CRÍTICA: ‘A Última Aventura é a Morte’, Cia. PeQuod

Dirigido por Miguel Vellinho, “A Última Aventura é a Morte” é um espetáculo como poucos. Misturando organicamente teatro de bonecos, teatro pós-dramático, poesia, performance, instalação, videoarte, artes visuais e uma trilha sonora original, a Cia. PeQuod proporciona uma experiência peculiarmente rica em linguagens, referências e estímulos à reflexão. A matéria prima da obra é a barbárie que se alastra pelo mundo atualmente, na esteira da intolerância e do totalitarismo. É, portanto, um espetáculo fundamental para o espectador brasileiro deste fim de 2018. E é também um espetáculo que talvez não encontre lugar para si a partir de 2019, pelo despudor de sua arte — valor cada vez mais tratado como abominação — e por sua crítica à brutalidade e à ignorância, dois atributos que, neste momento histórico, preponderam. Ao menos no Teatro III do Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro, a sensibilidade consegue sobrepujar ambos, de quarta-feira a domingo, às 19h30, até o dia 16/12.
 
Não há como dizer muito sobre “A Última Aventura é a Morte” sem incorrer no risco de enfraquecer a experiência de quem ainda não viu o espetáculo. A questão aqui não é de cuidado para evitar spoilers, pois a nova empreitada da Cia. PeQuod não é propriamente uma peça de teatro, com uma dramaturgia passível de ser aniquilada por revelações prévias. Como diz Vellinho no programa do espetáculo, porém, pode-se fazer um paralelo entre essa obra de arte contemporânea e um trem-fantasma: o espectador é exposto a uma ciranda de sons e imagens — reais e fictícias, realistas e lúdicas, objetivas ou com apelo à subjetividade, ao vivo e gravadas — que tendem a incomodar pelo teor e a sensibilizar pelo seu significado. 
 
Quando o público entrega seu ingresso à porta do Teatro III e adentra o local, já vive um estranhamento: o teatro não está mais ali, em seu aspecto físico tradicional. Os assentos foram removidos. Não há palco à vista. Está-se num salão retangular ligeiramente enevoado, ladeado por enormes telões que exibem uma contagem regressiva angustiante. Instintivamente, todos parecem buscar proteção nas paredes, enquanto observam formas humanas dependuradas no teto, metálicas, como que congeladas em seu instante final de martírio, a exemplo das pessoas petrificadas pelas cinzas do Vesúvio em Pompeia. E então começa o espetáculo.
 
Duas paredes funcionam como grandes telões, de ponta a ponta, onde é projetada o tempo inteiro a videoarte criada pelos irmãos Renato e Ricardo Vilarouca exclusivamente para o projeto, sendo que o que é exibido num telão raramente é igual ao que se vê no outro. As duas paredes restantes ocultam dois palcos, nunca revelados inteiramente, apenas em frestas ou recortes que se abrem e se fecham alternadamente. Por vezes, a ação transcorre nos dois palcos em simultaneidade, ou em duas porções distintas do mesmo palco. O público, portanto, vê-se obrigado a abandonar a segurança imaginária das paredes, sua zona de conforto, e circular pelo salão, na ânsia de apreender tudo que lhe é ofertado em 360 graus nos dois palcos e nos dois telões, que ficam um pouco acima da linha dos seus olhos, sublinhando a pequenez do espectador diante do mundo hostil que lhe é retratado. Enquanto atores, bonecos e projeções reproduzem ou reinterpretam imagens e situações icônicas dos últimos 80 anos que todos já viram no noticiário, em documentários, em fotografias ou na internet, a voz de Osmar Prado narra belamente o poema “Nota 409”, escrito pelo dramaturgo alemão Hainer Müller em seus últimos meses de vida, em 1995, com tradução do professor doutor Leonardo Munk. O texto, nunca publicado no Brasil, está reproduzido integralmente — e com esclarecedoras notas de rodapé — no programa do espetáculo, distribuído gratuitamente à entrada do teatro. Em meio a tudo isso, há ainda a onipresente trilha sonora original dos irmãos Fábio e Felipe Storino e a sempre bela luz de Renato Machado.
 
Tantos estímulos simultâneos poderiam remeter à sobrecarga de informação desconexa da atualidade, mas tudo se encaixa perfeitamente, compondo uma obra única e orgânica, com duração máxima de 45 minutos — mais do que isso seria, talvez, aflitivo demais para o público, que não encontra em “A Última Aventura é a Morte” uma fuga dos tempos sombrios que se avizinham, mas uma antessala para eles. E embora o espetáculo não use sequer uma única referência brasileira — à exceção de uma menção em homenagem ao cenógrafo Hélio Eichbauer, morto em julho –, tudo que é mostrado ali parece antever o Brasil de amanhã. O espetáculo, segundo Vellinho no texto do programa, é dedicado “a todos os povos oprimidos, aos indivíduos que foram silenciados e às minorias reprimidas”.
 
Nascida em 1999 como uma companhia de teatro de animação, com predomínio da manipulação direta de bonecos, a Cia PeQuod foi pouco a pouco se notabilizando pela mistura inteligente e experimental de linguagens e expressões artísticas, pesquisa que encontra novo ápice em “A Última Aventura é a Morte”. 

SERVIÇO
“A Última Aventura é a Morte” 
— De quarta-feira a domingo, às 19h30, no Centro Cultural Banco do Brasil — Rua Primeiro de Março, 66, Centro, Rio de Janeiro. Ingresso: R$ 30. Duração: 45 minutos. Classificação indicativa: 18 anos. Em cartaz até o dia 16/12/2018.

FICHA TÉCNICA
Realização: Cia PeQuod — Teatro de Animação. Direção e concepção geral: Miguel Vellinho. Narração: Osmar Prado. Elenco: Liliane Xavier, Mariana Fausto, Miguel Araújo, Paulo de Melo, Maksin Oliveira e Diego Diener. Cenário: Dóris Rollemberg. Bonecos: Bruno Dante. Iluminação: Renato Machado. Figurino: Kika de Medina. Direção de movimento: Bruno Cezario. Direção musical: Felipe Storino. Videografismo: Irmãos Vilarouca. Coordenação do projeto e direção de produção: Liliane Xavier e Lilian Bertin.