Dia do Trabalhador • Desafios diários de um eletricista.

Para que a energia elétrica chegue com qualidade na residência de milhares de catarinenses, a dedicação dos mais de três mil empregados da Celesc é essencial: são profissionais que se empenham nas mais diversas atividades, desde o planejamento e operação da rede de energia à gestão e atendimento de clientes.

Com a proximidade do Dia do Trabalhador, compartilhamos a seguir o relato de um desses empregados, que faz parte de uma classe muito importante para a Celesc, a dos eletricistas. Rodrigo Kobs trabalha em Mondaí, no Oeste do estado, e descreve em seu depoimento os desafios para restabelecer a energia em um dia de temporal. As fotos também são de autoria do celesquiano.

Um dia de temporal
Por Rodrigo Kobs, eletricista da Celesc em Mondaí

“Você vê as nuvens escuras, raios e ventos fortes. Qual sua reação? Fechar a casa, guardar o carro, mandar os filhos saírem do quintal? Essa é resposta natural das pessoas, proteger-se do temporal em um local seguro. Mas a sensação de segurança, às vezes, é interrompida pelo escuro: todos estão dentro de casa e, de repente, a luz pisca uma, duas vezes e, na terceira piscada, ela cai, tudo é escuridão. Fica apenas o barulho do vento, da chuva e dos raios que clareiam o céu por alguns segundos. Você acende uma vela para iluminar a sala, queima um ramo bento e reza um Pai Nosso para pedir proteção.

Do outro lado estamos nós, eletricistas de distribuição, que vemos nas nuvens a premissa de muito trabalho. Em vez de guardar o carro, tiramos ele da garagem, em vez de recolher as roupas, colocamos nosso uniforme. Saímos de casa e deixamos nossa família; eles já estão acostumados com temporais. A esposa traz um lanche que preparou com todo amor do mundo, pois sabe que a noite será longa e, depois de um beijo na testa, fala “tome cuidado e volte pra casa!”. Então saímos com um sorriso no rosto, pois temos muitos motivos para voltar.

Embora a energia pareça ser algo mágico, o motivo de você ficar sem luz não é fruto do destino ou falta de sorte. Não é um feitiço que fará ela retornar. Eletricidade é pura física e o motivo de você ficar sem luz geralmente está relacionado à terceira lei de Newton, “ação e reação”. Por exemplo, a ação do seu vizinho plantar uma árvore perto da rede (por mais absurdo que pareça, é muito frequente) provoca uma reação, que é a queda da planta sobre a rede de alta tensão de meros 23mil volts em um dia de temporal, causando curto-circuito. Em seguida, vem outra reação: um dispositivo de proteção começa a atuar, fazendo sua luz piscar, uma, duas e três vezes, então, por medida de segurança, esse equipamento interrompe o fornecimento de energia, tudo fica escuro e, da sua janela, você enxerga o “show de fogos”, assustado.

Agora os eletricistas têm que agir para consertar o problema o quanto antes, debaixo de chuva, afinal, você precisa da energia para iluminar a sua casa. E, sem bola de cristal para localizar a árvore do seu vizinho que causou o defeito, começa uma caçada, poste a poste, até encontrá-la. Com a ajuda das pessoas que ouviram o barulho, acabam localizando-a.

A chuva não para, os raios continuam a riscar o céu. Você vê a caminhonete da Celesc chegando e dois homens com capas de chuva amarela saem do carro. Encharcados pela chuva, orientam-se apenas pela luz do capacete e, enquanto um dos eletricistas fala pelo rádio, o outro coloca cones no chão, evitando que alguém se aproxime e sofra um acidente. Em seguida, vão embora e você pensa, já aborrecido, “Nossa, é apenas uma árvore! Por que eles não tiram logo ela de cima da rede?”

Quando acontece um acidente desses, muitas vezes os cabos ficam partidos, e os raios podem continuar acertando a rede elétrica, que é toda interligada. Por isso, um raio pode atingir uma parte da rede lá longe, e essa descarga elétrica é transportada pelos fios de energia até o local onde estamos trabalhando. Então, é preciso desligar esse trecho de rede antes de fazer os reparos necessários. Ou seja, é preciso “abrir a chave” daquele trecho, isolando-o do restante do circuito e garantindo que ali não passará energia alguma. Esse processo é feito remotamente, pelos profissionais da empresa que cuidam da operação do sistema a distância.

Feito isso, logo os eletricistas estão de volta, vestidos de sua armadura de guerra, luvas grossas de borracha revestidas de couro, capacetes com lanternas, cinto de segurança e talabarte. Um deles sobe no poste enquanto o outro fica no chão, cortando as árvores que ainda oferecem risco, e a chuva não cessa, mas eles continuam lá, mexendo nos fios que poucos minutos atrás você viu pegar fogo. Além do barulho do temporal, tem o barulho da motosserra, da foice, da catraca puxando o cabo e das vozes no rádio de comunicação.

Em alguns minutos, está tudo pronto, feito em velocidade e técnica que parecem ensaiadas. No rádio, o comando final: “Pode fechar, câmbio”. Como num passe de mágica, sua casa volta a ser iluminada, sua geladeira e sua TV voltam a funcionar e você pode tomar seu banho quente. Por outro lado, a nossa noite está apenas começando, pois não foi apenas seu vizinho que resolveu plantar árvores perto da rede, muitas outras provavelmente caíram sobre a fiação, muitos outros eucaliptos soltam suas cascas nos fios, sem esquecer dos raios, que causam estragos tão grandes como os provocados pelas árvores.

Noites assim são frequentes na nossa profissão. Estou há pouco tempo na empresa, completo três anos em agosto, mas, nesse período, já passei muitas madrugadas no meio do mato cortando árvores e subindo em postes; já saí de casa às quatro da manhã e voltei às onze da noite sem almoçar e, às 7h da manhã seguinte estava de volta ao trabalho; já passei Natal, Carnaval, Páscoa e Réveillon em cima de um poste; já faltei na minha própria festa de aniversário; já almocei bergamotas e laranjas; já cruzei por rios transbordados; já atolei, fiquei na estrada por pneu furado e problemas mecânicos. Já fui xingado pela demora; ouvi várias palavras de que não gostei, criticado pela forma que cortei as árvores, pelo tempo que demorei a atender, até pelo preço da energia tive que ouvir reclamações.

No início, até ficava chateado, queria atender todo mundo o mais rápido possível, tentava justificar o preço da energia, mas, com o tempo e vendo os acidentes que a energia pode causar por pressa ou estresse de trabalho, ouvindo relatos sobre colegas que falecerampor pular procedimentos de segurança, resolvi fazer o melhor possível da melhor forma possível.

Tenho um motivo para voltar para casa, pois minha família me espera. Todas as vezes que alguém fica bravo conosco, tento me lembrar de um atendimento que fiz em uma semana de temporal: um senhor, morador de uma casa de madeira velha, sem pintura e com frestas largas na parede, estava há pelo menos dois dias sem luz. Em vez de nos xingar — com uma certa razão — pela nossa demora, ele foi contra tudo que eu esperava no dia e nos disse “muito obrigado”, oferecendo um pedaço de bolo. Fiquei em dúvida se poderia aceitar ou não, mas não queria negar a gentileza e, além de tudo, eu estava faminto! Então, aceitei. Foi o melhor bolo de milho que comi, não sei se foi a fome, o tempero ou a sensação de poder ajudar alguém, por uma coisa que faço com muito orgulho e que pretendo fazer por muitos anos ainda”.

Via http://novoportal.celesc.com.br

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