Máscaras.

Eram dias frios da Europa, a morte estava por todos os cantos e vinha pelo cheiro podre e pelos pequenos roedores que habitavam os cantos podres e escuros das cidades grandes, ele não desejava estar lá porém tinha em sua mente que era um dever cívico e moral, visto que seu pai era um doutor renomado em todo o ocidente, ele era um jovem adulto que nunca havia presenciado tanta desgraça quanto naquele lugar corroído pela morte, mas ele não se importava em estar ao meio do imundo e do decadente, ele tinha conhecimento que qualquer descuido poderia resultar em sua mudança de um jovem puritano para um daqueles humanos enfermos.

Ele caminhava por aquelas ruas fedidas e cheias de agonia e rancor, os conventos estavam arrasados e cheios de agouro, tentavam ao máximo preservar todas aquelas vidas doentes mas todo o esforço era em vão e muitos desistiam por isso, a igreja estava com um ar sombrio, todas aquelas pessoas transformaram o convento e a igreja em um lugar totalmente triste e depressivo, ainda mais quando um organista tocava um réquiem para aquelas almas que abandonaram seus corpos naquele local, totalmente trágico.

O jovem chegou naquele convento, o sol estava escondido pelas nuvens cinzas e o clima estava chuvoso, e logo uma figura moribunda, fraca e magra veio lhe receber com um cálice com um pouco de vinho e alguns pedaços de pão, logo lhe disse:

-”Obrigado pela oportunidade sua de vir até nosso humilde convento para cuidar de nossos doentes, nós lhe trataremos da melhor forma possível mesmo não podendo lhe dar melhores alimentos e roupas, mas acho que não será necessário, os enfermos mais graves estão ali naquela cabana, quando quiser você poderá ir examinar eles e talvez cuidar deles.”

O jovem lhe respondeu:

-”Eu que lhe agradeço pelo seu tratamento e pela sua oportunidade de examinar esses doentes e talvez chegar a uma cura dessa terrível doença que está destruindo nosso povo, mas creio que a glória de Deus estará conosco independente da dificuldade!”

Os dois se despediram com uma pequena inclinação da cabeça e cada um seguiu seu rumo, o monge até o interior do convento e o jovem até seus aposentos: uma cabana pequena que ficava ao lado de uma pequena barraca de um vendedor de frutas, que exclamava o poder de cura de suas frutas e as mãos profanas que tentaram tocar aquelas frutas “sagradas” e foram impedidas por uma luz que vinha do céu.

O jovem entrou em sua cabana feita de pano sujo e de alguns remendos velhos com cheiro de nostalgia e saudades, então se deitou em uma pequena pilha de folhas que havia ali e deixou seu uniforme ao lado, e lá ele pegou no sono e sentiu alguns pingos de chuva em seu rosto, a partir de lá, ele adormeceu como um recém-nascido.

Nosso jovem estava descansando quando aquele monge moribundo o chamou, com um pouco de agouro:

-”Meu jovem, precisamos de sua ajuda em nossa cabana de enfermos, temos um rapaz que está quase morrendo e precisamos da sua inteligência em tal situação.”

Ele se levantou rapidamente e sentiu um cheiro estranho no ar, um cheiro morto do qual conhecia muito bem.

Pegou um saco que continha seu uniforme e outro pacote menor lá dentro, vestiu seu sobretudo preto e suas luvas negras, abriu o pacote menor e pegou algumas flores e ervas que estavam lá dentro; apertou aquelas ervas em sua mão e com aquele líquido que saiu daquelas plantas, passou pela sua roupa e então segurou sua máscara.

Uma máscara negra que só continha dois visores, era uma máscara clássica de todo o médico que vivia naquela época, um bico pontudo que lembrava os pássaros que viviam na casa de seu avô que não via a muitos anos, colocou as plantas na ponta daquele bico e vestiu a máscara e ficou observando aqueles dois visores e então, ficando com uma aparência sinistra e que não combinava definitivamente com o ambiente em que estava, pegou seu bastão e saiu em direção a barraca dos enfermos.

Chegando lá, se deparou com uma grande movimentação de pessoas e apressou seus passos e pedindo licença para as pessoas:

-”Com licença! Saíam da frente pois eu irei examinar o enfermo.”

As pessoas fitaram o visual bizarro do jovem e se assustaram, dando espaço para sua passagem que conseguiu fluir normalmente.

Ele chegou aonde o doente estava deitado e viu sua situação, completamente deprimente: seus olhos estavam vermelhos e sua pele estava pálida e cheia de feridas que tinham um odor podre, ele tinha uma expressão triste como se soubesse da morte eminente que lhe faria uma visita mais tarde.

O jovem lhe examinou, apalpando suas feridas e observando seus olhos até o momento que lhe questionou:

-”A quanto tempo você está com esses sintomas, meu caro?”

O enfermo lhe respondeu:

-”Eu estou com todos esses problemas faz por volta de uma semana, quero saber se tenho chance de viver, eu não quero continuar uma vida nessa maneira, eu só quero que esse sofrimento acabe!”

O jovem inclinou sua cabeça para baixo de um jeito que expressou tristeza, olhou de volta para o enfermo e lhe afirmou:

-” Eu poderia aqui lhe falar mil mentiras sobre como você pode sobreviver, mas eu não irei lhe contar mentiras, as chances de você voltar a ser o que era são muito baixas, eu diria que quase nulas mas se você quiser começar um tratamento, por mim não tem problema.”

O enfermo derramou uma lágrima daqueles olhos vermelhos e clamou:

-”Então me mate! Eu não quero gastar os seus suprimentos e o do convento, minha filha está enferma também porém ela tem pouco tempo de doença, por favor cuide dela, dê o melhor tratamento a ela pois eu amo muito ela, e tenho certeza que você é um bom doutor visto que você me contou a verdade e não falou mentiras sobre como eu iria me recuperar.”

Do outro lado daquela cabana, o jovem ouviu um grito feminino que emanava um desespero enorme:

-”Não mate meu pai, eu lhe peço clemência com ele, ele é forte e irá se recuperar dessa doença, por favor não mate ele.”

O jovem percebeu que naquela cabana não havia nenhum diálogo construtivo e então disse:

-”Vejam só, eu não estou aqui para ouvir intrigas familiares, eu sou um aprendiz de doutor e não um conselheiro! Quando vocês se decidirem, eu voltarei nesse lugar e farei o que me for pedido.”

Ele saiu daquela cabana um pouco irritado mas compreensivo com toda aquela indecisão por parte da família do homem enfermo, mas as suas prioridades não eram mais o homem e sim a sua filha que estava doente porém com mais chances de cura.

O jovem entrou em sua cabana e percebeu algo diferente: havia uma silhueta lhe observando atrás de alguns panos que ficavam ao canto daquele lugar, e então ele perguntou:

-”Quem está ai? Diga rápido!”

A figura encapuzada se assustou e tentou fugir daquela cabana iluminada, porém tropeçou em uma pedra que fez com que quebrasse seu pé.

Vendo aquela situação, o jovem carregou aquela figura misteriosa que estava sentindo muita dor e agouro até a cabana dos doentes mais leves.

Talvez foi um momento um pouco complicado para nosso rapaz porém ele tirou o capuz da pobre criatura e percebeu que aquela era a irmã da filha do homem da cabana dos doentes graves, e que ela foi até sua cabana apenas para lhe pedir clemência com seu pai, o que lhe cortou o coração.

Algumas horas se passaram e o jovem se sentiu na obrigação de fazer algo, não adiantava ficar bebendo vinho e jogar conversa fora sobre assuntos do cotidiano com aquele atendente da taverna, ele devia fazer algo para aquela família que não estava mais resistindo a tudo aquilo.

Chegou em sua cabana com um pouco de dificuldade pois a chuva havia prejudicado muito a viela em que ele estava, e mais uma vez aquele vendedor de frutas exclamava o poder mágico de seus produtos.

Ele vestiu seu uniforme e ficou observando os visores daquela máscara que tinha um significado tão forte pra ele, pois ele gostava de ser um doutor mas a idéia de não conseguir salvar muitas pessoas fazia com que ele se sentisse culpado por todas aquelas mortes, ele se sentia negligente.

Colocou sua máscara e foi até a barraca dos doentes enfermos, que estava mais calma e menos movimentada.

Chegando lá, o homem que ele havia conversado mais cedo estava deitado com muitas dores, então o jovem fez um suco com algumas ervas e deu para ele, o que fez com que ele dormisse e sua dor aliviasse.

Depois disso, ele começou a cuidar da filha desse pobre homem, e ela estava acordada porém seu estado da doença não era avançado.

Então ele começou a higienizar as feridas que a doença lhe causou, passou algumas plantas para que a vermelhidão desaparecesse naquele corpo, até o momento que ela lhe disse:

-”Desculpe pelo acontecido de hoje, eu só queria que você não matasse meu pai, eu não quero que ele morra, e desculpe minha irmã também, ela não teve nada de parcela nisso.”

O jovem se deparou com aquele rosto camponês do qual ele ainda não havia visto, e ele se encantou totalmente: olhos azuis que lhe lembrava o mar, uma pele branca que lhe lembrava a neve e um cabelo loiro que lhe lembrava o pôr-do-sol.

O jovem logo se resguardou e lhe respondeu:

-”Não precisa se desculpar, eu imagino o quanto é ruim para você mas fique sabendo que eu irei me empenhar em curar seu pai, vou tentar ao máximo.”

Os olhos daquela pequena camponesa brilharam com aquela voz que saiu daquela máscara fantasmagórica, ela então com o maior prazer do mundo lhe respondeu:

-”Eu só tenho que lhe agradecer, você é muito gentil mesmo, eu só tenho que lhe agradecer por todo esse trabalho que você vai ter.”

O jovem abismado com tanta beleza e com a doçura daquela voz, inclinou sua cabeça para baixo e virou de costas e foi cuidar de outros doentes.

Ele decidiu passar a noite naquele local, e ficar observando aquelas pessoas era o maior passatempo para ele, porém nada superava a sensação de observar aquela pequena criatura que lhe criou tanto esmero e paixão.

Ele estava sentado na madrugada jogando conversas fora com um dos pacientes quando ele ouviu um grito daquela doce menina, logo ele se dirigiu até os seus aposentos e viu aquela pobre menina se contorcendo de dor pelas suas feridas, então ele se apressou em lhe fazer um suco com algumas ervas que faria aquela doçura dormir.

Depois de preparado, ele deu aquela mistura para a jovem que bebeu tudo e logo adormeceu em seus braços, e ele amou muito sentir cada fio de cabelo daquele anjo, amou sentir a textura da sua pele mesmo com uma luva por cima.

Vendo que não havia mais trabalho ali para ser feito, ele decidiu voltar aos seus aposentos e dormir um pouco, e assim foi feito.

Em seu sono, ele começou a sonhar com uma cena que ele mesmo não acreditava que poderia ocorrer: um baile em um lago com a água cristalina, e uma plataforma encima dessa água, então o jovem estava sentado em uma cadeira velha e quase podre quando chegou aquela menina que lhe havia roubado o coração, e pegou em suas mãos e lhe pediu uma dança, então ele levantou e segurou nas cinturas daquela figura mais próxima do paraíso, aquele foi o momento mais mágico de sua vida, seus rostos colados e suas mãos se encontraram e se entrelaçaram, até que ela vinha lhe beijar, e ele sentiu a ternura daqueles lábios doces e macios, eles estavam dançando com seus pés porém seus lábios dançavam juntos também, até o momento que aquele sonho se desfez com uma repentina gota que caiu em sua face enquanto dormia.

Ele sentiu uma fadiga enorme quando acordou, lembrou do quanto trabalhou na noite passada então tentou dormir mas um pouco mas aquela cena não saia da mente dele, então ele decidiu se levantar e andar pelo convento, só para descontrair.

Enquanto andava por aquele ruas estranhas e cinzas, ele começou a pensar naquela menina que estava tirando toda a sua sanidade, ele queria sentir aqueles lábios e o abraço quente daquela jovem camponesa, mas ele sabia que se ele fizesse isso de verdade, resultaria na seu próprio adoecimento.

Ele se sentia cansado mas feliz ao mesmo tempo, cansado por estar trabalhando muito e feliz pela presença daquela camponesa, porém começou a se sentir triste pelo fato dela estar doente e não conseguir dar saúde a ela.

Ele voltou a sua cabana e trocou sua roupa pelo seu uniforme de trabalho, novamente observou os visores de sua máscara e vestiu sem grandes complicações e tomou seu caminho até a cabana dos enfermos.

Chegando lá, ele começou a cuidar de alguns enfermos, dando misturas de plantas e lavando as feridas de muitos, até que chegou a hora da camponesa ser cuidada, porém ele percebeu que as feridas dela estavam piorando e mais feridas estavam surgindo, o que o preocupou muito pois ele não queria perder ela.

Até que ela lhe disse:

-”Me diga algo, você pode tirar sua máscara? Eu queria ver quem é você.”

Então ele a respondeu:

-”Não posso tirar minha máscara pois é uma formalidade do meu trabalho, mas talvez algum dia você me verá sem ela.”

Naquele momento, os dois sentiram algo imperceptível no ar, era como se os dois fossem atraídos um ao outro, ambos queriam se abraçar mas nenhum dos dois tinha coragem de cumprir isso, mas logo aquilo desapareceu do ar e os dois voltaram aos seus respectivos afazeres.

O jovem estava limpando uma das feridas da camponesa que o olhou nos olhos, e ele a encarou de volta, e vendo todo aquele azul, toda aquela imensidão e doçura, sua pele arrepiou e ele olhou para sua ferida e continuou a higienização, mesmo com a vontade de observar a imensidão dos olhos azuis daquela camponesa.

Pouco se sabe sobre a figura daquela jovem, mas ela era uma menina do campo que vivia junto com seu pai e sua irmã e seu irmão, eram todos muito felizes mesmo que a mãe tenha morrido a pouco tempo, eles não eram uma família rica mas também não eram pobres, eram de classe média.

O nome daquela camponesa era Lily e era a irmã do meio de três irmãos, porém um já havia morrido vítima da mesma doença que ameaçava a vida do pai e da filha naquele momento, mas por mais que a situação da família era grave, ela não estava com medo, muito pelo contrário, estava contente por sua irmã menor estar num convento onde tomariam conta dela e não deixariam ela na rua como um andarilho.

Lily estava muito curiosa para saber o que estava por trás daqueles dois visores escuros, e ela sentia um conforto e segurança enorme com a presença daquela figura fantasmagórica que colocava medo em todos, menos ela, ela presenciava uma sensação que não conseguia descrever só com palavras, era como se toda a vitalidade que ela havia perdido, voltasse a seu corpo com a presença daquele doutor.

O jovem doutor não sabia o que fazer, ele tinha medo de declarar os sentimentos para Lily e que algo acontecesse com ela, e todos os seus sentimentos fossem pelo ralo, mas ele também pensava que seria pior aguentar isso, pois a cada dia ela estava piorando e tinha medo de tudo não dar certo.

Mas isso não afrontava as expectativas dos dois, era claro uma grande química entre os dois porém com a condição de Lily, era provável que os dois não poderiam ficar juntos, e a realidade esmaga os sentimentos, pode ser qualquer sentimento, o tempo esmaga.

No dia seguinte, um monge adentrou a barraca do jovem pedindo ajuda:

-”Por favor! Um paciente nosso está a beira da morte!”

Logo, o doutor se prontificou em ajudar, colocou seu uniforme e sua máscara, mas dessa vez sem tempo para observar os visores que estavam um pouco sujos de pó.

Chegando na barraca, com muito medo que o paciente que estava morrendo fosse Lily, ele adentrou rapidamente e observou, iluminada por uma vela, Lily derramando uma lágrima sobre o corpo de seu pai, que já estava sem vida.

Vendo toda aquela situação, percebeu que as feridas de Lily tinham ficado mais abertas e sangrando mais, então ele pegou a camponesa no colo e a colocou na cama e foi tentar reanimar o pai de Lily.

Porém, depois de muito esforço, foi certificado a morte do senhor de 67 anos, Lily estava desolada e aos prantos, todos tentavam a acalmar mas ela só queria ficar sozinha.

O jovem doutor tratou de cuidar do corpo do pai de Lily e o colocou no necrotério que ficava no subsolo do convento, onde os monges rezavam pelas almas do que já se foram desse mundo.

Depois ele voltou até a cabana onde Lily estava, e lá não havia mais ninguém, ela ao ver ele, começou a chorar, então os impulsos mais humanos do jovem doutor o fizeram ir até a cama de Lily e tentar consolar ela:

-”Eu sinto muito pelo que aconteceu com seu pai, eu sei que a dor é maior nesse momento, a dor é forte mas você é muito mais forte que ela, você aguentou essa doença por bastante tempo e eu não quero que você acabe igual a ele, eu tenho esperanças que você irá se recuperar então não desista, por favor…”

Lily derramou mais algumas lágrimas e então segurou a mão do jovem e lhe disse:

-”A morte é algo tão complicado de se lidar, você convive a vida inteira com uma pessoa e do nada ela falece ao seu lado e você está destinada ao mesmo caminho que aquela pessoa, e eu não quero morrer, posso parecer calma por fora mas eu não quero morrer, eu não quero morrer!”

O jovem encheu seu pulmão e lhe disse em tom alto:

-”Você não irá morrer! NUNCA! Eu não quero que você morra! Eu irei cuidar de você especialmente para que você não morra, eu não quero ver você partir.”

Vendo toda aquela situação, Lily abraçou com força o doutor mesmo sabendo do risco de contaminação, e aqueles foram os segundos mais lentos da vida dos dois, pois o jovem sentiu o coração de Lily bater mais forte, ele sentiu aquela coisa pulsando em seu peito e sentiu o cheiro especial que Lily guardava em seu cabelo, enquanto a mesma sentia todo o calor que aquela roupa negra guardava e o cheiro das ervas que ficavam alojadas no bico de sua máscara, mas tudo tem um fim e logo os dois perceberam o que tinha acontecido e ficaram acanhados.

Nosso jovem ficou a noite inteira ao lado de Lily conversando sobre como a vida era incerta e bela e ao mesmo tempo certa e trágica, e no final da noite, Lily adormeceu no ombro do nosso jovem que pela primeira vez em sua vida, se sentiu vivo de verdade com aquele cheiro do cabelo daquela camponesa que conseguiu colocar a vida inteira dele de ponta cabeça.

De madrugada, o jovem teve que se retirar, então colocou a cabeça de Lily sobre o travesseiro fino e duro, e passou seu dedo sobre sua testa e sobre seus lábios, seu maior desejo era sentir eles.

Então os dias foram se passando, Lily e o doutor foram ficando mais íntimos e conforme os dois iam ficando mais amigos, mais aquela química no ar se transformava em amor, e aquilo fascinava o nosso pequeno jovem que com o passar do tempo amava cada vez mais a pequena Lily.

O jovem já sabia muitas coisas sobre Lily, sobre como ela andava sobre as pedras que ficavam banhadas pelo mar que era perto de sua casa, e sobre como ela machucou sua perna uma vez enquanto estava colhendo morangos e uma cobra a picou, o que causou uma necrose em sua perna.

Lily sabia mais sobre o jovem, sabia que ele era de família rica mas isso não importava a ela, ela só queria ficar ao lado dele para que os dois passassem a eternidade juntos, ela sabia sobre como ele viera parar naquele convento, sobre como o pai dele obrigou ele a ir para lá como um “aperfeiçoamento moral e ético de doutor”, mas ela agradecia o pai dele todo o dia por ter o mandado para lá.

Passado alguns dias desde tudo isso, estava um clima pesado no convento, a chuva não havia parado a horas e o vendedor de frutas continuava falando dos poderes mágicos de seus produtos, e nosso jovem estava deitado em sua cabana pensando sobre como seria mágico se ele e Lily conseguissem uma união, e que ele seria o homem mais feliz se aquela camponesa fizesse parte da vida dele para sempre, porém naquele momento um monge adentrou a cabana bruscamente e lhe alertou:

-”Doutor! Temos uma paciente que está a beira da morte! Precisamos da sua ajuda!”

Naquele momento, o coração do doutor sofreu um congelamento instantâneo que só permitiu a ele colocar o seu uniforme e correr até lá o mais rápido possível.

Chegando lá, toda a cabana estava vazia e somente Lily estava lá, toda ensanguentada com suas feridas abertas, era o fim para ela e isso deixou o doutor profundamente triste.

Ele correu até o lado de Lily e disse:

-”O que aconteceu?! Meu deus! Por favor!

Lily quase sem forças lhe disse:

-”Não se preocupe, meu amor. Eu sei que não tenho tempo de vida mais, e quero que você saiba de algumas coisas.

O jovem se sentou ao seu lado em sua cama e ouviu atentamente a tudo:

-”Por toda a minha vida, eu vivi no meu mundo isolado numa fazenda, e eu nunca pensei que fora daquele refúgio eu encontraria algo tão especial quanto você, e eu quero que você saiba que eu estou triste de partir também, mas está escrito nas estrelas que a minha morte está próxima, mas eu quero aproveitar esses últimos momentos com você, eu quero te abraçar até que eu sinta a morte chegando ao meu lado e levando minha alma, porém eu não me assustarei quando esse momento chegar pois você está aqui comigo, e eu sei que você é meu porto seguro, você me acalmou por todo esse tempo e eu te amo por causa disso…”

O doutor sem palavras, agarrou Lily a abraçando na cama, tirando seu fôlego e lágrimas dela, porém ele estava sentindo uma agonia enorme por dentro e aquela máscara impedia ele de olhar por fora do mundo.

Então o coração de Lily foi lentamente parando de bater com força e como última coisa, Lily pediu:

-”Tire essa máscara, meu amor, eu quero ver você sem esse bico e sem essas ervas, eu quero ver você!”

O doutor começou a chorar por dentro da máscara e algumas das lágrimas saíam pelo visor o que fez com que Lily tirasse a máscara, e ficasse maravilhada com a beleza do doutor que cuidou dela por tanto tempo e que roubou o amor dela.

Então ela abriu um sorriso, e respirando com dificuldades, disse:

-”O meu amor por você é a dança da eternidade, e o meu maior desejo é o encontro de nossos lábios.”

Naquele momento, os lábios dos dois se encontraram e dançaram como no sonho do nosso jovem, mas era tudo tão real e lindo, que o doutor não aguentou tudo isso e começou a chorar, e então Lily disse:

-”Foi bom passar esse tempo com você, eu te amo! Nos veremos mais tarde.”

E deu seu último suspiro enquanto as lágrimas do doutor caíam sobre o rosto frio de Lily, e com certeza aquela foi a noite mais linda e triste de toda a vida do doutor.

E enquanto chorava, ele disse algo para o cadáver de Lily:

-”Eu não acho que o nosso amor é a dança da eternidade, porque a eternidade é muito simples para corresponder o que sinto por você, o que eu sinto por você transcende a eternidade e o tempo, e eu sempre vou te amar, independente de qual for a condição, se for no céu ou no inferno, no deserto ou na neve, ou na água ou no magma, na vida ou na morte, o meu amor por você não irá acabar.”

Então ele se surpreendeu por uma lágrima que saiu do rosto de Lily, mesmo morta ela ainda ouviu as palavras do doutor e reagiu a isso.

Alguns dias se passaram e o doutor contraiu a doença de Lily, causando a sua própria morte, mas não se esqueça, quando você ver duas estrelas no céu, lembre-se que são Lily e o doutor completando sua dança da eternidade, e que isso nunca acabará, pois a morte é o renascimento do amor.

Obrigado por ler até aqui.

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