Flores de Lótus

Fantasmas rondam Porto Alegre, caminham invisíveis entre seus cidadãos de bem.

Não sabemos ser empregados, não sabemos cumprir ordens, não entendemos de horários. Vivemos em impulsos, em saltos e quedas, em contemplações do infinito. Explodindo em luzes e cores. Sentindo todo e cada sentimento. Seguindo nossos desejos onde quer que eles nos levem.

Não tememos tristezas, alegrias, perdas, ganhos. Nosso único medo é o medo do medo de ter medo.

Vivemos pelos momentos que estamos perdidos na arte, submersos no oceano sem pontos cardeais, participando de cardumes efêmeros para depois afundarmos sozinhos na escuridão de ser.

Artesãos trabalhando incansavelmente em oficinas internas e invisíveis. Sob a luz das estrelas, mãos dadas com a madrugada enquanto os outros sentem sono. Olhos fixos no sol enquanto os outros reclamam do calor.

Somos deuses que não negam sua natureza, tiranos amorosos com a arte que produzimos. Conjugar o verbo fazer é nosso único motivo.

Somos fantasmas que lutam pela vida porque não sabemos o que esperar da morte. Desprezamos a norma porque não a entendemos, porque ela nos queima a pele. Porque seguir a cultura dói dentro dos ossos, cada fibra, cada músculo se atrofia no contato com o normal.

Somos artistas por eliminação, porque experimentamos tudo que chamam de vida e o gosto é sempre de morte. Somos artistas porque não nos contemos de entusiasmo ao fazer. Somos artistas porque só a arte se parece com vida.

Circulamos por Porto Alegre e sentimos olhares na nuca, dedos apontam em nossa direção e ouvimos resmungos por desprezarmos tudo que está podre.

Cometemos o crime da liberdade e nos tribunais do senso comum somos todos réus confessos.