Lapso de vida nas rodovias da Itália

Ingra Barreto
Sep 6, 2018 · 3 min read

Por aquela rua estreita, o carro se deslocava numa velocidade perigosa, causava arrepios na barriga. O carro imitava a trajetória do vento. Contornávamos aquela rodovia de largura duvidosa, que mais parecia ter a distância de meu antebraço ao cotovelo. Era o carro ocupando a via e o meu antebraço esquerdo ao cotovelo, para ser mais específico. E durante o percurso, estávamos nós no banco de trás com os vinhos adquiridos na região em que paramos anteriormente. O vinho era branco e gelava entre minhas pernas, bem como refrigerava as coxas de Suzana, minha esposa.

Acontece que, estávamos em um Fiat vermelho antigo, bem do acabado e apertado como aquela estrada. A sensação era de estar atravessando o estreito de Bósforo e jornadear por aí. A rota era envolvida por ribanceiras e penhascos aterrorizantes. Adorava sentir a adrenalina correndo pelo meu corpo, adorava aquela coisa.

Cruzávamos a Itália em um carro sucateado de palhaço, migrando de vinhedo em vinhedo, saboreando o melhor de cada região. O clima temperado também era um grande querido naquela ocasião, recordo bem. Se estivesse em Brasília ou até mesmo aqui na Bahia estaria suando feito um porco, mas na Itália eu poderia estar completamente a vontade e, ainda assim apreciar o melhor do porco, em Parma. Aquele presunto era incrivelmente surreal de gostoso. Lembro também, que nesse dia pudemos esbarrar aleatoriamente com uma fábrica de queijos e compramos os melhores queijos que o dinheiro poderia financiar. Alguns de diferentes tipos, formatos, texturas e gostos variados. Fizemos a festa, até que chegamos noutro destino.

O cenário era deslumbrante, parecia até coisa de filme e, de fato era. O motorista havia comentado dentro daquele Fiat (eu não me esqueço) que ali mesmo na cidade que aportamos, um filme conhecido teria sido dirigido no início do novo milênio. Devo confessar que a sinopse era atraente. Narrava a história de uma mulher que buscava inspiração, após o termino de seu casamento. A solução encontrada? Uma temporada na Itália. Ela gostou tanto do local, que decidiu comprar uma casinha no vilarejo. O motorista também sinalizou, algo que já desconfiava, que a região tinha locações belíssimas.

Era 2013, o ano que visitei aquele lugar a primeira vez. Que sensação gostosa de revisitar na memória, lembro do cheiro das azeitonas e vinho que a cidade exalava e, como as moças eram bonitonas e altas. A Itália tinha aquele sotaque único e a comida era uma coisa de louco, saborosa é eufemismo. Visitar a Itália era sempre inspirador, um país que se comunica com os gestos e as palavras soam como deliciosos bombons de coco, eu amo as raspas de coco e leite condensado, Dio mio! Mas, sim voltando, quando cheguei na região estava acontecendo uma grande festança, daquelas com comida farta, música no alto e pessoas saltitantes pela praça. Uma coisa linda de se ver, fomos muito bem recebidos.

Era um domingo de maio, aproximadamente as quatro da tarde. O sol beijava minha face alva e da minha mulher, que impedia aquela incidência calorosa com toneladas de filtro solar e um chapéu Fedora de cor vinho, dizia ela que era Marsala, era só um nome chique para algo que eu sabia que era vinho. Bons momentos de vida plena vivi naquele Itália… E já fazem cinco anos. A vida tem um jeito curioso de nos surpreender, as vezes ela te conduz vielas charmosas e te apresenta pessoas de sotaque fascinante.

Hoje, enquanto compartilhava essas lembranças voltei no tempo e no espaço. No íntimo e no aconchego da minha memória, rejuvenesci uns dez anos, lembrei do momento que os meus sonhos ultrapassam a cidade e pertenciam ao mundo. Aquela sensação deliciosa de ser jovem novamente e apto a lutar por algo que vale apena, sabe? Viva a vida, viva a Itália, viva la dolce vita.

Ingra Barreto

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