“É possível fugir do roteiro do jornalismo fácil” — entrevista com André Fran, apresentador do Não Conta Lá em Casa

Por Ivan Bomfim

O jornalista, publicitário e documentarista André Fran é um dos rostos à frente do programa Não Conta Lá em Casa, um misto de série documental jornalística e reality show transmitido pelo canal Multishow. Em oito temporadas (estreou em 2009), Fran e equipe — formada atualmente por Felipe Melo (Ufo) e Michel Coeli — estiveram em países que, geralmente, não se encontram entre as principais opções turísticas, como nações envolvidas em questões militares ou problemas ambientais (o que explica o nome da atração).

André Fran (fonte: blog Avianca)

A intenção de lançar um olhar diferente sobre terras, povos e questões motiva Fran na realização do Não Conta Lá em Casa e também do Que Mundo É Esse?, que estreou no ano passado e vai ao ar pela GloboNews. Nessa entrevista, ele fala sobre o que aprendeu ao longo das muitas viagens que fez com o programa e de temas como a dificuldade do jornalismo tradicional abordar questões como a dos refugiados na Europa.

INTERNACIONALISMO: O Não Conta Lá em Casa está em sua oitava temporada. Em boa parte dos programas, vocês estiveram em locais considerados perigosos, seja por questões militares ou ambientais. Como é o processo de produção dos programas? Quais as formas de entrar em contato com as fontes em países fechados como Coreia do Norte, por exemplo?

ANDRÉ FRAN: O programa foi criado por nós mesmos e por nosso interesse por temas geopolíticos, cultura, história…. Então, acaba que o processo de escolha dos destinos e pautas é muito natural. São assuntos que sempre estiveram presentes em nossas conversas. A única diferença é que agora eles passam a ser analisados sob o ponto de vista da potência de virarem pautas para os programas Não Conta Lá em Casa e Que Mundo É Esse? (GloboNews). O caso da Coreia do Norte foi muito específico pois não havia como entrar em contato com ninguém no local e sequer seguir um roteiro que não fosse o oficial, mas isso mesmo já diz muito sobre a história que contamos dessa viagem. Em outros locais sempre conseguimos um contato local não-oficial, não-jornalista que sempre faz toda a diferença ao nos ajudar a traçar um perfil fiel e verdadeiro de sua terra natal.

INT: Aproveitando a questão: a última temporada do programa se concentrou na situação dos refugiados. Como foi realizar esses episódios?

Foto publicada no Facebook oficial do Não Conta Lá em Casa

AF: O choque de realidade entre o que víamos e o que era passado na mídia foi impressionante. Enquanto todos temiam terroristas e membros do ISIS infiltrados nós nos deparávamos com fileiras e mais fileiras de imigrantes de altíssimo nível cultural e até condição financeira. Pessoas como eu e você fugindo do desespero da guerra em busca de um futuro de paz na Europa. Pouco se sabe também que o contingente de refugiados que chega a Europa é apenas 5% do número total de refugiados, a grande maioria segue pra Turquia, Jordânia e até Iraque. Foi impressionante também perceber como as grandes organizações humanitárias não estão ajudando eficientemente essa multidão de refugiados que chega de forma precária à Europa. Quase sempre, abnegados voluntários tinham que fazer o papel da ONU, Médicos Sem Fronteiras, ACNUR…

INT: Nessas oito temporadas, vocês estiveram em países como Myanmar, Irã, Cuba, Haiti, Rússia, Japão pós-terremoto e tsunami, Ucrânia… quais as viagens mais marcantes para você?

AF: Juro que não estou mentindo ao dizer que todas as viagens e destinos me impactaram de alguma maneira. Seja o Irã pelo lado cultural, Tuvalu pelas paisagens incríveis, o Japão pelas tradições…

INT: Onde vocês encontraram mais problemas para realizar as gravações?

AF: A Coreia do Norte foi um país que, pelas limitações impostas pela agência de turismo, só conseguimos realizar com equipamento amador e filmando as escondidas. Mas, no fim das contas, isso acaba repassando na edição e se tornando parte do perfil que mostramos da viagem e do país.

INT: Como a sua formação como jornalista impactou na formulação do Não Conta Lá em Casa e do Que Mundo É Esse?

AF: Eu costumo dizer que eu fui moldando minha faculdade de jornalismo de acordo com meus interesses pessoais. Minhas experiências profissionais em publicidade e jornalismo tradicional só serviram para confirmar que não era o que eu queria para minha vida. Mas, sim, o interesse e necessidade de pesquisa, informação etc. Tudo isso estava presente desde aquela época e ainda me é muito útil hoje em dia, mesmo que com ferramentas cada vez mais diferentes.

INT: Como jornalista, você acredita na possibilidade de uma cobertura noticiosa mundial diferente? Como evitar os estereótipos dentro do curto tempo com que o jornalismo aborda os assuntos mundiais?

AF: Acho que a abordagem é fundamental. Claro que o tempo curto que o jornalismo aborda as questões influencia, e nós mesmos não poderíamos abordar tantas questões se dedicássemos um tempo muito extenso a cada uma delas. Nossa visão acaba sendo um retrato de um local ou período. Mas, ainda assim, acho que é possível fugir do roteiro do jornalismo fácil, que recorre a fixers e mostra sempre uma visão dissecada e mastigada dos fatos. Ir de peito aberto, entrar em contato direto com as questões abordadas e se interessar de verdade pelas pautas tratadas pode fazer toda diferença em um relato. E talvez esse seja o grande diferencial entre os projetos da BASE#1 Filmes e demais agências ou veículos de notícias tradicionais.

INT: Em muitos episódios, vemos discussões entre o grupo sobre as questões que vocês estão abordando (uma das discordâncias que mais me lembro entre vocês foi na viagem a Teerã). Você acha que esse tipo de situação dá ao programa uma perspectiva ainda mais abrangente da ideia da alteridade?

AF: Acho que sim. Nossa proposta não é ser um reality show insosso ou um frio relato jornalístico. Não nos furtamos em emitir nossas opiniões que, quase sempre, não batem. Fazemos questão de mostrar os dois lados de todas as histórias que conhecemos, mas também opinamos constantemente sobre o que estamos vendo. E deixamos que os espectadores tirarem suas conclusões.

INT: Nessa jornada de oito temporadas, você conseguiu superar algum estereótipo que identificava ter?

AF: Tento seguir a máxima de Sócrates - “só sei que nada sei” - e me despir de todos os pré-conceitos antes de seguir para algum destino. Quase sempre, em algum campo, tenho algumas concepções que caem por terra. A primeira delas foi ir para o Irã temendo extremistas, polícia religiosa, caras fechadas e pouca segurança, e me deparar com um dos povos mais amáveis, aculturados que já conheci. E um lugar extremamente encantador e seguro para se viajar.

INT: Quais as ideias para as novas temporadas? O que vocês ainda não abordaram e têm interesse em enfocar?

AF: Uma pauta que sempre levanto é olhara para nossos vizinhos desconhecidos. Países como Suriname, Guiana… que muitos pensam estar na África ou Ásia mas no entanto estão aqui do nosso lado na América do Sul e pouco se sabe a respeito deles. São ditaduras, monarquias, como é a geografia, e a cultura local, que língua se fala lá?…

INT: Partindo da afirmação dos próximos planos, por que você acha que se sabe tão pouco dos nossos vizinhos no continente?

AF: Eu até sei. Mas por conta da profissão e interesse específico nesse tema. Mas tenho ciência que o brasileiro (ou argentino, uruguaio…) não sabe. Não há tantos atrativos, beleza natural, mas não sei dizer se seria somente por isso. E talvez aí mesmo esteja o ponto de partida interessante para essa descoberta.

INT: Vocês estiveram na COP 15, em Copenhague, e depois foram a Tuvalu conhecer os problemas enfrentados pelo país decorrentes das alterações climáticas, e no último mês de dezembro terminou a COP 21, em Paris. Você acompanhou pela imprensa o evento? Como você analisa a cobertura internacional sobre as mudanças climáticas?

AF: Acompanhei de leve. Na COP15 percebi que há uma enormidade de ações, ideias e grupos e, torno do encontro principal de grandes líderes e onde estão e saem as propostas mais eficientes e úteis para nosso futuro climático. Em relação a cobertura, percebi também que a imprensa costuma cobrir as reuniões e decisões dos grandes líderes, de onde saem muitas promessas e pouco comprometimento efetivo.

INT: Algum lugar ou temática do Brasil poderia ser pauta do programa? Já pensaram sobre isso?

André Fran, Felipe Coeli e UFO no lançamento do Que Mundo É Esse? (fonte: ZH)

AF: Acho que sim. Para o Que Mundo É Esse?, que tem um foco menos em destinos e mais em situações em qualquer lugar do mundo, com certeza. Várias das grandes questões da humanidade podem ser analisadas ou relativizadas aqui no Brasil, um país de extensões continentais.

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