Hiato Entre Mito e Tecnologia 1/3
O Tubarão Decomposto de Damien, as Silkscreens de Andy e os Fragmentos de Ossos de Felipe
Tubarão Decomposto
Procurei a localização da fábrica do artista plástico Damien Hirst para ir visitá-lo, esperava uma Silver Factory high tech. Seu trabalho “taxidermista” baseado em formaldeído, pode não ser a produção de arte mais ambientalmente amigável do mundo, mas o novo estúdio e galeria pessoal de Hirst na Inglaterra foi projetado por um pequena empresa eco-consciente e é um “Science Gallery & Studio and Science ”. Ciência e arte, galeria e estúdio, seu recanto é uma galeria altamente tecnológica que também expõe sua pesquisa.
A associação científica de Hirst, além de produzir sua própria fórmula de formaldeído e criar animais preservados na solução, produz uma série de pesquisas em outras áreas. De certo modo, é algo como uma Sylver Factory High Tec, pois Wahol escolheu construir uma fábrica que manteria ao seu redor sua inspiração, que fosse ao mesmo tempo seu espaço de trabalho e de socialização. Não sei se rola festinha como na Factory na Fábrica do Damien, o clima aparenta ser um pouco diferente. Nem é pela Tec, mas talvez pelo High.
Hist, assim como Andy, começou com desenho e pintura. Hoje, sua obra é vasta e abrange esculturas em bronze, unicórnios em formaldeído, instalações, telas monumentais compostas de insetos, anjos como modelos anatômicos, artefatos arqueológicos, farmácias e obras audiovisuais. As fotos em alta definição de células cancerígenas, M122/337 Cells of breast cancer, light_micrograph_SPL.jpg, de 2008 são uma parte do acervo da sua Fábrica. É científico, misteriosamente e belo, mas é arte? Algo sobre essa série me leva a série de Andy Warhol Death and Disasters de 1962. Cadeiras elétricas, suicídios e acidentes de carro. Hoje câncer está na categoria desastre. As imagens de câncer de Hirst são gigantescas fotografias que registram a mórbida beleza microscópica destas células cancerosas. É lindo, as cores são vibrantes e os nomes científicos longos códigos decifradores dos mistérios da anatomia humana. São abstratas e ao mesmo tempo, o que há de mais real, indubitável e literal. Podemos ter certeza que esse é realmente como essas células são?
Um dos tubarões preservado em formaldeído de Hirst, The Physical Impossibility of Death in the Mind of Someone Living, começou a apresentar, depois de 2 anos de história, sinais de decomposição.
“É um grande dilema. Artistas e conservadores têm opiniões diferentes sobre o que é importante: a obra original ou a intenção original. Eu venho de um fundo de arte conceitual, então eu acho que deveria ser a intenção. É a mesma peça.” Hirst disse sobre a reposição do tubarão em 2006 ao New Nork Times.
Certo dia em 1990, o bilhonário Charles Saatchi , decidiu financiar uma obra de Hirst para se tonar peça central de sua coleção de arte contemporânea. É sabido que dos £50,000,00 fornecidos para a obra, £6,000 foram o custo do primeiro tubarão. A obra seguiu seu destino até ser vendida (por valor sigiloso, acredita-se entre $8 milhões — or $12 milhões) para Mr. Steven A. Cohen, outro bilhonário, e posteriormente pelo Gagosian Gallery em 2004. Mas quem ficou com o tubarão antigo? O que diferencia o tubarão descartado do novo? Primeiro que eles terminaram de estragar o antigo e mandaram caçar um novo especialmente para a obra. O novo espécime veio da Australia e foi pescado por demanda e teve as despesas da empreitada cobertas por Cohen. Chega de bilhonários, vamos agora procurar um filósofo, Arthur Danto, que sobre a diferença entre duas coisas aparentemente idênticas, uma sendo arte e a outra não, tem muito a dizer. Talvez a diferença entre o tubarão substituído e o exposto decomposto seja a mesma entre a Brillo Box de Warhol e uma mera caixa de Brillo real. E qual é a diferença entre uma Brillo Box real e uma Brillo Box do Andy Warhol então?
