Nostalgia é calçada.

Estava eu a caminho do trabalho. Mais um dia. Nada novo. Quase correndo, fazia o mesmo percurso de sempre. “Cara… Vou me atrasar de novo” — era só nisso que eu pensava.

Essa preocupação habitual foi interrompida quando um garotinho que caminhava à minha frente roubou minha atenção. Ele devia ter no máximo uns 6 ou 7 anos — eu realmente não sei identificar a idade das crianças. Estava com aquela que devia ser sua mãe e ao que parece, voltando da escola — ele estava feliz demais para alguém a caminho da aula.

Enquanto ela levava sua mochila, ele dividia o percurso entre poças de água no asfalto e a calçada cheia de pedras soltas que ele pulava sem medo.

De repente, um viagem no tempo: Lembrei de mim com aquela idade voltando da escola. Lembrei da minha mãe carregando minha mochila e lembrei da calçada da casa de dona Maria. Acho que dona Maria não gostava de ninguém usando sua calçada e por isso mandou construí-la de modo nada “convencional” — era mais como uma espécie de rampa bem íngreme, uns 45°, que dava no muro lateral — claramente não era para se caminhar ou sentar, aquela calçada — mas para um garoto de 6 anos ela era um obstáculo diário. Para a raiva de dona Maria eu só andava por ela — afinal, torcer meu tornozelo era a menor das minhas preocupações. E menino de 6 anos lá tem preocupação?!

Nessa rápida volta ao passado me dei conta de que crianças quase sempre procuram os “piores” caminhos para se andar. É uma espécie de desafio próprio: eu contra a trilha esburacada, contra o pedregulho, contra a linha do meio fio nas ruas. Entende?! Eu nunca me sentia satisfeito quando não conseguia atravessar, sem escorregar, aquela calçada de uns 4 metros de comprimento até o fim. E todos os dias eu tinha o mesmo combate pela frente.

E nisso de pensar na calçada de dona Maria eu acabei percebendo que não lembro de quando deixei de tentar vencê-la. Não lembro do momento em que eu simplesmente parei de apostar pequenos desafios comigo mesmo e de sorrir deles. Não lembro de quando cresci.

O garotinho à minha frente continuava seu caminho tortuoso, agora compenetrado em sua missão de não perder o equilíbrio na linha branca pintada no asfalto. E eu o imaginei daqui a uns anos, apressando o passo preocupado com o horário.

Acordei da nostalgia e atravessei a rua. Me despedindo daquela visão de mim mesmo, voltei para minha rotina.

Na esquina seguinte cheguei à avenida. Decidi me equilibrar no canteiro central por alguns passos. Tentando não abrir tanto os braços, fui até o final da linha de chegada imaginária que visualizei. Ganhei minha aposta solitária. Sorri pela vitória e pelo pensamento de “eu estou mesmo fazendo isso?!”.

Quando foi mesmo que paramos de nos divertir com as coisas simples?

Não sei. Mas decidi que vou me equilibrar novamente na calçada de Dona Maria na próxima vez que passar por lá.

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