Pagando “Cofrinho”

Essa memória vai especialmente para a Célia. Estou devendo há muito tempo.

Faculdade de direito. Há uns 12 anos. Cheguei atrasado e contrariando um pouco a minha rotina, resolvi entrar em sala. É que na época, eu acreditava veementemente, que a obrigatoriedade de frequência DENTRO da sala, era de uma vez a cada 10 dias de aula.

Enfim, para variar, o vale estava montado. Não sei por quê, mas a turma se compacta pelas paredes. Tipo, em 3 metros de parede, eles conseguem juntar umas 10 cadeiras. Dez pessoas ocupando cada uma, uns 30 cm… Busquei minha panelinha, a galera com quem me relacionava mais. Eles estavam no centro da sala. Ou seja, eu seria o “Rei do Vale”.

Pedi licença ao professor. Nunca me lembro o nome dele, só que eu o chamava de Baby, por causa de uma Cocker spaniel que eu tive, cujos pelos eram iguaizinhos aos cabelos dele. Era um bom professor e gente boa também.

Sentei-me. Entediado e com preguiça de copiar (na verdade, eu nunca copiava. Muitas vezes, sequer caderno eu levava. Eu pegava uma folha e uma caneta emprestada com alguém, ou, assumia o compromisso mental de tirar uma xerox de alguém. Nunca o fazia.), dei uma olhada pela sala.

Lá na frente, estava um rapaz sozinho e isolado. Não creio que ele estivesse só, por ser desagradável ou algo que o valha. Acho que ele estava sozinho lá na frente, por ter comido as pessoas das 4 cadeiras que o cercavam. O cara passava de 200 quilos, com folga.
(BULLYING MODE ON — Eu sou gordo. Logo, zoar outro gordo, não conta como bullying. No máximo, podemos considerar como concorrência desleal. — BULLYING MODE OFF).

Enfim, ele estava pagando “cofrinho”. Cofrinho? Carro forte… Cofre da banco… Casa da Moeda. Dava para passar quatro dedos entre as duas bandas de toucinho do cara, sem esbarrar em nenhum dos dois lados. (Não, não é exagero. Célia, Fabiano, Dani, Serginho e Alexandre podem corroborar com os fatos aqui narrados.)

Na maior tranquilidade, eu viro para trás e solto: 
 “Estão vendo porquê eu quase nunca venho à aula? Sou obrigado a olhar para coisas assim. Olha só para aquilo! Se o cara ficar de pé e a gente soltar uma maçã por entre as bandas, ela cai no chão sem nem encostar na bunda do cara.”

Eu só não contava que a Célia e a Dani teriam uma crise de riso. Que contagiou Serginho, Fabiano, Alexandre… Só que EU era o “Rei do Vale”. Todo mundo que virou para olhar, dava de cara comigo. E eu, branco tal qual leite azedo, tentando prender o riso, não estava vermelho. Estava roxo.

O professor levantou-se da banca e olhando para mim, perguntou sério:
 “O que é tão engraçado? Querem compartilhar com a turma?”
 “Nada não, professor, foi uma piada que o Gustavo contou.” — Célia me jogou na fogueira.
 “Pronto. Compartilhem então com a turma.”
 “Não vai dar professor. Depois a gente pode até contar para o senhor… Mas, só depois.” — Célia me livrando.

O resto da aula, foi o professor explicando o assunto e olhando cabreiro para a gente, eu tentando, em vão, evitar olhar para toda aquela “abundância”. Cada vez que eu olhava, eu balançava a cabeça negativamente, tentando limpar a imagem da mente. Célia e Dani, escondidas atrás de mim, começavam a rir, o que disparava novamente as risadas do nosso grupo.

Não sei como, todos conseguimos passar na matéria do cara. Jurava que ficaríamos marcados por ele…

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