Etiäinen

Aquele era definitivamente um dia longo. Tinha se atrasado para chegar ao trabalho, trabalhado até cansar, e passado tempo em demasia numa estrada graças ao péssimo trânsito. Só queria estar em casa, assistindo o Arsenal, tomando uma geladíssima cerveja, reclinado numa poltrona no meio de sua pequena, porém confortável, sala de estar. Assim que entrou na própria residência, a aura de expectativa que parecia pairar sobre o lugar pareceu desaparecer. Era tudo preto, monótono.

Sentou-se em sua poltrona — um pouco mais dura do que fantasiou ser — e pôs-se a ler suas mensagens de texto. Um grupo de trabalho, cheio de colegas que tentavam dia a dia esfaquear uns aos outros pelas costas, para agradar um patrão que pouco se importa. Familiares que rondam aqueles que deixaram o marasmo de lado e tentaram conseguir algo para si no mundo onde cães comem cães, sempre dispostos a tentar tirar uma lasca onde podem. Um colega dos tempos de faculdade, já com poucos vínculos à sanidade, que não se sentia na necessidade de ater-se a convenções de etiqueta ou decência. E ela. Sempre, no final das contas, era ela.

Conheceram-se num pub perto de sua casa, do qual eram frequentadores regulares, onde tocava um violeiro qualquer. Ela simplesmente adentrou seu círculo de amigos, com umas cervejas na mão, e daí então ele instantaneamente foi atiçado por uma aura estranha, umj mistério nos olhos daquela moça, que deixava-no com um desejo por descriptografá-la. Ela, por sua vez, parecia brincar com ele, colocando-o como peão em um estranho jogo de xadrez, entiçando-o com suas palavras e convidando-o para conhecer mais. Saíram de lá, inebriados, rumo à casa dela, e lá tiveram o tempo que precisaram para entender-se.

Ela, desde então, é uma figura irremovível dos seus pensamentos. Não, ele não a amava — contudo, não era apenas uma “amiga próxima”. Era algo indescritível, como se ela sempre estivesse estado lá, no fundo da sua mente. E era verdade — não importava aonde ele estivesse, havia sempre algo que o fazia lembrar dela. Uma mancha de andorinhas a cruzar o céu, uma mariposa buscando a luz. Ele não conseguia simplesmente deixar de lado a ideia daquela moça.

Com o tempo, seu trabalho foi ficando mais exaustivo — “meu chefe provavelmente me odeia”, pensava — e sua saúde aparentava deteriorar. Mas tudo estava bem. Ela estava lá, por ele, provavelmente eram só coisas da imaginação dos outros. Talvez fosse saudade dela. Mas estava tudo bem. Afinal, não se pode aguentar a vida de empregado para sempre. Foi ao pub depois do trabalho, numa noite de terça. Uns sujeitos avulsos povoavam as cadeiras, indiferentes, sob o ritmo (ou a falta dele) de uma música caribenha de décadas atrás. Sentou-se ao balcão e pediu uma cerveja. “Saindo”, disse o barman. “Minha nossa, cara, você parece derrotado”, disse, “Sem sorte no amor?”

Ele riu.

“Muito pelo contrário. Estamos melhores do que nunca”, disse, fingindo um riso.

“Mesmo? Puxa, nunca te vi com ninguém. Por que não traz ela aqui qualquer dia desses? Sábado mesmo tem um showzinho aqui. É um baixista, bem suave…” As palavras dele pareciam diluir, esmaecer-se em sua cabeça conforme passava o tempo. Era hora de ir para casa. Pagou sua conta, pôs a bolsa nos ombros e saiu, sem olhar pra trás.

Ao seguir as três quadras (ou, como dizia, trezentos e cinquenta passos) que separavam o lugar de sua casa, teve a impressão de estar sendo seguido, ou ao menos observado. Já havia atingido um ponto onde, ao passo que movido pelo instinto natural de proteger-se, não temia por sua vida. Qualquer meliante que fosse poderia passar, levar seus pertences e sua existência sem sequer pensar duas vezes. Olhou em volta e, no entanto, viu apenas folhas sendo arrastadas com o vento, e uma bruxa-branca a bater-se contra o vidro de um poste. O álcool havia adentrado seu sangue, e questionou o quão longe poderia aguentar. Dormiu um sono profundo, aquela noite.

“Profundo”, no entanto, não era sinônimo de “tranquilo”.

Naquela noite, sua estada no reino de Orfeu foi uma das mais memoráveis. Talvez pela incapacidade de compreender o que se sucedeu. Aquela moça estava lá, esperando por ele. Uma mariposa-tigre repousava sobre seu cabelo. Não pronunciou uma palavra — apenas olhava-o nos olhos fixamente, como se sua própria visagem lhe desse alguma significância. Viu o que se passava à sua volta, e estavam numa praça não tão familiar, onde o tempo havia parado num céu laranja. Algo naquela cena era inatural, algo era simplesmente errado. Talvez fosse o semblante dela, que mesclava-se com a cena congelada em volta. Talvez fossem as árvores, que retorciam-se e inclinavam em direções grotescas. Talvez fossem os dois sóis no horizonte. Ou a clara ideia de que atrás das árvores haviam coisas, formas, sencientes e conscientes da sua presença.

Sentiu enjôo, e sua respiração pesou. Era claro que não devia estar ali.

Começou a correr, mas era incapaz de ir a qualquer lugar. Todo passo que dava para longe dali parecia lhe levar para mais perto, e chegar perto lhe punha no mesmo lugar. A cada instante que passava — não sabia se horas, minutos, segundos, nada fazia diferença — aquele lugar virava-se, tudo se contorcendo e transformando em formas estranhas, que não faziam sentido, que sua mente não podia compreender. Até o céu, com seus dois astros, estava distorcido, diferente de qualquer coisa imaginável. Ouvia o som de milhões de trombetas, advindo de todos os lugares e ao mesmo tempo lugar nenhum.

Acordou.

Subindo por sua perna, uma mariposa.

Era hora de terminar esta loucura.

Num ímpeto, dirigiu-se à casa da moça. Enquanto caminhava, ofegante, no canto dos seus olhos via as coisas horrendas de seus sonhos — que desapareciam ao tentar prestar atenção a elas. Andou por um caminho, mais longo do que o usual, absorto em suas ideias conflitantes, até que chegou aonde deveria estar. Ou, pelo menos, onde pensava que haveria um lugar onde deveria estar. Era nada mais que um terreno, com as fundações de uma casa há décadas decrépita.

Caiu de joelhos.

E chorou, sob o vento da manhã clara.

Uma pequena borboleta pousou sobre seu rosto.

“O que eu faço?” gritava. “O que é que tem de errado?”

“Mielesi tekee siitä todellisen”, disse aquela mesma borboleta, que alçou vôo para longe.

Já sabia o que tinha que fazer. Se fizesse e falhasse, estaria livre. Se sucedesse, estaria livre de qualquer forma. Havia, por chance, estudado aquilo durante sua formação — um jovem solitário tem tempo livre demais, afinal de contas. Lembrou de todos os ritos, todos os mantras. Bebeu um copo de água e sentou-se em meio a papéis espalhados e desenhos riscados no chão gelado da sala de estudos.

“Mielesi tekee siitä todellisen.”

“Mieleni teki sen todelliseksi.”

Era hora.

Sem desconcentrar-se, reconheceu uma feia e pequena mariposa marrom circulando uma das velas acesas à sua volta.

“Tervetuloa takaisin.”

“Hyvästi, piru.”

E assim o disse.

A cerimônia foi triste. Fúnebre, como é esperado deste tipo de evento. Mas para ele, não. Ele estava liberto, livre daquilo que ele próprio havia trazido para si. O incêndio resultante o desfigurou, mas ele sabia que era o único jeito. Agora, não precisava se preocupar mais com o que quer que ela fosse, ou o que fizesse. ou aonde quer que fosse.

Um rapaz, nos seus quase-trinta anos, colega de faculdade do indivíduo, e amigo próximo, fez um solene discurso, aplaudido por todos os presentes. Pôs sobre o caixão fechado rosas e uma vela azul— um presente ao pós-vida, um tanto irônico — e distanciou-se, conversando com aqueles que não via há tempos. Olhou para trás e viu uma jovem, em um longo vestido preto, pálida como a morte, pondo uma guirlanda no túmulo. Nunca a havia visto, mas imaginava ser alguém importante. Num piscar de olhos, no entanto, desaparece, como se nunca estivesse estado lá. Ninguém ali aparentava ter visto nenhuma moça, no entanto. Talvez fosse só ilusão da mente.Um tempo depois, com a cova já preenchida, decide dar um último adeus ao sujeito. Dá um pulo para trás, com um vulto cinza repentino.

Pensou ter visto uma mariposa.

Asutko reaalimaailmassa?
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