Rodrigo Hilbert é um cara normal que faz coisas normais

Parece que quando surge um homem que faz mais do que o básico, há um ponto fora da curva. Se esse homem é famoso, em especial branco e bonito, aí parece que temos um ponto que nem faz parte dessa curva, o bastante para fazer, como diria o sensacionalista BuzzFeed, “quebrar a internet”. Nessa onda de endeusar o Rodrigo Hilbert, parei para pensar um pouco sobre como reagimos (sim, de uma forma bem abrangente, sei que nem todos são assim) com algo que, pra muitos, e talvez até pra ele mesmo, é totalmente normal.

Nos impressionamos com pouco

Busquei na mente algumas das situações que colocaram o ator no nível “homão da porra”. Além da já conhecida beleza do rapaz, que não vou negar e até queria um pouco, estão entre seus superpoderes: cuidar dos filhos, fazer crochê, cozinhar e construir casinhas de brincadeira, bem como outros dotes surpreendentemente… não surpreendentes.

Um deus em seu momento supremo (imagem: programa do Rodrigo Hilbert)

Pegando um exemplo mais próximo da minha realidade, sou uma pessoa que gosta de fazer as coisas, talvez herança do meu pai que sempre foi um construtor-inventor-(coloque aqui outros dotes) nato. Nos últimos tempos, aproveitando o tempo livre, fiz uma casinha pra minha cachorra e, atualmente, estou arrumando com meu cunhado a calçada da frente de casa, coisas que pra mim são completamente normais (trabalhosas, porém normais), tendo em vista tudo o que vi meu pai fazer durante toda a vida. Comentei algumas vezes sobre isso com amigos e amigas e em quase todas as vezes ouvi/li um “que homem!”. Agradeci e achei graça, mas parei pra pensar e não há nada demais nisso, sério. Talvez estejamos tão na zona de conforto, tão acostumados com ter alguém que faça por nós, seja mãe, pai ou uma pessoa para cuidar do problema, que o “faça você mesmo” se tornou impressionante. Ou talvez tenha algum motivo a mais.

A admiração é seletiva, preconceituosa e machista

A introdução do texto e o item anterior já são uma prévia desse ponto. Vejamos bem: quantos “homões (ou seria ‘homenzarrões’?) da porra” você considera quando eles são o peão da obra que você vê nos canteiros? O cara que construiu essa casa que você mora? Ou o gari que junta latões de lixo todos os dias, sob sol ou chuva, de preguiçosos que não conseguem jogar seus próprios resíduos numa lixeira? Por que seria tão foda fazer essas coisas, para o Rodrigo Hilbert e para mim, mas para o pobre, muitas vezes negro, não? Preconceito. E não diga que não. Ninguém acha que um ator global, branco, de olhos azuis e rico, ou um designer-fotógrafo de classe média, vá sujar as mãos para fazer algo que socialmente é relacionado ao trabalhador braçal, então fazê-lo é virar um exemplo.

E mais, por que um homem fazer crochê, cozinhar e cuidar dos filhos o faz um homão da porra e uma mulher que faz o mesmo (que não deve ser tarefa exclusivamente feminina, mas fizemos com que parecesse) não é um mulherão da porra? Machismo. E não diga que não. A propósito, temos que parar com esse senso comum, mais do que ultrapassado, de que é a mulher a responsável pela casa e os filhos e o homem com o carro e o trabalho fora. Então, cara, lavar a louça não é um ato heróico ou solidário.

“Coloco alguém no altar, mas desço de lá pois sou mortal”

E aqui chega o ponto dos “parem o Rodrigo Hilbert” que pipocaram no Facebook. Sabe aqueles mitos de deuses ou semideuses gregos que faziam coisas impossíveis e a população os admirava por não ter a mesma capacidade, por admitirem que eram inferiores? É isso que vejo, mas com um sentido muito menos nobre: preguiça. Muito dessa mania de supervalorizar algo comum feito pelo outro é pela mais pura preguiça, por colocar aquela coisa num nível tão superior que “eu, um mero mortal, não posso fazer”. Uma grande mentira, eu e você sabemos disso. Afinal, é tão mais cômodo deixar que alguém faça por nós…

Quase como cuidar de filhos, não?

Há quem se identifique (embora possa não admitir) com um, outro ou todos os pontos desses que eu observei. A questão é que, seja por qual for o motivo, como diz um outro texto que li essa semana, “Rodrigo Hilbert não precisa ser parado e sim servir de inspiração para outros homens” — e, como aprendizado nunca é demais, mulheres também, embora esse texto trate em partes do machismo. É preciso parar com o mau hábito de tornar o simples complexo, seja por comodismo ou preconceito. Que tal mudar agora? Pode até se tornar prazeroso e você vai ver que não é difícil — garanto que não tem nada de extraordinário nisso.