‘Abre as pernas aí, vai!’

A situação ‘pandêmica’ da violência contra a mulher vai à internet, mostra força e coragem das mulheres em contraponto à ineficiência, ao descaso e às promessas das políticas públicas

A gota d’água para R. foi nesse momento. Ela não teve nem tempo de se defender. Foi um soco só. Direto no rosto.

Ela lembra como se fosse ontem. Sentada em um banco no Centro Cultural São Paulo, sob a noite de outono de uma terça-feira, A. M. V., de 22 anos, puxa pela memória quando ocorreu a agressão. Sem perceber, seu corpo se retrai, como que para se proteger. Suas mãos entrelaçam-se, suas pernas tremulam. Tudo ao seu redor parece hostil. Ela nem percebe. “É, dizem que sempre que toco no assunto, fico assim.”

Seus olhos verdes não se fixam em nada: olham pra baixo — sem graça –, pra cima; e, diante da luz, vê-se que estão lacrimejantes. Mas nem uma gota cai. Ela diz que superou isso e conversa abertamente sobre o assunto. Segundos depois, lembra: “Foi à tarde, entre 14h, 14h30. Acho que foi novembro de 2009. 14 de novembro, se eu não me engano”. Engana-se. Talvez isso seja um modo inconsciente de apagar o que aconteceu. Porque de acordo com o B.O. (Boletim de Ocorrência), a agressão ocorreu no dia 10 de janeiro de 2010.

Era um domingo. A. saíra para trabalhar no shopping, acompanhada do irmão. O ponto de ônibus era perto, quase na esquina. Sua tranquilidade não durou muito. Seu ex-namorado à época, R. A. C., estava esperando no ponto, junto com seu pit bull red nose. (Mais tarde, saberia por vizinhos que fazia mais de meia hora que ele estava lá.)

O irmão o viu antes dela — e tentou voltar. Fazer um caminho mais longo. Ir a pé até o metrô, não importa. Não deu tempo. Assim que os viu, R. foi para cima dos dois, como se ele fosse o animal que conduzia na coleira. Queria tirar satisfações.

“Preciso falar sério com você.”
“R., não posso agora. To indo trabalhar.”
“Não quero saber… Você me deve satisfações. Não é assim que se termina um namoro.”
“Eu não vou falar com você, agora.”

Aquilo não ficaria barato. Como assim ela não falaria com ele? Começou a empurrá-la contra a parede. Até que seu irmão mais velho intercedeu. Foi empurrado também. Inconformado com o término; começou a ficar mais agressivo.

“[Ele] começou a me empurrar diversas vezes. Colocar o dedo no meu rosto. Falando que lhe devia satisfações, e que eu estava com outra pessoa e não queria contar pra ele”, lembra A. E a discussão continuou:

“Eu vou matar quem está com você”, gritava no meio da rua para quem quisesse ouvir.

“Eu não quero mais nada com você! Não tenho mais nada com você e não vou mais voltar!”

A gota d’água para R. foi nesse momento. Ela não teve nem tempo de se defender. Foi um soco só. Direto no rosto, na altura do supercílio esquerdo.

Seus óculos, de armação lilás, voaram de seu rosto. Desnorteada e sem enxergar pela falta deles, apenas quis se abaixar e recolocá-los. O pit bull em forma de gente foi mais rápido. Pegou-os apenas para ter o prazer de estilhaçá-los no chão.

O verdadeiro cão, mais civilizado, ficou deitado durante toda a confusão, quase dormindo.

O irmão então foi pra cima dele. Desesperada, foi à esquina pedir ajuda ao pai e aos vizinhos. R. estava incontrolável. Quando voltou, seu irmão agora estava com a cabeça sangrando, azoado. A. também não percebeu na hora, mas estava com um corte de quase 3cm no supercílio. (No B.O. descrito como “lesão corporal dolosa de natureza leve. Nada mais”.)

Ela e o pai foram bater em R., defender o filho-irmão. Os vizinhos não se aproximavam por causa do cão, que a esta altura estava solto. Nesse meio tempo, duas viaturas chegaram. Uma levou o irmão de A. ao posto de saúde mais próximo, a outra conduziria o agressor; mas e o cão? O PM disse que se não tivesse lugar onde deixá-lo, não seria descartada a possibilidade de sacrificá-lo.

Demonstrando mais amor ao cão que à ex-namorada, R. se descontrola diante dos PMs:

“Eu vou matar você! Isso não vai ficar assim…”, berrava. “Eles vão matar meu cachorro, a culpa é sua! Não vou te perdoar!…”

O bicho nem se alterou durante o berreiro. Era manso, manso. A. disse que o pit bull “não tinha culpa de nada”, que R. tinha família e que podia deixar o cão com eles. Então a segunda viatura foi deixar o cão em casa e, depois, levaria R. à delegacia. A. e o pai foram direto para lá, em um carro próprio.

Esse é um caso que reflete o que mulheres e mais mulheres sofrem constantemente no Brasil e no mundo. Poucas pessoas veem, escutam, dão-lhes voz. Assédio sexual e moral, perseguições, agressões, tudo isso é colocado em dúvida quando elas vão às delegacias denunciarem o que lhes fazem ou tentam contar aos familiares. Mas parece que em um lugar — a internet — elas encontraram espaço para serem ouvidas. E gritar muito! Para que todos ouçam agora o que elas têm a dizer.

A internet como arma

((…) Quando cheguei no trecho em que atravesso um viaduto foi que aconteceu. Um homem que andava em frente virou pra trás e começou a andar na minha direção, achei a princípio que ele quisesse me assaltar, o que sinceramente, eu preferia que ele tivesse feito, pois só estava com um caderno, canetas e um passe de metrô. Ele correu na minha direção e praticamente “congelei” quando ele tocou na minha intimidade. (…) Como se não bastasse já estar apavorada dele estar espreitando, um pessoal que trabalha ali próximo ficou com piadinhas como “Vestida desse jeito esperava o quê?!”. Me senti assediada mais uma vez.(…) Relato 31.)

Esse relato (e os demais que você lerá ao longo desta reportagem) não está no fundo de um baú, ou em um diário — escondido à espera que alguém, curioso ou interessado, leia-o –, embora possa ter, por lá, começado. Ele e muitos outros estão na web.

E a quantidade deles tende a aumentar: por um lado para mostrar que o medo das mulheres para com os agressores está finalmente acabando; por outro, para expor que essa violência está aí para quem quiser ver e ouvir… Basta procurar…

Diversos blogs, sites e fanpages têm sido um mural no qual mulheres picham suas dores. A página do Facebook Cantada de Rua: Conte o seu Caso é praticamente um bebê, mas mostra a que veio. Com apenas 7 meses e alguns dias de existência; contém quase 650 relatos (que vão muito além da simples “cantada”) e 4mil seguidores. De cada três relatos (de estupros, agressões, assédios) por dia, dezoito mulheres seguem a página, solidarizando-se com as outras e tomando coragem para contar suas próprias histórias. Abrirem seus diários também…

A criadora da página é a finlandesa gaúcha Åsa Dahlström Heuser, de 56 anos. Senhora de louras madeixas, sorriso fácil e coragem ímpar; por acaso viu nas redes sociais que as mulheres se queixavam de assédio e cantadas dos homens vez por outra. Enquanto que “por um lado havia mulheres reclamando, por outro havia gente dizendo que não tinha nada demais”, lembra. “Algumas mulheres diziam que apreciavam [as cantadas], e muitos homens achavam que era frescura das mulheres. Fiquei curiosa e decidi criar a página para reunir relatos e opiniões para ter uma ideia melhor sobre o assunto.”

Era a primeira página de Facebook que Åsa criava. Nunca pensou que desse a repercussão que deu em tão pouco tempo. Os relatos que ela esperava coletar — pelo que ela lia, via, ouvia — eram, “em maior proporção”, segundo ela, de coisas positivas, como as mulheres gostavam de ser cantadas etc. Não foi isso o que ocorreu. (“Eu esperava mais relatos positivos e me surpreendi com a quase ausência deles.”)

Os relatos ficaram rapidamente mais graves. Ela então viu a responsabilidade que possuía com aquele espaço, aquele mural que era pichado diariamente. “No início eu pretendia postar só os que tivessem efetivamente relação com o tema ‘Cantada de rua’, mas percebi uma necessidade muito grande por parte das mulheres em ter algum lugar onde pudessem desabafar, e acabei aceitando postar todo tipo de relato.”

E relatos positivos, não há nenhum? “Ainda não tenho uma estatística para os tipos de relatos, mas um dado eu já tenho: os relatos positivos são pouquíssimos, talvez um por cento do total.”

Estuprada e corajosa

(Eu tinha uns 10 anos quando ele começou passando a mão nas minhas pernas, dizendo que eu estava crescendo. Tinha mania de passar a mão na minha bunda e nos meus seios. Dizia que eu estava crescendo e ficando bonita, me chamava pra ficar perto dele quando bebia pra passar a mão em mim. (…) Um dia, como é de se esperar, os avanços viraram amassos forçados, sempre com as desculpas de que eu era muito bonita e parecia muito com a minha mãe quando ela era mais nova. Um dia, depois de 1 ano aturando essa situação (aos 11 anos) fui falar com a minha mãe e dizer que incomodava. Ela se trancou no banheiro e começou a chorar, e disse que a culpa era minha por usar roupas curtas dentro de casa. Quando reclamei diretamente com ele, ele disse que fazia isso porque eu era bonita. Era um elogio. Relato 159.)

Ironicamente publicado em um site chamado Papo de Homem (PdH), Paula Abreu é uma corajosa. Seu texto “Fui estuprada” começa assim: “Na primeira

vez em que um pau me foi enfiado goela abaixo — figurativamente falando — eu tinha apenas doze anos. Doze.” E segue:

“Fui estuprada!
Voltava da escola pra casa todos os dias, de ônibus. Naquele dia não foi diferente. E, mesmo assim, foi totalmente diferente. Porque, naquele dia, sentado do meu lado, estava um senhor que achou que seria uma excelente ideia colocar o pau pra fora da calça e se exibir pra uma criança.
Aquele foi o primeiro dia em que me senti um objeto. Enojada e impotente.”

Foram 970 palavras no total, mais de 1000 comentários depois. Nele, Paula conta como, há dez anos, foi estuprada por um amigo (“Eu queria estar com ele, eu estava atraída, eu estava a fim.”) em um momento de fragilidade. “Mas, de repente, me vi forçada a uma situação de violência e agressão da qual não queria participar. (…) Dizendo, ou melhor, gritando que não, mas não tendo força suficiente para me desvencilhar de um corpo adulto muito maior e mais forte do que o meu”, desabafa no texto.

Paula afirma que o motivo dela pôr suas dores e fantasmas no papel, torná-los públicos, legíveis a milhares, milhões de pessoas, é por algo maior. “A vontade de alertar outras mulheres sobre seus direitos e mostrar aos homens os abusos que sofremos diariamente e que a maioria deles nem se dá conta.”

Não houve nenhum “sinal” durante o date (encontro) com o amigo que indicasse a violência que ela sofreria depois. (“Não houve comportamento estranho, mas meu ‘amigo’ entendeu que não era sim — como acontece em muitos casos de abuso — e aconteceu o estupro.”)

Todo esse tempo, ela guardou essa violência em si. Tentou interpretá-la, classificá-la, configurá-la. Sem sucesso. Ela não imaginou ou pensou em pedir socorro a alguém; primeiro: porque ela mesma sentia dificuldades em saber o que houve. Sofrera violência ou fora algo “comum”, um “mal entendido”? “Eu demorei dez anos para aceitar que de fato tinha sofrido um estupro.” Achava que o que o amigo estava fazendo com ela “podia ser qualquer outra coisa, desde um mal entendido até falta de noção dele”. Isso tudo “apesar de todos os meus gritos, resistência física e de todo o sangue que ficou na roupa de cama”.

Uma década represando lágrimas que nunca caíram. Paula hoje é outra mulher: “Me permiti sentir pena de mim pelo que aconteceu. Me permiti sentir raiva do meu estuprador. Me permiti chorar.”

Embora seja outra, sabe que ainda tem muito que lutar, gritar, escrever; quando questionada qual a situação cotidiana que mais demonstra essa violência do homem contra a mulher, responde: “Não tem como definir qual, o conjunto da obra é que é desgastante”. “Viver com direitos diferentes — ainda que veladamente — é péssimo, mas perceber que a grande maioria dos homens nem sequer se dá conta disso é ainda mais irritante.”

Mas ela pode se defender, responder à altura, denunciar. Será? “Se defender é muito relativo. Claro que se sofrer uma violência física, hoje, vou me defender, mas o assédio nas ruas é algo difícil de se desvencilhar. O que se espera que uma mulher faça? Responda malcriadamente a cada cantada grosseira? Se coloque na posição de ser atacada verbal ou mesmo fisicamente no meio da rua? Muito complicado querer deixar na mão da mulher o papel de ter que se defender.”

Sentir-se mulher, hoje

(Eu tinha uns 4 anos no máximo e era aniversario da minha tia, na casa dela. Certa hora eu fiquei com sono e fui dormir sozinha na cama dos meus tios, com a porta fechada. Algum tempo depois eu acordo com um cara, amigo dessa minha tia, me alisando. Mas não era carinho, eu lembro bem, ele pegou por baixo do meu vestido mas por cima da calcinha, com aquele sorriso tenso… É a lembrança mais antiga que tenho e lembro de cada detalhe. (…) Nunca tive coragem de contar isso para a minha família (…). O segundo relato aconteceu quando eu tinha mais ou menos uns 8 anos. A moça que trabalhava aqui em casa, por morar longe, dormia aqui durante a semana e ia embora sábado. Me tornei muito próxima dela, passávamos muito tempo juntas. Pouco mais de um ano depois de ela ter começado a trabalhar aqui, ela começou a ficar próxima demais de mim e certo dia, começou a me pegar e me apertar com força por cima da calça (eu não tinha corpo algum, obviamente) gemendo e me dizendo que eu era “muito gostosinha”. Fiquei assustada e saí correndo pro meu quarto, uma semana depois ela se despediu. Também nunca contei isso para a minha família. Relato 160.)

Cláudia Regina, também em um texto para o PdH, traz um relato diferente. Para fazer muito marmanjo pensar. Não se foca tanto em uma violência específica, mas em todas. Em como a mulher tem que aturar piadinhas, grosserias, elogios como “gostosa”, “que delícia”. “Agora, multiplique isso por todos os dias da minha vida”, escreve.

Seu desabafo mostra que essa violência vem de muito antes. Muito mesmo. “Tente imaginar um mundo onde, por cinco mil anos, todos os homens foram subjugados, violentados, assassinados, podados, controlados. Tente imaginar um mundo onde, por cinco mil anos, só mulheres foram cientistas, físicas, chefes de polícia, matemáticas, astronautas, médicas, advogadas, atrizes, generais. Tente imaginar um mundo onde, por cinco mil anos, nenhum representante do seu gênero esteve em destaque, na televisão, no teatro, no cinema, nas artes. Na escola, você aprende sobre a história feita pelas mulheres, a ciência feita pelas mulheres, o mundo feito pelas mulheres.”

Esse texto recebeu mais de 3200 comentários (os administradores do site “bloquearam” novos comentários porque o site não os comporta) e foi viralizado, compartilhado por mais de 1 milhão de pessoas.

Dessa violência histórica, Cláudia aponta melhorias: “Eu posso votar [só em 1932 as mulheres — casadas — puderam votar no Brasil; antes disso, em 1928, foi escolhida a primeira mulher a cargo eletivo no país, Alzira Soriano, prefeita de Lajes (RN), que não terminou o mandato; a Comissão de Poderes do Senado à época anulou todos os votos femininos daquela eleição], posso ir pras olimpíadas (até as olimpíadas do ano passado, em pleno século 21, ainda havia esportes sem torneio feminino), posso decidir me divorciar, posso ir pra universidade…” Mas lembra que ainda há muito que fazer: como lutar contra a “cultura do estupro” e leis como a da “criminalização do aborto”. “Parece que meu corpo ainda não me pertence, pois não posso andar na rua me vestindo como eu quiser e não posso decidir se continuo uma gravidez”, desabafa.

Números e notícias: muito pouco

((…) Minha mãe viajou para o interior e levou minha prima com ela. (…) Eu, como a maioria das adolescentes nessa situação, resolvi convidar (…) meu grupo de amigos pra uma festa lá em casa. Quando foi ficando de madrugada, todo mundo começou a ir embora. Exceto por uma amiga minha que já tinha pedido pra dormir lá em casa e esse carinha que deu a desculpa de que o ônibus dele não passava depois de certo horário. Então eu mostrei pra ele o quarto do meu irmão (que também tinha viajado com minha mãe) e disse que ele podia dormir lá. (…) Lembro que eu e minha amiga fomos dormir, eu na minha cama e ela na cama da minha prima. (…) eu tava tão bêbada que nem tirei a roupa que tava usando (…). A partir do momento em que eu deitei na cama eu já não lembro de mais nada. No dia seguinte, (…) eu acordei porque tava sentindo muito calor. Quando virei pro lado eu percebi que o carinha que era pra ter dormido no quarto do meu irmão, estava ali, deitado na minha cama ao meu lado. Ele estava só de cueca e eu estava sem minha calça jeans e sem calcinha. (…) Então eu acordei o carinha e perguntei o que ele tava fazendo na minha cama e ele com a maior cara de cínico respondeu que foi ao banheiro a noite e errou de porta. (…) Quando minha amiga acordou eu perguntei se ela tinha notado algo estranho durante a noite, ela disse que meio que ouviu uns gemido e algo que parecia choro, mas achou que estava sonhando e nem se preocupou. Nunca tive coragem de contar pra ela o que aconteceu. Quando eu fui fazer xixi naquela manhã, ardeu como nunca tinha ardido antes e ficou ardendo assim por uns dois dias. Eu era virgem e essa foi a única maneira que eu tive certeza que naquela noite houve penetração.(…)Relato 441.)

Não é novidade saber da cotidiana violência feminina. Estão nas pesquisas. Estão nos jornais. Eis algumas manchetes deste ano: “Turista americana estuprada oito vezes na van do terror”, “‘NYT’ [New York Times] destaca aumento de casos de estupro em locais públicos no Rio”, “Psicóloga é estuprada após aceitar ajuda de suposto mecânico em SP”, “Idosa é assaltada e estuprada na zona oeste de São Paulo”, para só ficar em alguns, todos em grandes jornais.

Mas essas notícias, da forma como são dadas, escondem algo maior, além da violência ocasional. Todas elas fazem parte de um triste mosaico. O número de agressões, assédios, homicídios, e outras violências, contra as mulheres são tão altos, que o governador de São Paulo, Geraldo Alckmin, sancionou em 14 de setembro de 2011 a Lei 14.545, na qual se determina a criação de um banco de dados contendo os índices de violência contra a mulher em todo o Estado de São Paulo.

Em 2013, 4.762 mulheres foram mortas. Uma média de 13 mortes/dia

Os números da Secretaria de Segurança Pública do Estado de São Paulo (SSP-SP) mostram que, em abril deste ano, 12.609 ocorrências foram registradas no Estado (10.936 deles foram ameaça e lesão corporal dolosa). Uma média de 420 ocorrências/dia. No mesmo mês, em 2012, foram 12.188; e, em setembro de 2011 (primeira contagem), 13.137 ocorrências. Ou seja, os números pouco, ou nada, mudaram nos últimos anos. Se o número continuar assim, até o final do ano serão mais de 150 mil ocorrências. Só no Estado de São Paulo.

Maria de Almeida da Silva Teles, a Amelinha, trabalha atualmente na Comissão da Verdade do Estado de São Paulo — Rubens Paiva; é histórica feminista e mulher. Lutou a vida inteira, junto com outras mulheres. Desde a constituinte de 1988, para que os direitos das mulheres não fossem esquecidos pela Carta Magna, até os dias de hoje, para que esses mesmos direito sejam cumpridos. Ela não se assustou com os números. Ao contrário. Eles apenas reforçam uma verdade velada. “A violência contra as mulheres é frequente ao longo da história da humanidade. Mas com o avanço do potencial bélico das nações, com o emprego de altas tecnologias belicistas, a violência, em geral, aumentou muito no Brasil e no mundo.” E diz que o aumento da violência social repercute diretamente no aumento da violência de gênero.

Dados do Mapa da Violência 2012 mostram que, entre 1980 e 2010, 91 mil mulheres foram mortas no país. Dessas mortes, 43.486 apenas de 2000 a 2010. Quase a metade. Ao longo de 30 anos houve um aumento de 217,6% de mulheres assassinadas no país.

A mesma pesquisa aponta que, em 2011, houve 13.096 relatos de violência sexual contra mulheres — praticadas, principalmente, por amigos ou desconhecidos. 63% dos casos, com mulheres de 5 a 19 anos.

E, no mesmo ano, 47.386 casos de violência física praticados, pelos pais, com mulheres de até 9 anos; e parceiros, com mulheres dos 20 aos 50 anos. Em ambas as situações as agressões ocorrem dentro da casa da vítima.

O Brasil é a 7ª nação mais perigosa para a mulher no mundo, com 4,4 mortes por 100 mil habitantes, segundo dados do IBGE, Census e Whosis, com 80 nações. Ficando à frente de países como Cazaquistão (4,3), Iraque (3,2), Quirguistão (2,0).

Números da Organização das Nações Unidas (ONU) mostram que 7 em 10 mulheres sofrerão algum tipo de violência física ou sexual ao longo da vida no mundo inteiro — a própria ONU chama essa violência de pandemia. E o Banco Mundial afirma que mulheres dos 14 aos 44 anos têm mais chances de serem estupradas do que terem câncer ou sofrerem acidente de carro.

A situação é muito mais grave do que se imagina. E, nem de longe, é “frescura” ou “conversinha de mulher”.

‘O que você fez para ele te fazer isso?’

(Demorei muito tempo para conseguir escrever isso. (…) Eu tinha seis anos. De noite todo mundo saiu, foram à igreja e me deixaram sozinha com meu avô, que estava bêbado. (…) Eu estava na cozinha, ele foi ao banheiro e me chamou. Me fez masturbá-lo. Ele começou a passar a mão pelo meu corpo, mas não passou disso. Depois desse episódio eu me lembro de algumas vezes que ele me pegou no colo (até os onze anos) e eu sempre sentia que tinha algo errado, que tinha alguma ‘maldade’ por trás. (…) Eu suspeitava de que tinha algo errado, mas não sabia de onde vinha a suspeita. Me lembrei do abuso aos doze anos, quando comecei a sentir ódio do meu avô. Contei para a minha mãe e ela não fez nada. Minha família é evangélica, muito conservadora, minha mãe me disse que isso ia destruir a família, que se eu tivesse contado na época ela teria feito algo. Três anos se passaram, até o dia que minha irmã chegou em casa, voltando da casa da minha avó, minha mãe foi dar banho nela, ela só tinha cinco anos, ela disse que estava dolorida. Minha mãe perguntou o porque, e ela contou que ele havia ‘mexido’ nela. (…) Minha mãe deu as mesmas desculpas. Ia destruir a família e etc. Não fez nada. (…) Quando minha mãe contou pra minha avó, ela não acreditou. Disse que era mentira minha e da minha irmã (…). Relato 470.)

Karina [nome fictício] era quase uma menina. Começou a namorar seu futuro marido ainda aos 18. Conheceu-o no trote da faculdade. Ele, um semestre à frente dela, também tinha 18. Hoje, ela ainda é jovem, tem 26 anos; mas vive com um filho pequeno e largou o marido. Poucos anos, uma história longa de violência. Namoraram oito meses. Nesse tempo, os sinais começavam a aparecer. Quando brigavam, escapava de seu companheiro um “puta”, “vadia”, “vagabunda”. Ofensas ditas quase que naturalmente. Sem significado e peso para quem ofende; traumático para a ofendida.

“Eu nunca quis me casar, ter filhos”, lembra. “Mesmo amando ser mãe hoje.”

Ela queria terminar a faculdade, fazer pós, morar em Portugal — ter uma vida melhor. Sair de cidadezinha donde nasceu e mora até hoje. Durante o namoro, passou a sentir-se mal com o anticoncepcional que tomava e ficou um mês sem tomá-lo. Foi o suficiente (“descuido mesmo”) para engravidar.

“Você terá que se casar”, impôs-lhe a mãe, conservadora.

A mãe não queria que sua filha fosse mãe solteira. Não queria — “ironicamente”, segundo Karina — que ela passasse pelo que a progenitora passou. “Minha mãe é mãe solteira, nem o nome do meu pai aparece no RG. Chega a ser cômico.”

Tudo foi decidido em menos de uma semana. O namorado queria casar-se, ter filhos; quando soube da gravidez, abraçou a ideia. Sequer indagou a sogra sobre o casório. “Como eu, uma pessoa tão bem informada podia ter deixado isso acontecer?”, ela se questiona. Pensou até em fazer um aborto clandestino, acabar com esse problema. Mas o amargor logo se dissipa quando se lembra do filho: “Depois que minha barriga foi crescendo e ouvi pela primeira vez o coração do meu filho, simplesmente me apaixonei por ele”.

Durante a gravidez era chamada de burra (“isso me ofende mais do que qualquer coisa até hoje”), feia, gorda (“eu estava grávida porra!”). Casaram-se e foram morar juntos. A violência verbal durou um ano de casados. Depois, vieram as agressões físicas. Puxões de cabelo, empurrões, ameaças. Quando seu filho, Lucas [fictício também], estava com três meses, ficou doente. Garganta inflamada e dores no ouvido. O marido disse que a culpa era dela do filho estar doente. A discussão começou; o choro de Lucas não cessou e a paciência do marido se esgotou. Em meio a xingos, deu-lhe um tapa na cara. “Minha reação foi dizer que eu ia para a casa da minha mãe, e chorar; o meu ex chorou, pediu perdão fez uma cena memorável, e eu, tola, cai na besteira de acreditar que aquilo não era apanhar e de perdoar, colocar a ‘família’ acima de tudo”, lembra.

Com três anos de convivência, o primeiro espancamento. O motivo era ciúme, ele achava que, por ela subir de cargo, estava tendo um caso com o chefe. Agarrou-a pelos cabelos e a jogou na parede. Esbofeteou-a e lhe apertou os braços, deixando marcas, enquanto continuava os insultos. Conseguiu empurrá-lo e ameaçou ligar para a polícia. Ele tirou-lhe o celular da mão e o triturou no chão. Antes dizer que “a mataria” se fizesse alguma coisa. “E, pelo convívio que tivemos, julguei ser verdade.”

Depois disso, vieram outras agressões e espancamentos. Toda vez que ela ameaçava sair de casa, tirava-lhe o filho dos braços e a espancava mais. Não se lembra do dia nem da hora. Dessas não. Mas lembra-se, sim, da última agressão. Do basta!

Foi antevéspera de natal. Ela comprou uma blusa nova para si. Ele, nervoso pela ousadia da mulher, rasgou a blusa com ela ainda vestindo. Tudo começou dentro do carro na presença do filho. (“A maioria das vezes Lucas estava dormindo quando acontecia algo.”) Ele quebrou outro celular dela junto com vários objetos da casa (“como de praxe”). Cansada e acuada, Karina reagiu. Foi para cima dele com uma faca. Mais discussão… E encenação, a “do melhor ator do mundo!”. Pediu perdão à mulher, que apenas se calou. “Fingi que estava tudo na mais perfeita paz, passamos as festas pela primeira vez com a minha família, e quando ele acreditou que estava tudo bem eu disse que ia embora, ele ficou sem reação!” Pegou o filho, com então 4 anos, e foi embora, morar com a mãe. Saiu com a roupa do corpo e nada mais. Era primeiro de janeiro de 2011, “nunca vou me esquecer desse dia”.

Ela já havia ido à Delegacia da Mulher denunciá-lo, fez exame no IML para as marcas e vergões, mas não deu em nada. Precisavam de uma testemunha. “Fiquei muito frustrada, porque a única pessoa que sabia era uma amiga do trabalho, que não servia como testemunha”, revolta-se. “Eu fico imaginando como haveria uma testemunha dentro da minha casa?”

Além de não ter testemunha, teve que ouvir comentários sarcásticos do policial que a atendeu. “Ele me perguntou sarcasticamente: ‘Então, você apanhou do marido? ’”. E continuou: “O que você fez para ele te fazer isso?”, “e você não fez nada?”. “Como se eu fosse culpada por apanhar daquele jeito de um homem com quase o dobro do meu peso; eu não me lembro do nome dele [policial], mas me lembro de um sorrisinho sarcástico no rosto dele.”

Sua mãe demorou a acreditar nela. No começo Karina insinuava, falava das ameaças.

“Será que ele faria isso? Ele é tão bom, trabalhador, doce…”, dizia a mãe à filha. Desacreditando nela.

E depois, vieram as marcas, que a mãe também observava, novamente descrente. “Ela achou que eu estava exagerando, e me mandou de volta para casa, afinal ‘não é assim que se desmancha uma família’, palavras dela.” Antes do basta!, Karina ia lá sozinha, desabafar e se lamentar. “Ela só me apoiou quando fui com meu filho para a casa dela e disse que estava lá para ficar.”

As vitórias (e derrotas) das políticas públicas

(Estava gravida de 7 meses e fui até Brasilia para fazer meu chá de bebe na casa da minha mãe. Moro em São Paulo. Resolvi voltar de ônibus. A viagem é de 15 horas, curtinha, eu viria dormindo o tempo todo, me sentia mais a vontade pra viajar com aquele barrigão, do que de avião. (…) Ao sair de Brasília e chegar na cidade vizinha, a primeira parada, entro um homem aparentando ter entre 40 a 45 anos e sentou em uma das cadeiras em frente a minha. Já eram uma 8hs da noite e eu estava meio sonolenta por conta dos remédios que eu estava tomando da gravidez. Nessa hora, uma menininha de uns 7 anos que estava atrás de mim começou a puxar meu cabelo. (…) Nessa hora, ele deu uma olhada em mim, levantou e sentou do meu lado. (…) Me senti extremamente invadida, levantei e fui pra cadeira da frente. PASMEM. Ele levantou e foi atrás de mim e sentou do meu lado de novo. Eu disse pra ele que queria ficar só por causa da minha barriga e voltei pra cadeira de trás e ele foi atrás de novo. Ficou dizendo que adorava uma “brabinha”. Eu resolvi ignorar, virei meio que de costas, abracei a minha barriga e encostei a cabeça no vidro. Estava muito dopada de remédios para enjoo. (…) ele foi a madrugada inteira me apalpando, tentando me abraçar, acariciar minha barriga, colocando a perna dele no meio das minhas, esfregando as partes dele em mim, dizendo que queria me ver nua “com aquele barrigão” falando obscenidades no meu ouvido. Hoje quando paro pra pensar, tenho raiva de mim por não ter gritado, pedido ajuda, feito alguma coisa. Mas na hora só sentia medo. Medo do que as pessoas iam dizer. Medo de não fazerem nada e ele ainda por cima me machucar por raiva. Medo de tudo. Chorei em silencio. (…) Quando cheguei na rodoviária, antes de descer, o cara veio me falar que me queria, que podia me dar casa, que ele tinha muito dinheiro. (…) Que mundo é esse que nem as mulheres grávidas são dignas de respeito? Relato 536.)

Você conhece a Lei 11.340, de 7 de agosto de 2006? Provavelmente por esse nome, não. Mas e Lei Maria da Penha? Pesquisa Ibope/Themis, em 2008, em parceria com o Instituto Patrícia Galvão, Dois anos de Lei Maria da Penha: o que pensa a sociedade?, mostra que em média 68% da população conhece a lei. E 83% acham que ela ajuda a combater a violência contra a mulher.

Por outro lado, outros números da mesma pesquisa mostram que ainda há muito que fazer. 42% da população dizem que as mulheres não costumam pedir ajuda ou auxílio em casos de agressão. E que os serviços de proteção mais procurados são os das Delegacias da Mulher (38%) e das comuns (19%). Enquanto que outros, como o “Serviço de Atendimento à Mulher, hospitais e postos de saúde, atendimento telefônico (180), associações e grupos de mulheres, igreja e líderes religiosos têm uma participação muito pequena na percepção dos entrevistados”. (Apesar disso, em 2012, o disque 180 — para acolhimento, denúncia e orientação às mulheres violentadas –, da Secretaria de Políticas para as Mulheres recebeu 389 mil ligações; 32% a mais que em 2011.)

Outro dado curioso: a população das regiões Norte e Centro-Oeste é a que mais conhece a Lei e o seu conteúdo (83% das pessoas); seguido da do Nordeste e Sul (77% e 79%); e, na lanterna, a do Sudeste, “sobretudo na periferia das grandes cidades”, onde apenas 55% das pessoas conhecem a lei e suas aplicações. (Região essa que, segundo o Mapa da Violência 2012, teve 1.590 (35,61%) das 4.465 mortes de mulheres, em 2010.)

As mulheres entrevistadas concordam que a Lei é um avanço dos mais importantes, mas que há detalhes importantes a serem melhorados:

“A Lei Maria da Penha foi um avanço, mas ainda precisamos de muito para se dizer que temos uma política pública forte com relação à defesa dos direitos da mulher, como um todo” (Paula Abreu);
“A lei é excelente. Foi construída pela luta feminista ao longo de quase trinta anos de ações contínuas de denuncias e de proposições. A sua aplicação, no entanto, deixa a desejar, por negligência e má vontade do poder público” (Amelinha);
“Eu diria que em termos de leis e regulamentos parece estar tudo certo ou se encaminhando, o que falta mesmo é uma mudança de mentalidade. As pessoas precisam se conscientizar do problema e levar a sério as reclamações das mulheres” (Åsa);
“A Lei Maria da Penha foi um grande avanço em relação à violência doméstica e é um importante passo em busca de justiça. Além de reformas nas nossas leis e ações afirmativas também é preciso falar sobre isso, ouvir as mulheres, colocar propagandas na televisão. É importante não só acolher vítimas de violência, mas também evitar que a violência aconteça” (Cláudia Regina).

A psicóloga, conselheira do Conselho Regional de Psicologia da 9ª Região GO/TO e membro do Centro de Valorização da Mulher Consuelo Nasser (CEVAM) Mara Suassuna, em artigo intitulado Mulher que apanha, é mulher sem vergonha!!!!, diz que as denúncias de violência cresceram “significativamente” ao mesmo tempo em que “assistimos à impunidade crescer pela falta de aparato da Polícia, a ausência de recursos humanos nas delegacias da Mulher”, ou seja “questões estruturais que impedem a aplicação da lei”.

Ela alerta que as mulheres, quando violentadas, apresentam uma série de sinais que podem ser percebidos pelos amigos e familiares: esquiva na vida social e na comunidade; alterações de sono; transtornos alimentares; baixo desempenho escolar; depressão. E que é preciso escutá-las “sem julgamentos, o que muitas vezes não ocorre”, por isso a mulher “acaba omitindo situações por medo de represálias”, e por não terem suas histórias vistas como “verdades”.

Qual, afinal, o motivo dos homens violentarem as mulheres assim? Amelinha arrisca uma indignada resposta:

“A violência contra as mulheres é aprendida. Aprende-se a ser violento, agressor, e aprende-se a ser vitima. A violência é vista como algo natural. Há aqueles setores (inclusive acadêmicos) que insistem em defender a tese de que o ser humano é violento por natureza e vai ser sempre violento”, e diz que é preciso acabar com uma ideologia que dura milênios. “Precisamos desconstruir a ideologia patriarcal, a ideia de que o homem vale mais que a mulher. Só assim vamos, de fato, construir a igualdade e fazer justiça com as mulheres.”

Segundo Mara, o perfil do agressor é tão heterogêneo quanto o das vítimas, e não há um motivo certo para as violências. Existem os que apresentam distúrbios de personalidade, outros que têm uma família violenta, apenas perpetuando o que aprendeu a vida inteira, outros cometem a violência sobre efeito de droga ou álcool.

No Brasil, estima-se que cinco mulheres são espancadas a cada 2 minutos; o parceiro (marido, namorado ou ex) é o responsável por mais de 80% dos casos reportados (fonte)

Apesar de termos, segundo a ONU, uma das três melhores legislações do mundo no enfrentamento à violência contra a mulher — junto com as da Espanha e do Chile — os números negativos aumentam mais e mais.

Números da SSP-SP mostram que, de 2010 para cá, aumentou o número de estupros à mulher/dia. De 27, há três anos; 28, há dois; 35, há um; e 37 esse ano. Um recorde. Se esse número se mantiver estável, 13. 505 mulheres serão estupradas até o final do ano. (Segundo os relatos do Cantada de Rua e outros sites, além das entrevistadas, o maior medo da mulher, hoje, não é o de ser assaltada ou morta, e sim, estuprada.)

“As delegacias funcionam mal”, diz Amelinha. “Mas a violência contra as mulheres não podem ser enfrentadas apenas com delegacia de polícia.”

Mara compartilha da mesma opinião. “Tudo isso gera insegurança e muitas vezes deboche pelos agressores, afinal, para onde mulheres em situação de violência devem recorrer, sem correr o risco de serem mortas pelos companheiros agressores?”.

Lembra-se da história da A.? No começo desta reportagem?

Quando ela foi à delegacia dar queixa do namorado pelo soco que levou, foi hostilizada pelo policial que a acompanhou. Questionando “como ela não percebeu o perfil de um psicopata” e chamando-a inclusive de “burra” algumas vezes. E pelo escrivão, que disse que “um papel não impediria ela de levar um tiro na cara”.

A delegada da 1ª Delegacia de Polícia de Defesa da Mulher (DDM-SP), localizado próximo à Praça da Sé, Celi Paulino Carlota, afirma que “atualmente os problemas quanto ao atendimento das mulheres vítimas de violência sexual foram todos sanados”. Que “todos os policiais civis” fizeram cursos de atendimento ao público e violência doméstica. E é enfática: “Se algum funcionário persistir em tal [vulgo mal] tratamento, o reclamante deverá procurar a Corregedoria da Polícia Civil [Rua da Consolação, 2333, São Paulo; tel.: 3231–5536] para que o policial seja advertido ou punido dependendo da situação”.

Em casos como os de A., a delegada Celi diz a pessoa pode dar queixa do policial militar à sua Corregedoria [Rua Alfredo Maia, 58 — Bairro da Luz — São Paulo; tel.: 3322–0190 ou Disque Corregedoria PM — Telefone: 0800–7706190], Ouvidoria ou Disque Denúncia (181). O mesmo vale para qualquer outro funcionário que trabalhe na delegacia de Polícia.

E quanto àquelas cantadas, mulheres; dependendo do que é dito, é crime, sim. Pode ser categorizado como importunação ofensiva ao pudor e/ou perturbação da tranquilidade; injúria, difamação ou ameaça.

Soluções e esperanças

((…) Certa vez eu fui agarrada na rua, comecei a gritar e o sujeito saiu correndo, liguei para a polícia e eles me perguntaram: Mas e ai ele te estuprou? e eu disse não, mas ele me agarrou? — e a polícia — sinto muito, mas não posso fazer nada se não houve coito (…) cheguei em casa no dia e por mais que eu tomasse vários banhos e me esfregasse a sensação de ser tocada parecia não passar é uma mistura de nojo com ódio. Relato 583.)

Em Bruxelas, na Bélgica, hoje, “cantada” leva multa. Um documentário chamado Femme de la Rue (A mulher da rua), mostra uma estudante belga que, durante meses, grava os insultos que ouvia dos homens na rua. O filme gerou tanta indignação nos belgas, que a prefeitura de cidade informou que os “impropérios verbais na rua” renderão multa que varia de 75 a 250 euros (R$221,25 a R$737,50 respectivamente).

No Brasil também há leis que, de certa forma, ajudam as mulheres que querem se defender dos abusos masculinos.

  • A Lei 12.650, de 17 de maio de 2012, chamada de Lei Joanna Maranhão, altera a contagem de prescrição (20 anos) de crimes de estupro cometidos contra menores para que possam ser contados apenas a partir de quando a vítima fizer 18 anos, “salvo se a ação penal tiver já iniciado em data anterior”. Essa lei é importante porque, como mostram várias pesquisas, os abusadores, muitas vezes, moram com as vítimas na mesma casa ou tem contato próximo a elas. Aos 18, independentes diante da lei, elas têm mais chances de denunciar os abusos sem se sentirem acuadas. O nome da lei se deve à nadadora pernambucana que, em 2008, revelou ter sido abusada na infância pelo treinador.
  • O governador Geraldo Alckmin, este ano, pretende mapear todos os casos de estupro do Estado para traçar o perfil e o motivo desses atos. O mapeamento será feito em parceria com o Conselho Estadual da Condição Feminina, ligado à Casa Civil da gestão do governador, junto com a SSP-SP.
  • Até 2009, havia diferenças legais entre estupro (penetração vaginal) e atentado violento ao pudor (sexo oral, anal etc.), mas hoje ambos os crimes são categorizadas como estupro (crime hediondo, de punições mais severas), graças a Lei 12.015 de 7 de agosto de 2009, revogando o artigo 17 do Código Penal (tipificação do atentado violento ao pudor).

E a internet mostra-se uma arma para quem quer denunciar as violências, mas também pode ser uma arma contra as mulheres também.

A estudante J. A. S., de 23 anos, moradora de Porto Alegre (RS) diz que “a internet é via de mão dupla. Por um lado dá voz às mulheres, que expõe seus problemas e se unem para ajudarem umas as outras”, mas, por outro “vemos casos de ex-namorados que expõem ex-namoradas com fotos íntimas na internet, lançando-as em uma ‘fogueira moral’, tendo suas intimidades circulando na internet”.

Pensando nisso, o deputado federal João Arruda (PMDM-PR), propõem o Projeto de Lei (PL) 5555/13 que atualiza a Lei Maria da Penha “criando mecanismos para o combate a condutas ofensivas contra a mulher na internet ou outros meios de propagação de informação”. Ou seja, se um homem expuser uma mulher à situação degradante na internet através de fotos, vídeos ou áudios íntimos; será punido de acordo com a Lei Maria da Penha também. Se aprovada, é mais uma garantia de que a mulher será protegida dentro e fora do mundo virtual. O PL ainda não foi ao plenário para votação.

Esse PL vem, coincidentemente, pouco depois do Facebook admitir, dia 28 de maio, que falta supervisão para inibir conteúdos que incitem violência contra a mulher na rede social. A resposta veio após vários grupos feministas, como a The Everyday Sexism Project e Womem Action & The Media, enviarem carta aberta à direção do Facebook cobrando medidas mais severas contra comportamentos agressivos às mulheres. Por exemplo, páginas como Estuprar com violência sua amiga só para rir, Estuprar a sua namorada, e muitas, muitas mais, Encoxadas fazer dia dia em SP, além de fotos mostrando mulheres feridas, violentadas ou em situação íntima.

Åsa é esperançosa. A página Cantada de Rua está ganhando tanto espaço que, em breve, virará um site. “Não imaginava na época, e ainda me surpreende, as dimensões que tomou. Depois que o site for ao ar e conseguirmos expandir mais o assunto, ele deixa de ser um projeto pessoal e passa a ser uma iniciativa de toda uma equipe. Isso me deixa muito feliz e agradecida por haver tanta gente que acolheu a ideia e se ofereceu para colaborar.” Ela também vê isso como um legado para o futuro. “E também me deixa tranquila quanto ao futuro do projeto; ele agora não depende só de mim e, se for necessário no futuro, pode evoluir sem mim.”

Luta longe do fim…

((…) Tinha aproximadamente 14 anos, saí da escola e passei por um caminho que não costumava tomar. Estava indo toda feliz na minha bike, quando um rapaz de uns 17 anos, que estava no canto de um prédio, assoviou pra mim e se virou, já se masturbando. Eu acelerei a pedalada e um pouco à frente encontrei um homem descarregando um caminhão de bebidas, e desesperada gritei “Moço, me ajuda, que um rapaz ali mexeu comigo, mostrou tudo!”. O cara simplesmente me disse “Ué, chama a polícia” e continuou o trabalho dele. Fiquei sem graça, e até achei que exagerei na reação. (…) Hoje penso o porquê do homem pra quem pedi ajuda não ter esboçado o menor espanto com meu desespero: será que a cultura machista do estupro está tão arraigada que acham normal uma menina de 14 ser submetida a esse tipo de assédio? (…) Se tivesse acontecido algo mais grave comigo naquela ocasião, certamente alguém me culparia, dizendo que eu estava numa rua deserta, que estava sozinha, que tinha o corpo bonito demais… Até quando vamos ter que suportar isso? Relato 611.)

Embora haja leis mais fortes no Brasil, a aplicação dessas ainda é um problema, um gargalo para a impunidade. Se não for isso. Qual o motivo de todos os relatos lidos até aqui terem sido feitos sob o anonimato? Por que as vítimas entrevistadas, mesmo longe dos agressores, não querem ser identificadas, com exceção de uma e outra?

A CPI da Violência contra a Mulher, de Curitiba, em 2011, mostrou que, dos 2222 casos registrados de violência, 10 viraram processos e foram concluídos — houve apenas 2 condenações.

A. não mora mais na mesma casa. Mudou-se para outra cidade, por segurança. Foi feito um acordo entre A. e R. baseado na transação penal — em crimes de baixo potencial ofensivo, menor que 2 anos de pena, a defesa e a acusação podem fazer um acordo para que o processo não prossiga — para que ele, ao invés de reembolsá-la pelo óculos quebrado (R$350) pagasse cinco meses de cestas básicas a instituições de caridade. Foi feita uma medida protetiva à A., e R. não pode segui-la, abordar a ela ou a seus parentes, por 5 anos, correndo o risco de ser preso imediatamente.

Já se passaram três anos. A. volta ao antigo bairro uma ou duas vezes por mês, com cautela, para não cruzar com ele. Nenhum amigo dela sabe, ao certo, onde ela mora.

Em abril desse ano, uma amiga de A. a informou que ele passou em frente ao prédio dela “visivelmente alterado”. Ficou lá por 15 minutos mais ou menos, tocando o interfone da ex-namorada e resmungando coisas como “Ela vai ver”, “Eu vou bater nela”, “Ela não me escapa”.

Ao falar dele, ela ainda abaixa a cabeça, entrelaça as mãos. Os olhos ainda brilham: “Ele é uma pessoa muito vingativa. Eu tenho receio dele retornar”.

OBS: Essa reportagem foi escrita originalmente em 2013. Então alguns dados podem estar desatualizados. Mas eles não mudaram muito de “lá” para “cá”. Basta perguntar às mulheres, ou, se quiser, ver o Mapa da Violência 2015–4.762 mulheres foram mortas em 2013, 4,8 por 100 mil; ou, se preferir, mais de 100 mil mulheres entre 1980–2013 (último dado da pesquisa). Outra pesquisa excelente é o Dossiê Violência Contra as Mulheres da Agência Patrícia Galvão.

Texto por Victor Hugo Bin (https://medium.com/@victorhugobin)

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