“Os olhos do mundo estão voltados para a Rússia” — uma entrevista com Sandro Fernandes, o único correspondente brasileiro em Moscou
O único jornalista brasileiro permanente na Rússia queria ser jornalista desde criança, mas só foi perceber que tinha se tornado um há pouco tempo, segundo o próprio. “Apenas em 2011 decidi me concentrar exclusivamente no jornalismo”, conta Sandro Fernandes. Carioca do bairro de Campo Grande, filho de um economista e uma contadora, Fernandes morou em Londres, Madri, queria ir para a Síria mas acabou parando em Moscou. E já são quase sete anos cobrindo os acontecimentos na terra de Vladimir Putin. Mas o jornalista também atuou em outros países na Europa e África, noticiando o problema dos refugiados e o início da Primavera Árabe no Egito, entre outros trabalhos.
Nesta primeira parte da entrevista feita via skype, ele conta sua trajetória e discute temas que mobilizam a atenção mundial, além de explicar como é a vida de um jornalista na Rússia.
INTERNACIONALISMO: Como foi sua trajetória até chegar a correspondente em Moscou?


SANDRO FERNANDES: Sou carioca de Campo Grande, filho de um economista e uma contadora. Não sei por que, mas desde pequeno queria ser jornalista. Quando fazia jornalismo na UERJ, acabei indo para Londres. Depois, voltei para o Brasil, mas queria retornar para a Europa. Antes de me formar, fui viver em Madri, na Espanha, onde completei a faculdade iniciada no Rio [Fernandes se graduou pela Universidad Complutense de Madrid]. Fui me virando como professor de inglês na Espanha, mas depois comecei a fazer freelas para a edição espanhola do Brazilian News, jornal da comunidade brasileira editado em Londres.
Eu planejava ir para a Síria, mas acabei vindo para Moscou, em novembro de 2009, por razões pessoais, com um business visa, visto que muitos turistas que querem ficar mais tempo solicitam. Nesse meio tempo, fui convidado por um amigo para fazer colaborações para o site Opera Mundi. A última jornalista credenciada em Moscou tinha sido a Vivian Oswald, do jornal O Globo.
Eu tive sorte porque a Rússia começou a chamar cada vez mais atenção, por diversos temas. A Rússia sempre foi importante, obviamente, mas nesses últimos três anos ela entrou no centro da atenção mundial. começou a entrar na pauta mundial, tudo começou a acontecer aqui. Entre 2009 e 2010, começou a situação no Egito, e eu queria ir lá e ver o que estava acontecendo. Fui e entrei em contato com editores, dizendo “estou no Cairo. Vocês querem alguma coisa daqui?”. E foi lá também que conheci, pela primeira vez, correspondentes brasileiros. Em 2011, começou a situação na Síria, que teve sempre atenção aqui pelos interesses russos lá. Em 2012, o assunto principal foram as leis homofóbicas aprovadas no país, foi um assunto que dominou… na mesma época, o interesse pelo Brasil aumentou bastante, por causa dos BRICS. Em 2014, a grande questão foi a Ucrânia. Depois de um mês e meio em Donetsk, resolvi que seria correspondente em tempo integral, fazendo trabalhos para a GloboNews, Época, Opera Mundi, Radio France, me dedicar só a isso.
INT: Quais você destacaria como suas principais coberturas nesse tempo?
SF: Sem dúvida Egito, que ainda estava começando a situação [da Primavera Árabe, em 2011]. A da Ucrânia, quando fiquei um mês e meio em Donestk. A reeleição de Putin em 2012 foi uma época movimentada também, havia uma agressividade muito grande com a oposição. Eu fazia TV e realizava entrevistas com personagens da oposição — a chance de ter problemas era enorme. Minha primeira entrevista na GloboNews foi com o Boris Nemtsov, opositor que foi assassinado em fevereiro deste ano, em uma ponte em frente ao Kremlin. Ninguém sabe até hoje como ele foi morto. Esse local é superseguro, sempre que preciso fazer alguma matéria por lá, em cinco segundos tem policial me pedindo documentos. Mas só chegaram ao local dez minutos depois que ele assassinado. Muito estranho. Mas enfim, coisas da Rússia.
Foi histórico o protesto da oposição, porque desde o final da União Soviética não tinha tanta gente protestando nas ruas. 150 mil pessoas, numa temperatura de -20 graus. Claro, uma coisa muito “classe média Moscou”. Mas foi uma cobertura que eu gostei muito de fazer. Também teve a crise econômica, assunto que me interessa por eu gostar de economia.
INT: Essa crise da moeda teve pouca repercussão na imprensa brasileira, acabou saindo rápido da pauta aqui…
SF: Pra gente não foi rápido. E está até hoje. Nos primeiros cinco anos que morei na Rússia, um euro variou entre 40 e 44 rublos (cerca de 10%). Eu lembro que fiz uma matéria quando o euro foi a 50 rublos, o que assustou muita gente. Em um dia, o euro foi a 80 rublos, e à uma da manhã, o Banco Central aumentou a taxa de juros de 10% para 17%. Chegou a bater 110 rublos nas casas de câmbio, mas agora está estabilizado em 70 rublos, mais ou menos. Interessante que a mídia russa coloca que a moeda do país foi a que mais se valorizou no ano passado, mas omite o fato de que ela tinha tido uma enorme baixa. Na realidade, houve recuperação parcial do valor.
A cobertura dos refugiados também foi muito marcante. Eu decidi ir sem avisar nenhum editor, eu queria ver o que estava acontecendo. Liguei para alguns editores e comecei a fazer colaborações.
INT: E como é ser um jornalista estrangeiro na Rússia? Em geral, há uma ideia de que a situação da imprensa é complicada no país.
SF: O principal problema jornalístico na Rússia não é com o jornalista estrangeiro, mas com o local. O Kremlin está muito preocupado com o que os russos pensam, mas os russos de oposição não vão mudar de opinião com o que sai na imprensa. O governo se importa é com o “russo médio”, aquele que assiste televisão, basicamente. Das três emissoras de TV que cobrem todo o território nacional, duas são estatais e uma é da Gazprom [empresa de energia pública de capital misto, com participação minoritária de capital alemão], que é tipo a Petrobras russa, é estatal. Como em qualquer lugar, Brasil, EUA, resto da Europa, a televisão é superimportante para a constituição do que as pessoas pensam. Eu notei uma diferença gigantesca quando eu estive no Brasil durante alguns meses, durante o período da guerra na Ucrânia. Acompanhava à distância a publicidade do governo sobre o que estava acontecendo lá. Quando voltei a Moscou e encontrei um amigo que não tinha inclinações nacionalistas dizendo “a Crimeia é nossa!”, você pensa “nossa, a propaganda realmente está funcionando”. E agora, em seis anos aqui, eu vejo pela segunda vez esse tipo de coisa acontecendo nessa situação com a Síria e Turquia, que acabou de acontecer…
INT: É muita coisa, é uma torrente de acontecimentos…
SF: E isso só aumenta a popularidade de Putin. Ela bateu em 89%, é altíssima. 89%! Algumas pessoas dizem que isso é falso, e eu discordo. Ao falar com as pessoas, você vê que isso não é invenção. Se eles aumentam essa contagem, aumentam muito pouco. Quando você vê TV, você vê tanto a figura de Putin que depois repetir “viva Putin!” (risos).
O que o jornalista estrangeiro publica não importa muito pro Kremlin. Já houve resposta a jornalistas, acusações de espionagem, mas não há perseguição por críticas. Os jornalistas de fala inglesa daqui criticam diariamente o Putin. Agora, com o problema na Turquia, por exemplo. Eu não sou pró-Kremlin nem anti-Kremlin, mas foi absurdo o que a Turquia fez. Mas os colegas anglo-saxões estão dizendo “olha que absurdo, agora o Putin está criticando o Erdogan!” [Recep Erdogan, primeiro-ministro turco]. Ok, Putin não é santo, mas Erdogan está longe de ser também. Então, eles criticam tanto, tanto… mas, ao mesmo tempo, moram aqui, adoram a Rússia, têm família, ganham bem.
Então, o Kremlin não está ocupado com o que os correspondentes falam. Mas há algum controle. Ele funciona da seguinte forma: se você entrar no site do ministério de Relações Exteriores, você vai encontrar lá um negócio chamado “lista de correspondentes permanentes”. Você tem a lista de todos os correspondentes estrangeiros que moram na Rússia, com nome, telefone, endereço. O meu está lá, por exemplo. Qualquer pessoa que quiser me achar, pode ir na minha casa, ou me telefonar… eu não acho nada legal isso…
INT: Aumenta demais a vulnerabilidade…
SF: Eu fiquei especialmente com medo quando escrevi sobre a história dos gays e dos neonazistas. Eu entrevistei neonazistas, e pensei que depois que se ele googlasse meu nome, ele poderia me encontrar. Se ele pesquisa “Sandro Fernandes” em cirílico, eu tenho certeza de que sou o único que existe no país. Eu fiquei com um pouco de medo, mas ainda bem que nada aconteceu.
Por outro lado, a relação com o ministério é muito positiva, porque eles querem passar informações a todo instante, vender a propaganda deles. A gente recebe ligações direto sobre coletivas, fontes. O tema dos BRICS virou um motivo para me procurarem bastante. Me ligam da Duma [câmara baixa do congresso russo] também, mandam email. Eles estão prontos para fornecer material. E nisso vão nos achando. Você viu a história dos áudios dos pilotos russos [dos caças abatidos] que a Turquia divulgou ontem? A força aérea turca falando com os pilotos russos, que para provar que houve comunicação?
INT: Sim…
SF: Estou aqui sentado e , de repente, chega um email, em turco, de alguém que eu não sabia quem era (e depois eu descobri). Não sei como ele achou meu email, mas esse áudio foi enviado para mim e para várias agências, como prova da versão turca. Então você tem todo mundo querendo passar sua versão, e somos nós que decidimos sobre como abordar, sendo que isso pode ser passado como verdade. Por exemplo, para os jornalistas ingleses e norte-americanos, principalmente, um discurso oficial da Turquia vira “a” verdade. Não, você pode simplesmente falar que foi enviado pelo serviço de imprensa oficial do país, e se isenta. Nesse caso, não é uma questão de opinião, por exemplo. O ministério de Relações Exteriores russo disse que as gravações são falsas. O material foi enviado pelo setor de comunicação do governo turco. Então, você tem um lado dizendo que os áudios são verdadeiros, outo lado dizendo que são forjados…
INT: E aí o jornalista fica perdido nessa guerra de versões…
SF: Sim, é uma guerra de versões. Eu estou reportando versões, e nada mais. É sempre bem difícil manter esse balanço com assuntos sobre a Rússia. Menos mal que estou noticiando para o Brasil.
Outra coisa: as pessoas têm uma ideia idealizada da Rússia, em especial as pessoas de esquerda. Eu, que tenho quase todos os meus amigos ideologicamente à esquerda, percebo certo fascínio de alguns, algo que remete à ideia de comunismo. Atualmente o que sobrou do período na Rússia foi só a bandeira, porque não há nada de comunismo aqui. E as pessoas de direita também: “tudo o que acontece na Rússia é porque é um país comunista!”. Péssimo…
INT: Tem a frase do senso comum aqui, “vai pra Cuba!”, alguns também dizem “vai pra Rússia!”…
SF: É, eu vejo pelos comentários postados nas minhas matérias, é sempre oito ou oitenta. É muito difícil as pessoas entenderem que a Rússia e Putin não têm nada de comunistas. As coisas positivas que sobraram do comunismo, como educação universal, saúde, têm piorado muito nos últimos anos. Eles estão juntando escolas, hospitais, diminuindo a oferta a partir de “quadros” regionais, implementando políticas bem neoliberais.
INT: Qual era o ambiente na reunião do G20, ocorrida, logo após os atentados terroristas em Paris?
SF: Olha, eu tenho pânico e detesto essas reuniões (risos). O trabalho é corrido, mas tem muito blá-blá-blá. Mas foi interessante confirmar, desta vez, que os olhos estão voltados para a Rússia. E cada vez mais. E com menos preconceito sobre o país. Há uma ideia de que “precisamos ouvir a Rússia”.
Nesses eventos, geralmente tudo é em torno do [Barack] Obama, tudo gira ao redor dos Estados Unidos. A coletiva do Obama é muito concorrida: começa às 15h, eles abrem o espaço às 13h, mas a gente tem que chegar às 11h. E já se sabe quais serão as perguntas e os jornalistas que as farão. Putin, assim como Dilma [Rousseff], faz as entrevistas basicamente fechadas para a imprensa do seu país.
De toda forma, neste último G20 tava todo mundo esperando alguma coisa sobre a França, por causa dos atentados. O terrorismo foi um assunto quente, tomando o lugar da economia, em geral o mais destacado. Em geral, por exemplo, durante o evento do tipo, eu entro três vezes por dia ao vivo na GloboNews. Só no domingo (primeiro dia da Cúpula do G20) eu entrei no ar sete vezes. Dá pra perceber que houve um grande aumento de interesse nesse encontro.
INT: E logo após, uma semana e meia depois, temos a questão russa com a Turquia, ou a questão turca com a Rússia, depende do ponto de vista. Em contato com outros correspondentes, como você vê o panorama no país? Como está sendo a cobertura da imprensa russa?
SF: A mídia russa, olha… a Sputnik, agência estatal, colocou no ar a hashtag “punhalada pelas costas”, em inglês. Você imagina como a mídia está tratando tudo isso. A TV russa está colocando várias reportagens de conflitos entre Turquia e Rússia, todo o histórico entre os países. O Putin está usando frases de efeito, como declarar que o que aconteceu foi uma traição, que a Turquia era considerado um país aliado, que está inventando desculpas, etc. Todas essas frases fortes são repetidas na televisão sem parar, sem parar. Dá medo. Tanto que o resultado foi um bando de patriotas nacionalistas russos ir à embaixada truca para apedrejar, queimar bandeiras, jogar ovos. É claro que este é um assunto de grande importância, e o erro da Turquia é inaceitável, uma burrice enorme, sem cabimento…


INT: Ainda mais em um momento de crescimento de tensão na região. Parece até intencional…
SF: Exatamente, o que é hoje a teoria da Rússia. Eles afirmam que foi planejado.
INT: Dá para acreditar, com toda essa situação…
SF: E eu não duvido. Por que não? Não me surpreenderia se fosse descoberto que foi tudo planejado. Aqui isso tomou conta do noticiário, suprimindo o tema dos atentados. E isso ajudou a Rússia também, por outro lado. Quando caiu o avião no Egito — aliás, quando derrubaram, lá no Sinai — a opinião pública começou a criticar um pouco a história das incursões russas na Síria. De repente, os russos têm como inimigos o Estado Islâmico, e foi como se muitas pessoas dissessem ironicamente “muito obrigado, Kremlin”. Mas, uma semana depois, a Turquia derrubou um avião russo. A Turquia, não o Estado Islâmico… O que a Rússia respondeu? Que todas as incursões sírias são efetivas, e que vai continuar. E isso só confirmou, como uma aprovação, o apoio popular às ações. Saiu uma pesquisa nos últimos dias, dizendo que o apoio à atuação na Síria está em 55%, quase 60%. Agora começam as retaliações, pois vão pedir vistos aos turcos para entrarem no país, controlar a importação de alimentos… um deputado sugeriu na Duma que qualquer pessoa que negar o genocídio armênio pode pegar cinco anos de prisão [o genocídio armênio, que teve início em 1915, não é reconhecido pela Turquia, que controlava a região ainda como Império Otomano]. Como você fere a honra de um turco? Dizer que houve genocídio na Armênia. Bobos eles não são, e são bons de propaganda, principalmente internamente.
INT: Essa é uma situação exemplar?
SF: Sim, e vou te dizer que houve outras. Dois casos importantes, que foram a guerra na Ucrânia e a repercussão da aprovação de leis anti-LGBT. Acho até que esta foi mais forte. As pessoas que não tinham problemas com gays continuam não tendo, só que as pessoas que não se importavam com a questão começaram a se sentir incomodadas com os gays. Só que pior do que isso foram as reações — e eu não estou dizendo que não deveriam ter havido reações, claro — foi a mídia ocidental tratar a Rússia como se fosse Uganda [país com legislações discriminatórias], como se homossexuais estivessem sendo apedrejados aqui. Não, as coisas não são assim. A questão foi midiatizada de forma muito forte…
INT: Tem um vídeo que viralizou, com um casal sendo agredido verbalmente próximo ao Kremlin…
SF: Eu sinceramente acho que esse tipo de coisa não ajuda. Primeiro, não ajuda a causa LGBT, não ajuda a causa LGBT na Rússia. Serve muito mais como propaganda anti-Rússia. Para o russo gay, que é o grande tema e o grande interessado da questão, só está piorando. É muito complexo, porque invisibilidade também não é legal. Enfim, isso é outra história. Mas, basicamente, toda essa questão LGBT no ocidente, toda essa torrente de críticas, que foi marcante até nas Olimpíadas [de inverno] de Sochi [2014], internamente resultaram ótimas para o governo. A Rússia tem a coisa de ter um inimigo. De repente, você tem todo o Ocidente criticando a Rússia, e aí você tem o inimigo que a Rússia tanto quer.
INT: Tem essa verve nacionalista…
SF: Logo depois teve a questão na Ucrânia, depois Síria, Turquia. Eu moro aqui há seis anos. Não sou historiador, mas acho que, desde o fim do período soviético, esse nacionalismo, esse orgulho russo, nunca esteve tão aflorado.
INT: Saindo do assunto Rússia, você esteve acompanhando o problema dos refugiados no continente europeu em países como Macedônia e Bulgária. A situação extrema dessas pessoas é uma realidade conflitante com o imaginário que o público médio brasileiro tem da Europa, como se esta fosse um território idílico. Como foi a sua experiência nos locais onde esses grupos aportam?
SF: O primeiro lugar que parei foi em uma pequena cidade na fronteira entre Macedônia e Grécia. O fluxo vinha do lado grego, e ali há uma certa confusão, porque os refugiados entram pela União Europeia (Grécia), mas se encaminham para um país que não faz parte do grupo, e depois retornam à UE, ao seguirem caminho. São milhares por dia, dez, 15 mil. Um calor insuportável no sul da Europa, 47, 48 graus, e os grupos andando. Nas fronteiras, há os grupos de acolhida, com representantes da Cruz Vermelha e do Crescente Vermelho. Alguns dos refugiados vêm com uma boa quantidade de dinheiro, então há ônibus esperando esses que conseguem pagar para levar de uma cidadezinha a outra. Há vários processos burocráticos, documentos que permitem ir para um lugar, mas não para outros, etc.
O que mais me impressionou, primeiramente, foi ver esse fluxo de pessoas. Quando eu estava em Atenas, você vê todos ali. Nos vilarejos, você vê aqueles grupos enormes de pessoas caminhando entre as cercas, nas estradas. Você via centenas, milhares de pessoas, homens, mulheres, crianças, famílias inteiras.


A segunda coisa que me chamou mais atenção são os aproveitadores. Você vê taxistas dizendo que não tem trem ou ônibus do outro lado da cerca, vendedores que tentam vender água dizendo aos refugiados que não há água no caminho. Mentira, tudo mentira. Então você vê gente se aproveitando de pessoas que estão no momento mais frágil de suas vidas, e estas só querem continuar a viagem. Estão exaustas, mas precisam cruzar várias fronteiras até chegar a países como a Alemanha. Eu vi taxistas cobrando 300 euros por pessoa para levarem de uma cidade a outra, e muitos aceitando porque, simplesmente, querem logo chegar, terminarem a viagem… é a miséria humana, nas dois sentidos da palavra.
Sendo uma pessoa de classe média, eu acabei me identificando com vários refugiados, pessoas que têm referências culturais que eu também tenho, que têm perfil no facebook, etc, é um choque. Pensei muito em meus pais: fiquei imaginando eles terem que abandonar a casa deles em Campo Grande, onde passaram a vida inteira, sendo forçados a fugir do Rio, que está sendo atacado, e precisando chegar a pé no Suriname. É assustador. São muitas histórias de vida, eu me arrepio só de falar… em vários momentos, lá e após, eu me senti muito mal, tive que ligar para os amigos pra desabafar, chorando…
INT: Somos jornalistas, mas também somos humanos…
SF: Mas tem muita gente que acha que não, que a gente tem que ser “objetivo”. Como se fosse possível não sentir nada…
INT: Eu vejo a foto do Ailan, aquele menino que morreu afogado, e mesmo sabendo que outros também tiveram aquele fim, ainda fico muito abalado…
SF: Quando a gente vê as crianças, é muito forte. Toca demais. A decisão de publicar aquele foto foi difícil, imagino… eu sei que, como jornalista, a foto foi importante e necessária. Mas é controverso. E como todo fato social, além das histórias contadas, sempre rola um sensacionalismo. E é muito difícil não cair em uma coisa maniqueísta: tem o fascismo do “mandem de volta os refugiados”, mas também há a dramatização de tudo. O drama humano vende, e uma história que é agenda mundial também, óbvio. Mas a gente tem que se dar conta que está falando de questões que também econômicas, também políticas. Como jornalista, a gente também precisa ser pragmático. Eu, principalmente em relação à Síria, eu quis abordar mais esse lado. Depois da história do Ailan, basicamente todas as coberturas viraram um grande bordel de emoção…
INT: Um melodrama…
SF: Um melodrama. Era tudo muito triste. Eu pensei “ok, há um problema a ser resolvido, com muitos países envolvidos”. Ou seja, é uma questão humanitária muito grande, há muita política envolvida nisso. No final de agosto, houve muito problema na fronteira entre Sérvia e Macedônia, com uso de spray de pimenta, fechamento de fronteira. Bom, eu fiquei surpreso com a rapidez que um país como a Macedônia (e eu não quero ofender a Macedônia, mas se um país como a Alemanha não está pronto para receber os refugiados, imagina a Macedônia), se estruturou. Em uma semana que estava lá, eu vi eles organizando ajuda, auxilio aos refugiados, com a ativa participação das autoridades do país. Eu não esperava ver aquilo, pensei que estaria uma situação degradante. Mas eles se organizaram pra receber aquele fluxo de gente, fizeram uma boa organização. É saber lidar com uma situação.
E nessa cobertura na fronteira Macedônia-Sérvia, quando cheguei a Budapeste [Hungria] foi um momento dos mais emocionantes, porque o presidente húngaro, o doido do [Victor] Orban, dizia que ia fechar as fronteiras, construir a cerca (e construiu)… no segundo dia que eu estava lá, foi permitido a todas essas pessoas, que estavam na estação ferroviária central, que fossem para a Áustria. Era domingo, e começaram a fazer uma festa, refugiados e húngaros, que de repente fizeram uma grande celebração, dançaram juntos, flertaram, se divertiram. Por algum momento, esqueceram diferenças, problemas. Provavelmente, nunca mais vão se ver. Foi, desculpe o clichê, emocionante. Eles estava ali celebrando a vida. E aí a gente vê que, na realidade, todas as fronteiras são imaginárias, que elas não existem. Após de quatro anos morando na Espanha, mais seis na Rússia, qualquer rompante patriótico me deixa nervoso.
A cobertura em Calais [França, ponto de entrada para o Eurotúnel que leva ao Reino Unido] me deu também uma outra compreensão. Depois do trabalho, estava com uma amiga e fomos comemorar o ano novo etíope no acampamento de tendas, em uma boate de lona. Era tudo organizado por países, mas o que mais em chamou a atenção — e me lembrou muito o Ensaio sobre a cegueira, do [José] Saramago — é que, apesar disso, havia uma parte que era como um bairro de classe média. Não importava a nacionalidade, ali estava quem tinha mais dinheiro. Daí você pensa: há uma situação de calamidade, com as pessoas vivendo em lonas, esperando para atravessar um túnel subterrâneo a pé, mas, mesmo assim, as pessoas conseguem se separar pela questão social, e fica ainda mais difícil de resolver o problema de todos ali, que é o mesmo. Isso reflete algo que eu já notei, e até com certa vergonha: as pessoas elogiam muito o multiculturalismo, mas parece que ele só é “legal” quando o meu multiculturalismo se sobrepõe ao do outro ou é similar ao do outro. A integração com aquele de outra classe social, por exemplo, é muito mais difícil. E é triste ver que esse tipo de diferenciação vai pesar, esteja em qualquer lugar.
Semana que vem tem a segunda parte da entrevista, que vai tratar de temas como os BRICS, relações com o Brasil e racismo no país.