Desconhecer alguém

Phelipe H.
Aug 24, 2017 · 3 min read

Quando somos crianças, brincamos com muita gente, sejam pessoas mais novas, mais velhas ou bem mais velhas, fazemos amizades, que podem perdurar por anos ou décadas, ao passo que também deixamos muitas outras pessoas pelo caminho, mas na inocente e inexperiente percepção de vida, não damos muita bola pra isso. Já na adolescência, nosso círculo social recebe um verdadeiro “up” e novos rostos surgem, com eles novas experiências, como o primeiro amor, o primeiro beijo, aqueles rolês com os amigos do colégio e por aí vai. Mas eis o problema: obviamente, nossa vida não é como um Maracanã, em que podemos manter milhares de pessoas ali dentro e dar a mesma atenção a todos, manter relações contínuas com todos — e da mesma forma os outros com relação a nós. Inclusive, um cara chamado Robin Dunbar diz que podemos ter cerca de 150 pessoas no nosso círculo social por vez, entre família, amigos e colegas (ou seja, quando disser que tem mais de mil amigos no Facebook, pense bem). Afinal, não há cabeça que aguente tantos nomes, tantos assuntos, tantas personalidades enquanto tem que equilibrar na mesma balança os estudos, o trabalho, os boletos a pagar e todo o resto.

A serenidade no olhar de quem nem imagina que vai desconhecer o amiguinho. (foto: Shutterstock)

A partir desse momento, na fila de espera para o embarque na vida adulta, começamos a perceber melhor e sentir esses distanciamentos, e logo vemos que o cara que jogava bola com você, ou aquela amiga com quem sabia de cor e fazia um dueto de Rihanna (ou My Chemical Romance, Fresno, Michel Teló, enfim), com quem existia a certeza que era uma relação eterna, é hoje uma pessoa apenas de quem se lembra. Não há notícias, não há papo, só memória. E quando enfim entramos na vida adulta, nos deparamos de vez com esse lado ruim de conhecer alguém: o desconhecer.

Muitos são os motivos que nos levam a desconhecer alguém. Do início da vida, como lembrado no começo do texto, é natural, cada um cresce e toma seu rumo. Já à medida que o tempo passa, se torna mais comum desconhecer alguém por causa da faculdade que acabou, do trabalho que mudou, do carnaval que passou. Ou porque, afinal, aquele mesmo amigo entre mil do Facebook foi só uma fase, um passageiro, algo efêmero que veio só dar uma mudada nos ares. Se pudéssemos categorizar os desconhecimentos, talvez um dos piores, ou o pior, seja aquele do amor que não deu certo, que, por uma decisão equivocada ou da química ruim, acabou (ou nem sequer começou). E logo você se depara com aquela tenebrosa realidade: a de que alguém, amigo ou amante, que foi tão especial a ponto de não se imaginar viver sem ele, logo será só mais uma figurinha da página anterior. Já foi, já foi. Às vezes só no tempo, pois na memória e na saudade decidiu ficar — e pior, incomodar, martelar: “ei, lembra da fulana? Como vocês se davam bem! É, se davam… que coisa a vida, não?”.

Aquele momento que você tá em cima de uma montanha, mas lembra daquela pessoa legal. Quem nunca? (foto: Pexels)

Há quem defenda que isso é normal e contribui com nosso crescimento. A ciência até explica que a cada período de tempo, renovamos nossa rede de relacionamentos. Era assim no passado, é (e muito mais) hoje e continuará sendo. Eu entendo, afinal, é impossível nutrir laços com todo esse povo, embora não goste dessa ideia. Quer dizer, entendo às vezes. Quando não, ficam as reflexões e aquele pensamento “por que?”. Mas como dizem por aí, vida que segue — e segue como um trem, que pega uns aqui nessa estação, deixa outros ali e assim vai até seu inevitável destino.

E para encerrar, uma menção aos que inspiraram esse texto: aos meus ex-amigos e amigos (aqueles que um dia serão ex também). Prazer em conhecê-los, mas desconhecê-los, nem um pouco.

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