Ninguém imaginou, nem Boauzizi, nem Rousseau!

“Encontrar uma forma de associação que defenda e proteja com toda força comum as pessoas e bens de cada associado e pela qual, unindo-se a todos, só obedece todavia a si próprio e permanece tão livre quanto anteriormente”
Rousseau, em O Contrato Social

No dia 17 de dezembro de 2010, um jovem desesperado, decide atear fogo em seu próprio corpo como forma de protesto, ponto. No Egito, dias depois, a população resolve invadir a praça Tahir no Cairo (invadir???). E ponto. E assim, de ponto em ponto esta é a forma como os eventos que deram origem e fôlego a tão famosa primavera árabe, são contados na mídia, especializada ou não. A abordagem jornalistica tradicional ajusta seu foco para cobrir o evento sob o paradigma de que o movimento fora altamente organizado hierarquicamente. E os repórteres e âncoras se degladiam procurando o líder, o responsável, o “cara” que está por trás. E por partirem deste paradigma, assumem um lado míope da cobertura jornalística. Que não só os dificulta enxergar o evento em plenitude como também não conseguem traduzir para seus públicos a realidade como de fato ela é. Então a leitura da realidade fica refém da informação. A questão é que não vivemos mais num mundo “cidadão kane”. Não podemos mais nos eximir. Não podemos mais fazer do consumo de produtos jornalísticos nosso bode expiatório. Existem outras fontes.

A ativista e jornalista egípicia, Nawara Negm, que fez parte desta transformação, afirma que o sucesso do movimento no Egito deu-se boa em parte por causa da dificuldade das autoridades em perceberem o fenômeno do movimento social descentralizado, onde não há estrutura hierárquica de poder e nem mesmo de organicidade. Embora haja coordenação e liderança. A busca pelo “chefe do movimento” o cabeça da organização, tem sua razão de ser em função do modo como fomos ensinados a viver, numa obediência submissa cega e condescendente. Este equívoco em relação aos movimentos populares cegam as autoridades constituidas, revelam o quanto o Estado está aquém dos anseios da população e como a arrogância destes custará suas cabeças.

Estes eventos que se deram no mediterrâneo e que voltaram a se repetir, são fenomenos que nem mesmo a sociologia é capaz de explicar por vias clássicas. Estes eventos (que no Brasil foi visto no movimento nacional de julho de 2013 nos protestos da tarifa de ônibus), são fenomenos que ocorreram em razão da alta conectividade das pessoas. A ciência que tenta seguir explicando isso é ainda muito jovem, porém bastante consistente. E o mais relevante ganho que decorre desta alta conectividade é o empoderamento. O empoderamento ocorre em coletivos, ocorre nos bairros, mas ele se dá basicamente por que ocorre nas pessoas. Ele revive e refaz um modo de ser do ser humano que jamais poderia ter deixado de existir, de perceber-se como cidadão. Se para os gregos a cidadania não era objeto de estudos, ou mesmo se quer havia uma ideia que a definisse cientificamente, por que para eles a cidadania era a própria vida, e sua vivência na prática era o único sentido. Para nós, se tornou refém de teorias que mais explicam o que seja do que preparam para o fazer de fato — uma prática de interação. Nesse sentindo, atinge também o conceito de democracia, o que para alguns significa apenas a possibilidade do voto em período de eleição, quando é esta prática que suprimiu a possibilidade da democracia de fato.

Fiz esta introdução para preparar o coração para revelar minha verdadeira razão de celebrar: A ocupação das escolas de São Paulo. Este movimento assim como tantos outros ao longo da breve história dos movimentos populares legítimos, tem conseguido colocar as pessoas como protagonistas de suas vidas e das decisões políticas que lhes interessam. Veja a fala da Larissa Cardenas, adolescente de uma das escolas ocupadas, esta fala é fruto da consciência:

Após ameaças, confrontos da policia (agente do Estado que deveria garantir a segurança destes mesmos alunos) simulações de vandalismo amplamente divulgado na mídia outlet e o silêncio nestas mesmas mídias sobre as atividades deste movimento, nada disso foi capaz de parar o movimento. Ao contrário, o Governador Alckmin voltou atrás, o secretário de educação renunciou. Como dizia Ulysses Guimarães: “ A única coisa que mete medo em político é o povo na rua”. A atitude destes homens públicos revela a profunda distância que separa o povo e seus anseios legítimos dos projetos e das motivações políticas dos governantes. A arrogância não permitiu se quer a abertura do diálogo previamente.

O staff do governo acreditou deter a fórmula mágica e decidiu enfiar goela abaixo da comunidade escolar. Não quero nem me ater a questão técnica do projeto em si, não pretendo escrever um tratado. Diante do clamor das pessoas, do anseios destes alunos e de suas comunidades, a questão técnica pouco importa. Os principais atores do processo não foram ouvidos, tivessem sido; talvez o desfecho fosse outro. Fará agora o que deveria ter sido feito de cara.
 Entenda que ocupar a escola é uma ato de desobediência civil, de rebeldia pacífica e é legítimo e inescapável. Por ser a manifestação da cidadania de fato, a ocupação enseja uma democracia direta. Boicota o poder da democracia informal que no Brasil foi capturada pela corrupção, interesse privado e subserviência de todos os tipos. E é importante que os alunos, pais e professores e todos quantos fazem parte do movimento, não se deixem capitanear por nenhuma organização, seja politica ou não, mas que siga seu curso construindo sua própria reputação, porque do ponto de vista da legitimidade ele se basta.

Assim como na primavera arábe o ditador Mubarak, presidente do Egito, o da Tunisia, Ben Ali, cairam porque não souberam ler este fenomeno sendo gestacionado no seio da sociedade, assim também cairá no Brasil tantos quantos cometerem o mesmo equívoco. Minha celebração é pela liberdade, pela cidadania, pela desobediência, que ocorrendo aqui e ali são cada vez mais inevitáveis. Minha gratidão a Mohamed Bouazizi, que fez sua imolação ante a entrada da prefeitura de Sid Bouzid para declarar com seu grito que o arranjo social das pessoas, não pode mais ser abarcado pelo Estado, e que a liberdade só é real, quando o indivíduo pode vivê-la plenamente. Vamos ocupar! Vamos por em cheque-mate o rei! Faça parte da revolução, porque o futuro é a rede e a democracia direta. Já pensou em escolas auto gerenciadas por alunos, professores, pais e comunidade? Este é o próximo passo.

“O povo quer que o regime caia”.

#OcupaEscola

Referência do video: Reportagem do canal TVT, https://youtu.be/bakC7dDd1Pc

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