita gente torcer o nariz, mas que eu adoro.

Como não poderia faltar em um acústico, as participações especiais brotaram aos montes. Rick Campos foi prejudicado pelo andamento ruim de I Saw You Saying e a banda Oriente (que eu desconhecia e não farei questão de conhecer, lamento) fez uma participação correta em Dubmundos. Ivete Sangalo foi muito bem em Baculejo e burocrática em A Mais Pedida (sdds Érika Martins), mas se saiu muito melhor que o insípido Dinho Ouro Preto em Mulher de Fases. Alexandre Carlo reprisou sua ótima participação em Deixa Eu Falar e o ponto alto certamente foi a participação do Fred em Selim e Cintura Fina, que deve ter feito muito fã se emocionar.

E o encerramento não poderia ser diferente: Puteiro em João Pessoa, Esporrei na Manivela e Eu Quero Ver O Oco são os maiores hinos do grupo e fazem qualquer um ir embora feliz e batendo cabeça, mesmo que seja acusticamente. Aliás, Puteiro em João Pessoa e Eu Quero Ver O Oco são os maiores momentos do grupo e, junto com Nariz de Doze (uma pena não ter entrado no repertório), são minhas preferidas da banda.

Enfim, a lenha queimada foi da melhor qualidade. Um acústico surpreendente, com ótimos arranjos de uma banda que nunca se entregou e que mesmo nos piores momentos nos trouxe grandes músicas. Um disco para ouvir, sorrir, curtir e festejar. Que venham novos trabalhos.

Para ouvir muito: Sereia da Pedreira, El Mariachi, Bê a Bá, Baculejo, Opa! Peraí, Caceta, Palhas do Coqueiro.

Para esquecer: A sonolenta versão de I Saw You Saying e a péssima Reggae do Manero, que não tem como ficar legal em nenhum andamento.