TEM ALGO
Tem algo não digo entre as linhas escritas
Dos diversos poemas que eu escrevo
Que são a única forma que eu encontrei
De dizer tudo aquilo que ainda precisa ser dito
Tem algo que talvez seja dito nas entrelinhas
Nos espaçamentos que se forçam entre uma palavra
E outra,
Nos suspiros não verbalizados que eu carrego
Tem algo que eu ainda não falei
Algo que talvez não seja real
Exatamente como tudo em minha vida
Nada é real
Tem algo que é o fruto claro da minha imaginação
Enlouquecida, que insiste que tudo tem um motivo
Interplanetário para se estar acontecendo
Mas nunca acontece
Tem algo que me oprime e me força a fechar os lábios
E não falar mais nada quando eu não tenho tranquilidade
Para gritar as coisas que eu queria
E eu me sento em silêncio contemplando o que seria de mim se eu gritasse
Tem algo escrito na minha pele
Como os toques dos antigos amantes
Que nunca realmente escreveram nada além do desejo raso
Na minha pele macia e imaculada
Tem algo quase que enigmático no ato
De se olhar para frente e só ver passado
Só a escuridão dos erros sem correção
Somente o que nunca foi se torna o que é
Tem algo que eu queria te falar
Falar talvez não seja o correto
Mas eu só sei falar e falar e falar
Eu não sei agir
Tem algo que se perpetua em mim como uma conta atrasada
Mas nunca atrasada o suficiente para se cortar a luz
Apenas atrasada ao ponto de sempre viver com o medo
Aquele medo que a qualquer momento algo de ruim pode acontecer
Tem algo que eu não sei explicar e talvez não deva
Eu talvez só deva aceitar que a explicação mata a arte
E eu não quero matar a arte
Eu tenho muito medo da morte dela
Tem algo que se sobrepõe a tudo que foi dito anteriormente
Mas tem algo que não é nada do que foi
E talvez eu esteja divagando
Quando eu deveria estar me concentrando em terminar o que eu começo
Tem algo que talvez seja mais do que isso
Aquilo
E nós mesmos
E eu tenho medo do que possa ser
Tem algo acontecendo agora
Em algum lugar
Atrás de portas fechadas
É só parar para observar.
