Popper vs. Marx

Frequentemente vejo nos círculos ateístas aqueles nerds adoradores-da-ciência desfilando os adjetivos com que se identificam, tais como “cético”, “racionalista”, “agnóstico” etc. Em geral, são ateus de direita.
Quando nesse meio há algum materialista, é daquele tipo que só chegou até Darwin e nele estacionou; e dá-lhe as mais vulgares formas de biologismo para “entender” a sociedade. Faz sentido, pois nada melhor que a animalização do humano para quem quer ocupar a posição de zagueiro do capitalismo.
(O goleiro da burguesia está muito ocupado segurando-lhe as bolas para se dedicar a esses teorismos.)
O resto brinca de ciranda nas nuvens do idealismo de mãos dadas com os anjinhos. Donde seu ateísmo não ser mais que essa maricagem chamada agnosticismo.
Eles têm em comum uma crítica destruidora contra Marx: “não existe ligação entre socialismo e ciência”, socialismo é “pseudociência”, e demais variações.
O termo “socialismo” significa Marx; e “ciência” quer dizer Popper, o popstar da filosofia da ciência.
Mas, se quisermos algum rigor nesta arbitragem, vamos ter de mostrar-lhes que Marx sempre fala em socialismo se referindo a distintas posições e movimentos político-ideológicos - sobretudo franceses, existentes desde os tempos da Revolução Francesa, ou a uns poucos alemães. E sempre o faz de forma crítica.
Se o termo é entendido como sinônimo de comunismo, então cabe notar que também se trata de uma posição e movimento político-ideológico; entretanto, é preciso reconhecer que, de fato, a crítica marxiana à economia política (ou, em termos atuais, “capitalismo”) visa fundamentar teoricamente a prática comunista.
E aí, o marxismo é uma ciência? Segundo Popper, não. Mas por que Popper merece crédito, quando tudo que conhecia de Marx mal se distingue do que sabem esses mesmos nerds? Porque, vão responder, os critérios popperianos valem para todo e qualquer discurso que pretenda ser ciência.
Uma resposta que poderia ser igualmente utilizada para ressuscitar e justificar as regras cartesianas do “método científico”.
Trata-se de uma alfaiataria que costura roupas científicas para vestir todo e qualquer objeto, independente de suas medidas. São realmente muito razoáveis essas filosofias da ciência elaboradas no banheiro dos gabinetes!
Mas Descartes não pode. A ciência deve ser aquilo que Popper disse que ela deve ser. A ciência deve ser popperiana.
Marx elabora uma prática científica e um entendimento do que é ciência largamente ignorados pela turba da filosofia da ciência. Ao contrário de pensar o encaixotamento do objeto em fórmulas pré-moldadas - o que não pode ocorrer sem o risco de sua total (e eventualmente conveniente) desfiguração -, afirma: é preciso conhecer a “lógica específica do objeto específico”. Ou seja, não há um método pronto para se conhecer o que está por ser conhecido; é preciso enfrentar o objeto a partir do que queremos dele e por meio do que houver à nossa disposição. À medida em que lidamos com ele e o mapeamos é que podemos começar a formular os meios de extrair dele aquilo que procuramos.
Donde o pobre Popper nada ter a dizer de consistente sobre Marx, enquanto Marx teria muito a dizer sobre Popper (cf. a “Ideologia Alemã”).
De resto, por que a compreensão do que um autor diz deve provir não de suas palavras, mas das de outro autor? Quem pensa que basta se guarnecer do juízo alheio para angariar alguma autoridade crítica age com pura crendice, talvez por preguiça ou incapacidade de formular o seu próprio parecer. Uma atitude típica do criticismo e ceticismo que habitam a escala abaixo de zero, onde os mitomaníacos exaltam uma ciência que não existe em lugar algum senão nas ideologias de direita.